domingo, 19 de agosto de 2012

Pacote privatista de Dilma faz a felicidade dos empresários

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“Tenham certeza de que nunca, jamais me verão tomando decisões ou assumindo posições que signifiquem a entrega das riquezas nacionais a quem quer que seja” [1]
- Dilma Rousseff, 2010.


Na última quarta-feira (15/08) o governo petista anunciou um amplo programa de privatizações da infra-estrutura do país. Batizado de “Programa de Investimentos em Logística” ou “PAC das Concessões” o pacote entregará à iniciativa privada 7,5 mil quilômetros de rodovias, 10 mil quilômetros de ferrovias, mais portos, aeroportos, hidrovias, além de R$ 133 bilhões para investimentos.

O plano fez a alegria dos demotucanos e do empresariado. Eike Batista chamou o pacote de “kit felicidade[2], enquanto que o presidente nacional do PSDB, Sérgio Guerra, publicou uma nota onde “cumprimenta a presidente Dilma por ter aderido ao programa de privatizações, há anos desenvolvido pelo partido, como um dos caminhos para acelerar os investimentos em infraestrutura.[3]

Ignorando que as gestões petistas privatizam desde o primeiro mandato de Lula [4] (incluindo a própria infra-estrutura), Guerra lamentou o “atraso” da iniciativa. Por outro lado, a Presidente Dilma, ciente da contradição do pacote anunciado com o seu discurso eleitoral, tentou negar o caráter privatista da sua medida:

“Esta é uma questão absolutamente falsa. Eu, hoje, estou tentando consertar em ferrovias alguns equívocos cometidos na privatização das ferrovias. Hoje, eu estou estruturando um modelo no qual nós vamos ter o direito de passagem de todos quanto precisarem transportar sua carga. Na verdade, é o resgate da participação do investimento privado em ferrovias, mas é também o fortalecimento das estruturas de planejamento e de regulação. Por que o que um operador independente vai fazer? Ele vai transportar a carga que ele achar necessária. Ninguém que é dono de uma carga pode controlar uma ferrovia. A ferrovia é de todos os que querem passar carga – isso é o princípio de quem tem rede” [5]

Na própria negativa fica claro tratar-se sim de privatização! Dessa vez foram poucos os blogueiros mais comprometidos com o governismo que tiveram o desplante de inundar a internet com artigos explorando uma falsa dicotomia “privatização x concessão”, como ocorreu no caso dos aeroportos.

Na cerimônia em que anunciou o “kit felicidade” dos empresários, a Presidente erigiu os mesmos argumentos dos demotucanos para justificar o entreguismo:

“O nosso propósito com este programa e os que anunciaremos na seqüência para aeroportos e para portos é nos unirmos aos concessionários para obter o melhor que a iniciativa privada pode oferecer em eficiência, e o melhor que o Estado pode e deve oferecer em planejamento e gestão de recursos públicos” [6]

Apesar da atual crise financeira estar mostrando exaustivamente que a “eficiência” da iniciativa privada tem sido recorrer ao “ineficiente” Estado para não falir, Dilma retoma essa velha e falsa dicotomia. O seu próprio plano deixa evidente que o Estado brasileiro estará por trás dessa celebrada “eficiência”:

“As parcerias que estamos propondo em rodovias, concessões e ferrovias PPP são muito atraentes em termos de rentabilidade, de risco e de financiamento. Meu governo reconhece as parcerias com o setor privado como essenciais à continuidade e aceleração do crescimento. Essas parcerias nos permitirão oferecer bens e serviços públicos mais adequados e eficientes à população” [idem 6]

As “parcerias” via PPPs preveêm que o Estado aporte até mais de 70% dos recursos investidos e que remunere o percentual do lucro desejado pelo adminstrador privado. No caso do pacote anunciado por Dilma o BNDES poderá aportar de 65% a 85% dos recursos dos projetos [7] e pagar a diferença da demanda não efetivada. Realmente é muito atraente!

Privatizações envolvendo farto dinheiro público tem sido a regra no Brasil. Foi assim nas gestões de Fernando Henrique Cardoso, nas de Lula e agora na de Dilma. A explicação didática de Wagner Bittencourt, Ministro da Secretaria de Aviação Civil, durante as privatizações dos aeroportos é reveladora de como opera esse processo:

“Funciona assim: de cada R$ 100 investidos, R$ 70 virão do BNDES e de outras fontes de financiamento e R$ 30 dos sócios. Dos R$ 30, R$ 14,7 virão da Infraero, muito menos que os R$ 100 gastos hoje, mas ela vai ter metade do retorno do negócio, quase 50% dos dividendos” (…) “É o melhor negócio do mundo.” [8]
Como a Infraero é estatal, dos R$ 100 investidos, os sócios privados desembolsam apenas R$ 15,3 para abocanhar a maior parte do lucro. É muito atraente mesmo!


Crise e posição de classe

Com o aprofundamento da crise financeira no mundo e no Brasil e o esgotamento dos efeitos das medidas “anticrise” implementadas pelo governo federal desde 2008 e, por ter optado por administrar o capitalismo, a gestão petista não encontra outra alternativa que não seja buscar manter e elevar as taxas de lucros dos bancos e das grandes empresas, tentando retroalimentar o sistema de acumulação e reprodução do capital em crise.

Nesse contexto o caráter privatista do seu governo e seu enfrentamento com a classe trabalhadora se aprofundarão. Ficará cada vez mais evidente aos olhos do grande público o caráter neoliberal e de classe da gestão petista, algo que nem os discursos dissimuladores de seus dirigentes conseguirão ocultar.

No andar de cima da pirâmide já há ampla celebração. Até a Revista Veja publicou uma edição cuja capa comemora “O choque de capitalismo de Dilma”. [9]

Como em uma sociedade de classes não há “choque” em uma ponta que não seja sentida em outra, para realizar privatizações e promover isenções e subsídios ao grande capital, a classe trabalhadora brasileira deve ser sacrificada. Já está sendo assim com a atual greve dos servidores públicos e com as demissões nas montadoras.

Os ex-presidentes, Fernando Henrique Cardoso e Lula, saíram em defesa da intransigência de Dilma diante das greves dos servidores. Se o tucano apelou para a “dificuldade financeira fiscal[10], embora seu partido defenda a privatização com recursos públicos, o petista, evocando a mesma limitação de recursos, deixou claro a máxima da sociedade de classes dos interesses antagônicos e conflitantes, e qual classe deve ser atendida:

“O governo tem de trabalhar com o dinheiro disponível. As pessoas, de vez em quando, precisam compreender que o governo não tem todo o dinheiro que a gente quando está fora pensa que tem. O dinheiro é limitado”

“Penso que a Dilma tem vontade de atender as pessoas, mas ela tem limitações orçamentárias, ela tem outras coisas para fazer: ela tem investimento em infraestrutura, que é importante para melhorar a vida do povo.” [11]

Ou seja, para Lula, os servidores devem compreender que devem aceitar o arrocho salarial porque os recursos da União devem ser drenados para os lucros do empresariado que abocanhará a infra-estrutura que será privatizada! O mesmo orçamento que não suporta R$ 92 bilhões para os servidores [12] admite R$ 133 bilhões para os empresários!

O aval do ex-presidente petista a essa política de Dilma mostra que é ilusória a ideia daqueles que, diante do recrudescimento dos ataques do atual governo, acham que com Lula seria diferente. Ele também privatizou, atacou greves e direitos dos trabalhadores. Dilma é a continuidade da sua gestão.

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[1] Aeroportos: mais uma privataria petista (11/02/2012):

[2] “É um kit felicidade para o Brasil”, diz Eike Batista (15/08/2012):

[3] Presidente do PSDB cumprimenta Dilma por adesão às privatizações, mas lamenta atraso (15/08/2012):

[4] Lula: ruptura ou continuidade de FHC? (27/11/2010):

[5] Para Dilma, programa de concessões vai saldar dívida de décadas de atraso em investimentos em logística (15/08/2012):

[6] O Brasil finalmente terá uma infraestrutura compatível com o seu tamanho, afirma Dilma (15/08/2012):

[7] Governo anuncia concessão de ferrovias e de estradas. Empresas investirão R$ 133 bilhões (16/08/2012):

[8] A farra da privatização dos aeroportos (23/10/2011):

[9] Dilma dá uma guinada radical em relação à orientação de Lula e quer um choque de capitalismo (17/08/2012):

[10] Jornal: FHC apoia firmeza de Dilma em relação às greves (15/08/2012):

[11] Lula defende posição de Dilma em greve de servidores (15/08/2012):

[12] R$ 92 bilhões é o gasto estimado pelo governo caso atendesse às reivindicações salariais de todas as categorias do serviço público em greve.
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sábado, 18 de agosto de 2012

Operários em greve são assassinados na África do Sul

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Massacre na África do Sul traz à tona memórias do Apartheid


16.08.2012


José Antonio Lima. Carta Capital



Policiais sul-africanos cercam corpos de mineiros mortos em Marikana. A cena fez lembrar o Apartheid. Foto: AFP

A cena era muito comum nos anos em que a África do Sul era dominada pelo regime segregacionista do Apartheid. De armas na mão, policiais observam os corpos de manifestantes no chão, ensanguentados, após o protesto ser “contido” pelas autoridades. Nos anos 1990, os policiais eram brancos e, os mortos, todos negros lutando por igualdade. Hoje, os corpos continuam sendo de negros, mas muitos policiais também são. O conflito não é racial, mas trabalhista. É a África do Sul de 2012, livre do atroz regime da supremacia branca, mas ainda flagelado pela desigualdade e por um mercado de trabalho cruel.
A chacina de quinta-feira 16 ocorreu nas minas de Marikana (a 40 quilômetros de Johannesburgo), onde a empresa britânica Lonmin obtém 96% da platina que exporta para todo o mundo. As cenas jogaram os sul-africanos mais de uma década para trás. Em trajes de choque e fortemente armados, os policiais montavam barricadas com arame farpado quando foram flanqueados por grupos de trabalhadores, muitos deles armados com machetes, lanças e outras armas improvisadas. A polícia, então, abriu fogo contra os manifestantes. Após a salva de tiros, pelo menos sete corpos ficaram no chão. A agência Reuters afirmou que até 18 pessoas podem ter sido assassinadas.
Nesta sexta-feira 17, as notícias mostraram que o massacre foi ainda maior. Pelo 34 pessoas morreram e outras 78 ficaram feridas e foram levadas aos hospitais de Rustemburgo e Johannesburgo, duas das maiores cidades da região. Imediatamente após o massacre, a polícia sul-africana não se manifestou. Nesta sexta, foi inevitável. E as declarações não servem para explicar o banho de sangue. “A polícia teve que usar a força para se proteger do grupo que estava atacando”, disse Riah Phiyega, um ex-executivo de bancos que é o comandante da polícia sul-africana desde junho.
Horas depois das mortes, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, emitiu um comunicado lamentando o episódio e prometendo levar os culpados à Justiça. Segundo Zuma, há na África do Sul “espaço suficiente na ordem democrática para que qualquer disputa seja resolvida por meio do diálogo sem rompimentos da lei ou violência”.
A fala de Zuma não encontra ecos na sociedade sul-africana. Segundo a agência Reuters, o jornal Sowetan questionou em editorial nesta sexta-feira o que havia mudado no país desde 1994, quando o Apartheid chegou ao fim. Para a publicação, os negros pobres continuam sendo tratados como objetos pelo governo. Instituições ligadas aos direitos humanos condenaram o massacre, também assemelhando o ato policial ao tipo de comportamento que as autoridades tinham durante o auge do regime racista.


Armados, mineiros ocupam monte perto da mina de Marikana, nesta quinta-feira 16, antes do confronto com a polícia. Foto: AFP

O massacre em Marikana é o ponto culminante de seis dias de violência. Desde 10 de agosto, quando a paralisação teve início, trabalhadores que tentaram furar a greve foram atacados e pelo menos dez pessoas morreram, entre elas dois policiais. Há relatos de que a violência é resultado da rivalidade de oito meses provocada por uma disputa de poder entre dois sindicatos de mineiros, um existente há mais de 20 anos e outro recém-aberto. Um líder grevista afirmou ao jornal sul-africano The Star que os 3 mil mineiros estavam ali em nome próprio, após décadas de “negociações infrutíferas” dos sindicatos. Os trabalhadores tinham, segundo este líder, duas reivindicações. Serem recebidos por diretores da Lonmim e um aumento salarial dos atuais 5000 rands (equivalente a 1200 reais) para 12000 (cerca de 2900 reais).
Barnard Mokwena, vice-presidente-executivo da mineradora, afirmou que a empresa estava interessada em negociar por meio de “estruturas reconhecidas” (leia-se os sindicatos) e que não pretendia dar aumento salarial. A grande preocupação da Lonmim é com a queda de mais de 6% de suas ações na Bolsa de Londres e com o fato de ter deixado de produzir cerca de 15 mil onças (425 quilos) de platina nos últimos seis dias. A diretoria da Lonmim se recusou a comentar o massacre em suas minas. A empresa se limitou a dizer, à agência Associated Press, que se tratava de uma “operação policial”.


O vídeo abaixo, da rede de tevê Al-Jazeera (em inglês), do Catar, mostra imagens do massacre (cenas fortes):

http://www.youtube.com/watch?v=meqSjgMKv-I&feature=player_embedded

Extraído de:
http://www.cartacapital.com.br/internacional/massacre-na-africa-do-sul-traz-a-tona-memorias-do-apartheid/
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domingo, 12 de agosto de 2012

Para o capital, mais benesses; para o povo, o Exército


Conforme se acirra a crise econômica no mundo e no Brasil vai ficando cada vez mais evidente o caráter de classe da gestão petista.

A realidade concreta aponta que, ao contrário dos discursos, suas medidas “anticrise” visam unicamente proteger as taxas de lucros dos bancos e das grandes empresas, mantendo assim o processo de acumulação e reprodução do capital no país, e não os trabalhadores.

Na tentativa de ocultar sua política pautada na privatização dos lucros e socialização dos prejuízos, o Governo Dilma apela para a velha estratégia militar do “dividir para conquistar”, tentando jogar os trabalhadores do setor privado contra os do setor público. As voltas com uma onda de greves de servidores públicos de inúmeras categorias, Dilma disse, para não atender suas reivindicações, que a prioridade da sua gestão é proteger os trabalhadores privados, que não possuem estabilidade. [1]

Em uma reprise do que fez o “neocompanheiro” Fernando Collor de Mello em sua gestão, essa divisão intraclasse, fomentada pelo governo petista, visa consolidar a conquista do terreno pelo capital, pois este tem demitido tranquilamente seus trabalhadores sem importunação alguma por parte do governo petista. [2]

A luta dos trabalhadores contra as intenções demissionais da General Motors (GM) em São José dos Campos, obrigou a Presidente Dilma a dar declarações “indignadas” e até fazer “ameaças” ao setor automotivo. Puro jogo de cena! Na última terça-feira (07/08) o Senado aprovou duas Medidas Provisórias (MP) do Executivo onde as montadoras foram “punidas” com mais benesses, incluindo a continuidade do IPI reduzido, inclusive para fabricação de carros no exterior. A medida se torna ainda mais impressionante quando se verifica que a redução do IPI pode acabar em outros ramos da economia. [3]

As M.Ps aprovadas pelo Senado (563 e 564/12), e que já haviam passado pela Câmara dos Deputados, estenderam para 15 os setores que terão desoneração da folha de pagamentos. É uma medida que impacta diretamente na arrecadação da previdência, prejudicando os trabalhadores.
Elas também ampliaram o leque de empresas a serem socorridas pelo Estado, via BNDES, além de destinar mais R$ 45 bilhões do Tesouro para o BNDES subsidiar o capital, o que acarreta em elevação do endividamento público.
Ainda foi incluído um projeto de lei para acabar com a multa adicional de 10% sobre o Fundo de Garantia pelo Tempo de Serviço (FGTS) em caso de demissão sem justa causa.

Como se tudo isso não bastasse ainda foi noticiado que o Governo Dilma prepara, para após as eleições municipais, uma contra-reforma na previdência e outra na legislação trabalhista. [4]


Militarização das lutas sociais

Em uma sociedade de classes não há contradição em uma ponta que não impacte em outra. A ampliação das benesses despejadas para o capital já afetam negativamente a classe trabalhadora brasileira que cada vez mais se joga nas lutas.

É no contexto do aprofundamento da crise econômica e das medidas antipovo do governo petista que deve ser compreendida a onda de greves de servidores públicos que varre o país e não com teorias conspiratórias como a levantada pela colunista da Folha de São Paulo, Eliane Cantanhêde. [5]

É essa conjuntura que explica a crescente rebelião nas bases sindicais, a qual a Central Única dos Trabalhadores (CUT) não tem conseguido represar, criando uma falsa sensação de “confronto” dessa central, abertamente governista, com o governo petista. Não se pode esquecer que o projeto de reforma trabalhista que está na Casa Civil, e que coloca a primazia do negociado sobre o legislado, é de autoria do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, filiado à CUT.

Como as lutas tendem a se multiplicar e a atuação de seus agentes no movimento social carece cada vez mais de eficácia, o Governo Dilma resolveu apelar à força bruta e autorizou a utilização do Exército nas lutas sociais. É isso mesmo: o partido que nasceu das greves operárias e que lutou contra a ditadura militar, não só criou uma Comissão da Verdade que não pune os torturadores, como ainda reabilita a ação dos militares na repressão das lutas do povo.

O sistema repressor aprovado por Dilma tem o irônico nome “PROTEGER” e foi apresentado a ela pelo General Enzo Peri. [6] Celebrado pela colunista da Folha como “uma boa lembrança” à “elite do funcionalismo” [idem 5] seu alcance vai além dos trabalhadores públicos e inclui além dos trabalhadores privados, os setores excluídos que resistem:

“O Brasil terá um sistema completo de proteção das instalações estratégicas do País, que será capaz de evitar invasões como a que ocorreu na usina hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, em fevereiro de 2008 (...), quando integrantes do movimento dos atingidos por barragens chegaram à sala de operações e ameaçaram parar a distribuição de energia em grande parte do País.” [idem 6]

O sistema “protegerá” mais de 13.300 locais entre hidrelétricas, termelétricas, refinarias, estradas, telecomunicações, portos, aeroportos e o que mais for considerado “estratégico”. Grande parte desses setores estão em mãos privadas e são palcos frequentes de conflitos sociais, como é o caso das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Atualmente, por exemplo, os 44 mil trabalhadores da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, encontram-se em greve após rebelarem-se contra a burocracia e o peleguismo da direção do sindicato da categoria – alguns dirigentes chegaram a ser apedrejados.

São mais do que conhecidas também as greves dos operários na hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, onde denunciam as precárias condições de trabalho nos canteiros de obra, que em alguns casos resultaram em tragédia.

A obra é tocada com farto dinheiro público mas o consórcio é controlado pela belgo-francesa GDF Suez. Em 2011 o Governo Dilma enviou a Força Nacional para reprimir os operários. No mesmo episódio, o governo que diz proteger os trabalhadores não estáveis, avalizou a demissão de 6 mil operários pois para ele o problema eram as “contratações além do adequado”, ou seja, haveriam trabalhadores demais na obra. Quando em 2012 os operários fizeram outra revolta pelos mesmos motivos o governo petista tachou-os de “vândalos” e “bandidos”. [7]

O sistema “PROTEGER”, aprovado por Dilma, visa unicamente proteger os interesses do capital e para isso ampliará o número de “vândalos” e “bandidos” em todo o país. Assim serão qualificados todos aqueles que, direta ou indiretamente, se mostrar um estorvo para a acumulação, a reprodução e o salvamento do capital.

Esse amplo sistema de militarização evidencia que a “marolinha” chegou com força e que o próximo período será duro para o povo brasileiro, que não terá outra escolha senão se organizar e se mobilizar.


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[1] Dilma diz que prioridade é manter emprego dos que não têm estabilidade (10/08/2012):

[2] Setor automotivo mostra que trabalhadores pagam pela crise no Brasil (05/08/2012):

[3] Senado aprova medidas provisórias que ampliam incentivos para a indústria (07/08/2012):

Benefícios tributários podem acabar (10/08/2012):

10/8/2012 - Senado Federal aprova MPs do novo regime automotivo

[4] GOVERNO PREPARA REFORMAS E VAI 'FATIAR' PACOTE ANTICRISE (03/08/2012):

[5] Diz Eliane em seu artigo que:
Os servidores engoliram sapos e ficaram quietos na era Lula (como CUT, UNE, MST) e resolveram devolver agora com Dilma. Não vão recuar tão cedo.”
Chama o Exército! (09/08/2012):

[6] PROTEGER - Governo terá plano de proteção de R$ 9,6 bi (29/07/2012):

[7] Ministro de Dilma chama trabalhadores de vândalos e bandidos (07/04/2012):
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sábado, 11 de agosto de 2012

Classe trabalhadora reage a um ataque histórico


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Osvaldo Coggiola


Na greve do funcionalismo público federal (Andes, Fasubra, Sinasefe, principalmente) se concentram todas as contradições da política brasileira. Em inícios de agosto, até os servidores (funcionários) da Polícia Federal votaram sua entrada em greve. A oferta de “reajustes” salariais do governo Dilma não cobre sequer as perdas dos anos em que os salários permaneceram congelados, sem falar na destruição da carreira funcional. Uma vez descontada a inflação, mesmo usando índices modestos e otimistas, os reajustes médios propostos pelo governo até 2015 variam entre 0,36% e 5,52% negativos. A “economia de caixa” que o governo pretende com o arrocho salarial federal está a serviço de uma política de subsídios ao grande capital. Não se trata apenas do pagamento da dívida pública, que compromete cerca de 50% do orçamento da União, mas também, entre outras coisas, da utilização do endividamento público para repasse direto de recursos a empresas privadas, subsidiadas pelo BNDES (que acaba de comemorar o destino do montante de R$ 342 milhões a um dos maiores conglomerados industriais do mundo - a Volkswagen).

Benefícios Sem Resultados

Desde 2008, o governo (então Lula) abriu mão de R$ 26 bilhões em impostos para a indústria automotiva: cada carteira assinada pelos monopólios do automóvel custou um milhão de reais ao país. O resultado? A remessa, por essas empresas, de quase R$ 15 bilhões ao exterior, na forma de lucros e dividendos, para cobrir os buracos de caixa das matrizes “em casa” (EUA, Europa, Japão) e a onda de demissões que ora se desenvolve no setor automobilístico. A crise mundial não perdoou o Brasil, como irresponsavelmente Lula insistiu em dizer ao longo de anos. A produção industrial recuou por três meses consecutivos, e o investimento por três trimestres consecutivos, em que pese os generosos créditos ao capital do BNDES com taxas subsidiadas, configurando um panorama de recessão. Isto em que pese o pacote de estímulos industriais, que perfaz a soma de R$ 60 bilhões (desoneração fiscal, ampliação e barateamento do crédito, redução de 30% do IPI, subsídios para as tarifas elétricas, etc.). Em energia, houve 10% de redução para as grandes empresas; os grandes empresários já pagam por uma energia subsidiada, mas continuam pressionando o governo para uma redução da carga tributária. Não bastasse todos os incentivos já oferecidos, como as reduções tributárias para estimular a venda de veículos e reduzir o estoque das montadoras nos pátios, agora o BNDES também oferece recursos para elas brincarem de “inovação tecnológica”.

A crise mundial bate diretamente à porta do país: o saldo comercial favorável de US$ 31,3 bilhões de novembro de 2011 (quando as exportações brasileiras bateram recordes históricos) recuou para US$ 23,9 bilhões em junho deste ano. A desaceleração do PIB já bate as previsões mais pessimistas. A taxa de juros de longo prazo foi reduzida de 6% para 5,5%, e o governo anunciou compras (máquinas, caminhões, ônibus) por valor de R$ 6,6 bilhões. O resultado? Menos de 1% de investimento no PIB, que não alcança para compensar nem metade da queda do investimento durante o primeiro trimestre de 2012. E novas demissões no setor automotivo, começando pela GM de São José dos Campos, que anunciou 1.500 demissões e um plano de delocalizações (o processo de demissões também vem afetando outras montadoras: Volkswagen, Mercedes, Volvo).

A Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2013 prioriza o superávit primário e não assegura reajuste para o funcionalismo público além do que for negociado até 31 de agosto, proporcionando a garantia do superávit primário para remuneração dos parasitas financeiros (em 2012 a parcela do Orçamento Geral da União destinada aos juros e amortizações da dívida já supera os 47%) e criando todo tipo de obstáculo para a recuperação das perdas salariais dos servidores públicos. Desde o Plano Real (1994), enquanto os gastos governamentais ficaram congelados, a LDO garantiu atualização da dívida de forma automática, mensalmente, e por índices calculados por uma instituição privada, índices que tiveram variação muito superior ao índice oficial de inflação, o IPCA. Sobre essa robusta atualização ainda incidem elevados juros reais (a Lei de Responsabilidade Fiscal limita gastos e investimentos sociais, mas não estabelece limite algum para o custo da política monetária), por isso a dívida brasileira é a mais cara do mundo, uma política que foi acentuada pelos governos do PT. A dívida federal tem sido atualizada automaticamente, mensalmente, pelo IGP-M. A dívida dos estados (com a União) tem sido atualizada automaticamente, mensalmente pelo IGP-DI. Ambos são calculados pela FGV e suas variações no período foram muito superiores ao IPCA.
A dívida pública brasileira já supera R$ 3,2 trilhões (em valores de novembro de 2011), ou 78% do PIB, e consome quase metade dos recursos da Federação. Tudo é bom para pagá-la, até o imposto de renda das pessoas físicas, modificado sob a justificativa de simplificação: diversas deduções foram abolidas, e o trabalhador está cada vez mais onerado; enquanto desde 1996 as “pessoas jurídicas” (empresas) podem deduzir juros calculados sobre o capital próprio, despesa não efetivamente paga, fictícia, que beneficia empresas altamente capitalizadas, como os bancos. Houve fechamento de postos de trabalho em grandes bancos, principalmente Itaú e Banco do Brasil. A rotatividade de mão de obra continua alta nas instituições financeiras e é utilizada para reduzir a massa salarial. O salário médio dos trabalhadores contratados, em número menor às demissões, foi 38,2% inferior ao dos desligados.

Ataque Histórico

O arrocho salarial público e privado é, nesse quadro, o primeiro patamar para um ataque histórico com vistas a que “os trabalhadores paguem pela crise”. O corte de salário dos grevistas das universidades, por exemplo, é uma medida inconstitucional, pois desrespeita o preceito pétreo da autonomia universitária. A resposta do funcionalismo (especialmente docentes e funcionários educacionais) não se fez esperar: em tempo recorde foram paralisadas 58 das 59 universidades federais, e foram organizadas massivas marchas e jornadas de luta em Brasília. Isto pese à forte atuação de um pseudo sindicalismo pelêgo (Proifes) favorecido e subsidiado pelo governo (e a CUT) nas universidades. Os auditores fiscais empreenderam medidas de luta em todo o país, por um reajuste salarial de 30%, que chegaram a paralisar o polo industrial de Manaus. Os professores estaduais da Bahia já completaram quatro meses de greve com assembleias multitudinárias. Nos servidores do Ministério da Saúde (ex-INAMPS) e do MTE a proposta de greve por tempo indeterminado não foi aprovada, mas está se realizando um dia de paralisação por semana.

E os trabalhadores do setor privado também começaram a reagir, com o corte da Via Dutra pelos trabalhadores da GM, contra as demissões e o “banco de horas” (flexibilização trabalhista); em São José há um processo de reação dos metalúrgicos, com uma passeata com 2.500 trabalhadores e duas paralisações de duas horas (foi votado o “estado de greve”), além de outras greves, por enquanto localizadas. E teremos agora a entrada em cena de categorias fundamentais como correios, petroleiros, bancários e metalúrgicos com suas campanhas salariais no segundo semestre. Fundamental, após mais de vinte anos sem realizar greve, os trabalhadores eletricitários das empresas do grupo Eletrobrás – Furnas, Chesf, Eletronorte, Eletrosul e outras 10 empresas – paralisaram a partir de 16 de julho. A decisão pela greve foi tomada em assembleias realizadas em todo país. Os trabalhadores não aceitaram a contraproposta da empresa referente ao reajuste salarial, reivindicando 10,73% (a Eletrobrás ofereceu apenas 5,1%). A categoria tem cerca de 30 mil trabalhadores; a greve atinge 14 empresas, sendo oito são geradoras de energia. Os petroleiros (FUP) também discutem a possibilidade de greve.

Revolta dos Trabalhadores

A revolta crescente dos trabalhadores é a revolta das forças produtivas contra a decomposição do capital e a submissão nacional. A postura do governo Dilma frente à greve nacional dos docentes e, mais recentemente, dos técnicos e administrativos das universidades federais não é uma simples “contenda trabalhista”, embora a greve possua pauta precisa e objetiva: carreira, malha salarial e condições de trabalho (mais concursos e recursos para as instituições). Em 13 de julho, quando a greve dos professores das universidades federais já estava a ponto de completar dois meses, o governo finalmente ofereceu à categoria uma proposta, rejeitada pelas assembleias de base da categoria. A partir dos dados do ICV/Dieese e de uma projeção futura, o Andes estimou o reajuste necessário em, pelo menos, 35%. Para a maior parte dos docentes, a proposta do governo significará, em 2015, um salário real menor que o recebido em 2000. A tendência é a greve continuar: na rodada nacional de assembleias gerais, entre os dias 16 e 20 de julho, para avaliar a proposta apresentada pelo governo, os professores rejeitaram a proposta de modo categórico; as 58 AGs realizadas rejeitaram a proposta, a maioria por unanimidade.
Depois de agradar o capital (financeiro, industrial, comercial e agrário) com todo tipo de “bondades”, ao longo da última década, acentuadas no governo de Dilma Roussef, garantindo o total apoio político daquele, o governo define agora a agenda de um ataque histórico ao trabalho, mediante as “novas regras do INSS” (destruição da previdência social pública e fator 85/95: concessão de aposentadoria quando a soma da idade e do tempo de contribuição for de 85 anos para as mulheres e de 95 anos para os homens; sem falar que desde a implantação do “fator previdenciário”, o governo “economizou” R$ 21 bilhões, dinheiro roubado dos trabalhadores) e a “flexibilização do mercado de trabalho” (adequação de legislação trabalhista às necessidades do capital em crise): “Reforma da previdência, flexibilização das leis trabalhistas e privatizações são temas da velha Agenda Perdida, elaborada por economistas quando da primeira eleição de Lula, em 2002”, de acordo com um comentarista do capital, com vistas a “desobstruir os investimentos produtivos e cuidar do crescimento da economia pelo lado da oferta”. O que quer dizer este enigmático enunciado?

Reformas Após Eleições

Segundo Valor Econômico, “a presidente Dilma Rousseff prepara para depois das eleições municipais a negociação com o Congresso de duas reformas: a da previdência do INSS, em troca do fim do fator previdenciário, e a que flexibiliza a legislação trabalhista, cujo anteprojeto está na Casa Civil e que deverá dar primazia ao que for negociado entre as partes sobre o legislado, ampliando a autonomia de empresas e sindicatos”. Seriam tomadas “medidas de concessão do serviço público ao setor privado, redução dos encargos da conta de energia elétrica, reforma do PIS/Cofins e incorporação de mais setores na desoneração da folha de salários”. Dilma realizaria o “trabalho sujo” que o governo Lula deixou pendente.

Porque agora? Pelo impacto da crise (mundial): só no Estado de São Paulo, nas plantas de São José dos Campos e São Caetano do Sul, a GM já demitiu em quinze meses mais de dois mil operários, 1.400 só em São José dos Campos. Entre outras coisas, a idade mínima de aposentadoria seria elevada (acabando com a aposentadoria por contribuição e instituindo a idade mínima de 65 anos para homens e 60 anos para as mulheres) e a desoneração da folha salarial, já implementada, seria acrescida da facilitação para demitir e contratar precariamente, ou “Contrato Coletivo Especial”. O governo propõe o “Acordo Coletivo de Trabalho com Propósito Específico” (ACE), que regulamentaria a criação de Comitês Sindicais de Empresa (CSE), ignorando a legislação trabalhista e os próprios sindicatos por categoria. É um ataque histórico às conquistas dos trabalhadores.

E há um recrudescimento do processo de criminalização das lutas e organizações dos trabalhadores e da violência contra os pobres que se manifesta nos assassinatos de dezenas de jovens pobres e negros pela polícia na periferia de São Paulo; violenta repressão às greves dos operários da construção civil (há operários presos até hoje em Rondônia, devido à greve que ocorreu de Jirau, em abril); a violência da desocupação do Pinheirinho; ameaças de morte a dirigentes e ativistas de movimentos populares da cidade e do campo. Diante disso também há um crescimento das lutas populares, tanto no campo quanto na cidade, como se expressou na resistência do Pinheirinho, em diversas outras ocupações urbanas, na luta quilombola (como no Quilombo do Rio dos Macacos, na Bahia).

Reação

A reação operária e sindical provocou que, surpreendentemente, “a Central Única dos Trabalhadores (CUT) repudia(e) veementemente a publicação do decreto governamental 7777 que prevê a substituição dos servidores públicos federais em greve por servidores estaduais e municipais” (isto sem falar no corte de ponto do funcionalismo ordenado por Dilma) e até uma fração do PT, até aqui caracterizada pela obsequencia, manifestasse que “no governo Dilma os salários foram congelados no primeiro ano de governo e as reposições inflacionárias passaram a ser promessas, feitas de forma parcelada e após o período de apuração”, o que é menos do que uma parte da verdade (os salários foram congelados bem antes). Ora, o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (CUT) encaminhou ao governo e ao Congresso Nacional um Anteprojeto de Lei que modifica a CLT e cria o Acordo Coletivo Especial, cujo conteúdo essencial é “fazer prevalecer o negociado sobre o legislado” nas relações de trabalho. Certamente, a CUT nada faz para unificar as lutas, e menos ainda para organizar um plano de lutas de toda a classe trabalhadora, mas essas manifestações públicas anunciam uma crise na base política histórica do governo petista.
Está colocada, portanto, a luta por uma frente sindical e política pela defesa da classe trabalhadora, pela unificação das greves e das lutas do setor público e privado, e pela independência de classe. Depois de uma década, a base política do governo está rachando: sobre a base da mobilização, e das plenárias de base estaduais e nacionais, devemos propor a frente única das organizações operárias e populares, por um Plano Unificado de Lutas para fazer com que os capitalistas, não os trabalhadores e a nação, paguem pela crise.


Extraído de:
http://carosamigos.terra.com.br/index/index.php/artigos-e-debates/2357-classe-trabalhadora-reage-a-um-ataque-historico
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As greves dos servidores públicos federais em perspectiva histórica: a necessária retomada da disputa entre projetos societários


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Observatório do Caos - Agosto 2, 2012


Entre março de 1984 e o mesmo mês do ano seguinte, os mineiros de diversas regiões do Reino Unido sustentaram uma das mais duras greves do século XX contra o projeto do governo de Margaret Thatcher de fechar 20 minas de carvão, ceifando 20 mil empregos. O episódio, que à primeira vista poderia ser compreendido como apenas mais uma luta de comunidades de trabalhadores pela manutenção de suas fontes principais de sustento, adquire um significado bastante distinto quando posto em perspectiva histórica. Para isso, será necessário recuar alguns anos.

Em meados da década de 1970, a porção capitalista do mundo enfrentava uma grave crise econômica, que punha fim aos seus “30 anos gloriosos” iniciados após a II Guerra Mundial. As taxas de lucro caiam vertiginosamente, o capital se sobreacumulava, milhares de empregos eram extintos e muitas empresas faliam. Nesse contexto, dois dos principais países capitalistas elegeram governos truculentos que, munidos de um projeto comum de reorganização da economia e reforma do Estado, atuaram de forma a estancar os efeitos da crise. Para tal, Ronald Reagan (1981-1989) nos EUA e Thatcher (1979-1990) no Reino Unido detonaram uma onda de privatizações de serviços e empresas públicas, reduziram a rede de proteção social e desregulamentaram a atividade econômica, em especial, o setor financeiro.

Nesse esforço de desmonte do Estado de Bem-Estar Social erigido nas décadas anteriores, o ataque aos mineiros ocupava posição estratégica. Não apenas os mineiros constituíam uma das categorias mais organizadas da classe trabalhadora britânica, como as minas nacionalizadas em 1947 simbolizavam o projeto político do Partido Trabalhista, além de terem sido responsáveis diretos pela queda do gabinete do Partido Conservador chefiado por Edward Heath através de sua greve de 1974. Assim, a derrota dos mineiros em 1985, após dezenas de violentíssimos embates entre grevistas e forças policiais, representou a queda da última barreira, no Reino Unido, à implementação do programa neoliberal, que, a partir dali, avançaria cada vez mais até mundializar-se.

Hoje, a economia capitalista mundial novamente vê-se à beira do abismo consubstanciado na crise econômica. Não por acaso, a atual retração surgiu precisamente pelo esgotamento das soluções elaboradas para enfrentar a derrocada dos anos 1970. Embora os Estados Unidos e, principalmente, a Europa estejam, por ora, enfrentando suas manifestações mais sérias, a crise começa a ter, cada vez mais, seus impactos sentidos também aqui no Brasil, a despeito da retórica governamental. Redução do ritmo da produção industrial, desaceleração da geração de empregos formais, demissões em determinados ramos da produção, queda vertiginosa das previsões de crescimento econômico e aumento das taxas de inadimplência são apenas alguns de seus sintomas mais visíveis.

Nesse cenário, o governo federal, capitaneado por Dilma Rousseff e pela aliança PT-PMDB atua como enfermeiro das corporações que enfrentam maiores dificuldades. Como se não bastasse o fato de a remuneração dos rentistas proprietários de títulos da dívida pública consumir a maior parcela do orçamento federal (mais de 47% em 2012), desde o início do atual governo, em 2011, mais de 100 bilhões de reais já foram destinados, quase sempre por meio de renúncia fiscal, a diversos ramos da produção, garantindo a manutenção das taxas de lucro em patamares satisfatórios. O conjunto dessas medidas, por sua vez, elimina quaisquer dúvidas a respeito da opção classista do atual governo federal, que se mantém fielmente ao lado dos empresários. Eis, portanto, a razão primordial para a propalada falta de recursos públicos para o atendimento das reivindicações salariais e outras dos servidores públicos em greve (INCRA, IBGE, FUNAI, FUNASA, INMETRO, DNIT, Arquivo Nacional, agências reguladoras, educação básica e superior, Ministérios da Saúde, Previdência, Transportes, Desenvolvimento Agrário, dentre outros).

Essa opção, no entanto, precisa ser apresentada sob outra roupagem, para que se torne palatável para parcelas mais amplas da população brasileira. É com esse intuito que o governo Dilma passou a propalar a falácia de que essa maciça transferência de recursos públicos – oriundos de impostos pagos pela maioria da população – para mãos privadas teria o objetivo de garantir os empregos dos trabalhadores da iniciativa privada, que não desfrutam da estabilidade dos servidores públicos. Felizmente, como qualquer mentira, essa também tem pernas curtas e não foi muito longe, na medida em que o discurso oficial foi rapidamente deixado de lado quando o governo precisou aceitar e justificar a demissão, ao longo do último ano, de mais de mil trabalhadores da General Motors de São José dos Campos, justamente em um dos setores mais beneficiados pela redução do IPI no mesmo período.

Sendo esse um exemplo particularmente eloquente dentre outros, é preciso encarar a falácia governamental como o que de fato é: uma tentativa de dividir a classe trabalhadora, jogando os empregados da iniciativa privada contra os supostos privilégios dos servidores públicos, ao mesmo tempo em que o empresariado se apropria de parcelas cada vez maiores da riqueza nacional. Trata-se de uma ação emergencial, visando à minimização dos impactos da crise mundial no capital investido no Brasil, enquanto se busca um redesenho da dinâmica econômica capitalista mundial capaz de retomar, a nível global, a trajetória ascendente das taxas de lucro, replicando o feito alcançado pelo neoliberalismo a partir dos anos 1980.

Assim como coube aos mineiros levantar uma importante barreira àquele esforço de reestruturação capitalista, as atuais greves dos servidores públicos federais devem ser encaradas sob a mesma perspectiva. Distintamente do que ocorreu com os mineiros do Reino Unido em 1984-5, no Brasil hoje temos a oportunidade de levantar essa barreira enquanto não alcançamos o ponto mais baixo da curva econômica e antes que o projeto de rearticulação capitalista ganhe contornos mais definidos, o que amplia as possibilidades de resistência a essa ofensiva. Por outro lado, esperar mais para levantar as barreiras pode significar enfrentar, no curto prazo, um cenário muito próximo ao que vivenciam os trabalhadores de Portugal, Espanha e Grécia, em que a demora no estabelecimento de uma mobilização unificada efetiva permitiu o avanço de forças conservadoras e de sucessivos ataques aos direitos trabalhistas e sociais. É preciso, portanto, que as greves funcionem, como o fizeram em outros momentos históricos, como movimentos de construção explícita de projetos amplos de transformação social, e não como meras portadoras de reivindicações imediatas, ainda que as duas dimensões estejam intimamente articuladas.

Em parte, esse papel vem sendo cumprido com louvor. A denúncia da transfusão de verbas públicas – que poderiam ser empregadas na melhoria dos serviços oferecidos pelo Estado ao conjunto da classe trabalhadora, como saúde e educação – para bolsos particulares já traz, evidentemente, embutida a concepção de que a riqueza socialmente produzida deve ser socializada, e não apropriada por alguns poucos. Trata-se de uma bandeira fundamental para iniciarmos esse processo, mas para que ele se aprofunde, será necessário que as múltiplas greves concomitantes sejam transformadas no embrião de futuras greves gerais, pela consolidação de ferramentas organizativas que apontem para a unificação das ações do conjunto dos trabalhadores dos setores público e privado. Nesse sentido, a estabilidade não deve ser encarada como um privilégio, o que só redundará em divisionismo, mas como um importante instrumento de dinamização da mobilização da classe trabalhadora como um todo, uma vez que garante melhores condições de luta para um segmento da classe, cuja ação combativa poderá criar as condições para levantes das demais categorias.

A potencialidade política desse processo de unificação não passa despercebida pelo governo federal, que atua diuturnamente para fragmentar as categorias em luta. No caso das greves de trabalhadores da educação federal, essa tática se expressa claramente no esforço de desgastar os docentes pela apresentação dos mesmos como radicais, que deveriam aceitar o plano de carreira proposto pelo governo, deixando os técnicos-administrativos isolados em seu movimento paredista, sem que nenhuma proposta tenha sido apresentada para esses últimos. É precisamente nesse momento que se faz mais necessária uma ação de sentido oposto, capaz de fazer avançar a unificação das categorias em greve. Nesse processo, parcela considerável de responsabilidade recai sobre os ombros dos sindicatos mais combativos, como o ANDES e o SINASEFE, bem como dos demais organismos que atuam de acordo com a perspectiva da construção de um projeto político socialista comum a toda a classe trabalhadora, como a CSP- CONLUTAS. Igualmente importante será a superação, em favor da atuação conjunta, dos equívocos que marcaram ambos os blocos de grupos organizados da esquerda socialista no CONCLAT de 2010, o qual deveria ter iniciado o salto qualitativo na unificação da classe trabalhadora. Deixar, uma vez mais, de avançar na construção da necessária unidade poderá ter consequências políticas das mais graves já a curto prazo, mas principalmente numa temporalidade mais dilatada.

Diante dessas considerações, acredito que colocar em perspectiva histórica as greves dos servidores federais ora em curso significa, acima de tudo, enxergar essas greves como greves políticas. Não se trata, no entanto, de restringir seu caráter político às possíveis consequências que poderão acarretar para o desenrolar dos processos eleitorais municipais que ocorrerão em outubro desse ano. Fazer isso significaria jogar o jogo dos blocos de poder que atualmente disputam a primazia na gestão do projeto hegemônico das classes dominantes brasileiras, capitaneados por PT-PMDB e PSDB-DEM. Entender as greves como políticas em seu sentido radical significa, antes de tudo, apostar em seu potencial para funcionar como passo inicial da reunificação da classe trabalhadora em torno de um projeto societário contrário ao caráter inevitavelmente opressor e explorador dos trabalhadores e ambientalmente devastador do capitalismo. Mais concretamente, significa também compreender que uma derrota dessas greves hoje pode implicar na abertura para uma derrota de longo prazo, capaz de estender por décadas a ofensiva contra os direitos de todos os trabalhadores atualmente em curso. Afinal, quanto mais se aprofundarem as condições geradoras da crise econômica mundial e quanto mais forem retirados os direitos duramente conquistados pelos trabalhadores ao longo de décadas de lutas, mais difícil se tornará reverter o processo de recomposição capitalista ensaiado pelas classes dominantes e seus guardiães à frente da máquina estatal. Significa, por fim, entender que a batalha perdida em 1985 pode ser ganha em 2012 e além; que é possível construir uma sociedade em que nenhum trabalhador tenha que passar quase um ano sem receber seu salário por acreditar na justeza de sua luta política, tal como ocorreu com os mineiros.

Obs.: Agradeço a Adriano Zão, Demian Melo, Fábio Frizzo, Felipe Demier, Juliana Lessa, Luana Sidi e Rafael Maul pela discussão das ideias apresentadas nesse texto, as quais são de minha inteira responsabilidade.

Extraído de:
http://observatoriodocaos.wordpress.com/2012/08/02/as-greves-dos-servidores-publicos-federais-em-perspectiva-historica-a-necessaria-retomada-da-disputa-entre-projetos-societarios/
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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Por que o Brasil se atrasa


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Adriano Benayon


1. A desindustrialização do Brasil não tem sido explicada adequadamente, sequer pelos economistas menos vinculados à ideologia das corporações transnacionais.

2. Em entrevista à BBC (13.07.2012), Gabriel Palma, professor da Universidade de Cambridge, Inglaterra, lembrou que, em 1980, a produção industrial no Brasil superava a do conjunto formado por China, Índia, Coreia do Sul, Malásia e Tailândia e que, em 2010, já não representava senão 10% do total produzido nesses países.

3. O economista Leonardo Guimarães Neto, publicou artigo no portal do Centro Celso Furtado, Ano 6 - Edição 8, Recife, 13.04.2012, intitulado "A retomada da indústria brasileira: o recado de Antônio Barros de Castro".

4. Nele, aprecia o pacote de estímulos, de R$ 60 bilhões, à indústria brasileira (sic), incluindo: desoneração fiscal, ampliação e barateamento do crédito; redução de até 30% do imposto sobre produtos industrializados para o setor automobilístico; redirecionamento de compras governamentais para bens produzidos internamente; redução de impostos na tecnologia da informação.

5. Deixa de denunciar mais esse absurdo presente à predadora indústria automobilística estrangeira, que não cessa de descapitalizar o país, enviando ao exterior os ganhos oligopolistas arrancados dos consumidores nacionais.

6. Omite também que, sob a presente estrutura industrial, dominada pelas transnacionais, os investimentos e subsídios aos centros de pesquisa tecnológica significam desperdício de recursos públicos, porquanto, não havendo empresas nacionais viáveis no mercado, só ínfima fração do resultado das pesquisas resultará em inovação tecnológica.

7. Observa Guimarães que, embora bem recebido, o pacote foi considerado insuficiente por sindicatos patronais e de trabalhadores. Esses reclamam: (i) desvalorização cambial, (ii) redução dos juros e dos spreads bancários e (iii) redução do preço de insumos fundamentais para a atividade industrial, como a energia elétrica.

8. Segundo Guimarães, a perda de competitividade da indústria nacional (sic) não se deve só ao custo Brasil: enorme carga tributária; juros e spreads bancários altos; elevados preços da energia elétrica; enormes déficits de infra-estrutura de transporte e logística.

9. A perda estaria associada à reduzida capacidade de inovação da grande maioria dos segmentos produtivos da indústria nacional (sic), em contexto de acelerado avanço tecnológico nos países competidores, tais como a China.

10. Precisamos, porém, ir mais fundo. Entender por que essa capacidade é reduzida. Daí, inseri três vezes o advérbio latino "sic", após "indústria brasileira ou nacional", porque a questão básica, intocada nas discussões correntes, é a desnacionalização, o fato de a produção realizada no Brasil não ser nacional, mas subordinada às matrizes das transnacionais estrangeiras que a controlam.

11. É ridículo falar em inovação tecnológica com a indústria desnacionalizada e com os seus centros das decisões sobre produção e mercados situados no exterior.

12. Se não há inovação tecnológica no Brasil é porque as transnacionais se apropriaram de tecnologias no exterior, amortizaram-nas com as vendas em outros mercados e as utilizam aqui a custo real zero, tal como acontece com as máquinas e equipamentos importados a preços superfaturados.

13. Por que, então, tais indústrias não são competitivas, se seus custos reais de produção são extremamente baixos, ademais de as transnacionais receberem colossais subsídios prodigalizados pelos governos federal, estaduais e municipais?

14. Porque o valor contábil das despesas das subsidiárias no Brasil é levado às alturas, através dos preços que estas pagam às matrizes nas importações dos bens de produção (inclusive o da tecnologia, jamais transferida): os bens de capital e os insumos, tudo é superfaturado, além de serviços sobrefaturados e até fictícios.

15. Em suma, as políticas de favorecimento às transnacionais, inauguradas em 1954, e intensificadas desde então, fazem que os brasileiros paguem para se tornarem pobres. Os fabulosos lucros reais obtidos pelas transnacionais são transferidos ao exterior, não apenas como tais, mas também através desses superfaturamentos e do subfaturamento de exportações.

16. Estando a economia concentrada por empresas transnacionais e bancos, na maioria desnacionalizados, e os "nacionais" associados aos estrangeiros e com eles ideologicamente alinhados, é esse sistema imperial que elege os "governantes" nos poderes do Estado brasileiro, pois as eleições dependem dos dinheiros para as campanhas e do acesso às redes de TV comerciais, vinculadas aos mesmos interesses.

17. Em tais condições, tornam-se inócuos os votos piedosos dos economistas, quando recomendam reformular a infra-estrutura de transportes e logística, baixar os juros até o patamar internacional (o que viabilizaria reduzir a carga tributária), desvalorizar a taxa cambial etc.

18. Mantendo-se a atual estrutura de poder, essas medidas seriam irrealizáveis, além de que, para funcionarem, acarretariam a necessidade do controle de capitais e da estatização dos principais bancos, ou seja, políticas ainda menos toleráveis para os aproveitadores dessa estrutura.

19. Assim, o governo que empreendesse tais políticas, seria desestabilizado e derrubado antes de promover a indispensável passagem do controle da indústria para capitais nacionais, privados e públicos.

20. Se a indústria não for realmente nacional, jamais terá chance de ser competitiva. O mesmo se aplica à infra-estrutura econômica (energia, transportes e comunicações) e à social (saúde, educação e cultura). Há que desmercadorizar os serviços públicos e eliminar as agências "reguladoras", devolvendo o poder delas ao Estado.

21. Também importante para o Estado recuperar funções perdidas com o modelo do "consenso de Washington" é a total reformulação da administração pública, generalizando-se os concursos públicos, a formação de técnicos e administradores e instituindo-se a aferição de desempenho, com possibilidade de demissão, seleção de quadros desde a escola primária etc.

22. Voltando a Guimarães: "Segundo Antônio Barros de Castro... não se trata hoje de superar um hiato em relação a concorrentes que evoluíam lentamente em termos tecnológicos e de produtividade. Para ele, esta premissa não existe mais, e os concorrentes do Brasil, notadamente a China, 'ainda estão alcançando novos patamares de produtividade e aumentando o esforço tecnológico para acelerar sua eficiência'. A China teria superado a fase de "made in China" para outra de "created in China".

23. Ora, como assinalei no artigo "Tecnologia e Desenvolvimento", publicado em maio, é incrível que até os economistas que não se restringem a discutir política macroeconômica conclamem para a necessidade de inovação tecnológica sem reconhecerem a impossibilidade dela num país cujos mercados estão sob controle praticamente total de empresas transnacionais.

24. Em artigo próximo tentarei resumir a avassaladora ocupação da economia brasileira, a qual prossegue em tal velocidade, que a empresa nacional é, cada vez mais, espécie em extinção.

25. De novo, Guimarães: "Castro acredita que o Brasil, de início, deve ganhar tempo até induzir as grandes transformações, garantindo superávits no balanço de pagamento por 10 ou 15 anos com petróleo e matérias primas agrícolas, além da expansão do mercado interno 'colocando areia para limitar a ocupação do mercado interno por importações...'."

26. Isso seria, na realidade, perder tempo. E o Brasil já se atrasou demasiado nos últimos 58 anos! Proteção para a indústria, na atual estrutura, só favorece as transnacionais e eleva os incalculáveis prejuízos que vêm causando ao país.

27. De resto, enquanto se dilapidam os recursos naturais através das exportações primárias, as receitas são usadas para pagar por serviços superfaturados e fictícios às matrizes das transnacionais, e para importar bens de alto valor agregado e insumos grandemente superfaturados. Nem se fica sabendo o que valem as matérias-primas exportadas, nem o balanço de pagamentos se equilibra sem endividamento.

28. Isso implica fomentar a estrutura econômica atrasada, como a da Venezuela, por mais de um século, antes de Chávez: exportar quantidades fabulosas de petróleo e ficar com a estrutura econômica mais primitiva da América do Sul, para gáudio do império anglo-americano.

29. Com governos acomodados às imposições do império, até por carecerem de consciência nacional, as transnacionais estão ocupando até os espaços recomendados por Barros de Castro e seguidores, como a agroindústria do etanol e a química baseada na energia vegetal. Note-se que nem falam dos óleos vegetais, como o dendê, capaz de produzir mais óleo – melhor que o de petróleo – do que a Arábia Saudita.


Adriano Benayon. Consultor em finanças e em biomassa. Doutor em Economia, pela Universidade de Hamburgo, Bacharel em Direito, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Diplomado no Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco, Itamaraty. Diplomata de carreira, postos na Holanda, Paraguai, Bulgária, Alemanha, Estados Unidos e México. Delegado do Brasil em reuniões multilaterais nas áreas econômica tecnológica. Depois, Consultor Legislativo da Câmara dos Deputados e do Senado Federal na área de economia. Professor da Universidade de Brasília (Empresas Multinacionais; Sistema Financeiro Internacional; Estado e Desenvolvimento no Brasil). Autor de Globalização versus Desenvolvimento, 2ª ed. Editora Escrituras, São Paulo.


Extraído de:
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domingo, 5 de agosto de 2012

Setor automotivo mostra que trabalhadores pagam pela crise no Brasil


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"A crise econômica mundial, que está abalando, principalmente, os países da Europa e os Estados Unidos, não pode ser resolvida com desemprego e muito menos com a redução dos direitos trabalhistas. A questão do desemprego é extremamente preocupante"

"Nosso caminho não é esse, não é igual ao deles. Nosso caminho é manter os investimentos e buscar cada vez mais garantir que os bônus, as vantagens e os louros do desenvolvimento sejam distribuídos"

"(...) estamos criando incentivos à formalização do trabalho, gerando mais empregos, à medida que desoneramos os empresários, e criando incentivos. (...) Trabalhadores protegidos são a base de um mercado interno em expansão."

"(...) quero deixar bem claro que o meu governo não irá permitir ataques às nossas indústrias e aos nossos empregos." [1]

- Presidente Dilma Rousseff


Em São José dos Campos a General Motors (GM) pretende demitir 2.000 trabalhadores. A última reunião com o sindicato cancelou provisoriamente a medida até o mês de novembro [2]. Não há nenhuma garantia de que após o prazo acertado não ocorram as demissões.

O caso, que acabou ganhando destaque na última semana, expos de forma cristalina o desnível entre o que o governo federal coloca nos discursos e como atua na prática em se tratando de medidas contra a crise econômica capitalista.

O setor automotivo recebeu, somente no período entre 2008 e 2011, 26 bilhões em isenções fiscais para, segundo o governo petista, proteger os empregos dos trabalhadores. Era uma espécie de acordo, diziam.

Na terça-feira (31/07), porém, eis que surge o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, defendendo publicamente a omissão do Estado de cobrar a parte das multinacionais no suposto acordo.

"Há problemas localizados em São José dos Campos (SP). Não cabe ao governo entrar nos detalhes, é (um assunto) da organização interna da empresa" (…) "O que nos interessa é que GM tenha saldo positivo e esteja contratando, e isso está sendo cumprido" [3]

A organização interna das grandes empresas só diz respeito ao governo petista quando estas se encontram em apuros! Daí vertem isenções e recursos públicos subsidiados a fundo perdido!

As declarações do Ministro revoltou os trabalhadores, que realizaram mobilizações e fizeram uma relação das iniciais do seu nome com a da multinacional: Guido Mantega = GM !

Os números oficiais do próprio governo e do Dieese desmentem completamente o Ministro “da” GM, mostrando que a relação feita pelos trabalhadores não era descabida:

“Os números são claros: de julho de 2011 a junho de 2012, a GM fechou 1.044 postos de trabalho (saldo entre demissões e contratações) em São José dos Campos. Em São Caetano, foram 349 postos a menos. A única fábrica a fechar o período com saldo positivo foi em Gravataí, com 204. Caso o Governo Federal prossiga com a postura de mero espectador, esses números poderão dar um salto ainda maior. Não há mais dúvidas: a GM está se preparando para colocar até 2 mil trabalhadores na rua.

E tudo isso em uma empresa que está em um momento de aumento de suas vendas e batendo recordes de faturamento e lucro em suas unidades no Brasil, em particular na unidade de São José dos Campos, responsável por 35% do faturamento da GM em nosso país.” [4]

Com tudo isso exposto e mais a mobilização dos trabalhadores, na sexta-feira (03/08), a assessoria de imprensa de Mantega divulgou que ele consideraria “descumprimento do acordo” demissões ocorridas nos setores beneficiados pela redução do Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI). [5]


A GM não é um caso isolado

A credibilidade do publicado pela assessoria do Ministro da Fazenda é a mesma das declarações anteriores de Lula e Dilma em relação as suas medidas “anticrise” e a proteção dos empregos dos trabalhadores que prometeram com elas.

As multinacionais do setor automotivo, depois de se fartar com recursos públicos e isenções fiscais, têm demitido tranquilamente os seus trabalhadores em todo o país. Não é só a GM que demitiu sem ser importunada.

No início de julho a Volvo fechou, em Curitiba, 430 postos de trabalho entre efetivos e temporários, além de anunciar férias coletivas para parte de seus funcionários. [6] No mesmo mês a Volkswagem anunciou um Plano de Demissões Voluntárias (PDV) em Taubaté. [7] Em maio a Mercedes-Benz suspendeu o contrato de 1.500 trabalhadores em São Bernardo do Campo. [8]

Na virada do ano, a sueca Scania, demitiu 138 trabalhadores em São Bernardo do Campo. [9] Em 2009 a multinacional não se ruborizou em afirmar que 80% do seu faturamento naquele ano tinha o dedo do Governo Lula através do BNDES. [10] A ajuda, aliás, vem de longa data: em 2003 o banco deu um aporte de US$ 50 milhões para a empresa exportar. [11]


Os trabalhadores pagam a crise

O que antes apresentava-se de forma dissimulada e até parecia dar alguma veridicidade as frases como as pinçadas no início desse texto, agora começam a irromper de forma cristalina: as gestões petistas agem tal qual os governos estrangeiros no que tange a crise financeira do capitalismo e as palavras contidas em seus discursos sobre o assunto são vazias, incoerentes e demagógicas.

As medidas “anticrise” sempre visaram manter o processo de acumulação e reprodução do capital no país, sempre tiveram como alvo manter e elevar as taxas de lucros das multinacionais e dos bancos e não os empregos, os salários e os direitos dos trabalhadores.

Isenções fiscais, desonerações da folha de pagamento que prejudicam a previdência, recursos públicos subsidiados que elevam o endividamento público, privatizações regadas com dinheiro público e demissões de trabalhadores sob o olhar complacente do governo deixam claro que no Brasil, assim como na Europa e nos Estados Unidos, opera a máxima de privatizar os lucros e socializar os prejuízos.

Os trabalhadores brasileiros pagam para ser demitidos, perder serviços públicos essenciais e direitos. E quem comemora são os bancos e as multinacionais!

Essa realidade começa a se escancar aos olhos de muitos, às vezes através da forma mais dolorosa, como têm comprovado os trabalhadores do setor automotivo.

Se, entre 2008 e 2011, as multinacionais do setor receberam R$ 26 bilhões em isenções fiscais para não garantir os empregos dos brasileiros, por outro lado, no mesmo período, remeteram 14,6 bilhões de dólares para o exterior, ou seja, quase toda a isenção fiscal foi destinada para salvar as matrizes em crise na Europa, nos Estados Unidos, entre outros. [12] Os trabalhadores brasileiros pagaram para as multinacionais lucrar e não falir!

O aprofundamento, em curso, da crise capitalista no mundo e no país vai expor cada vez mais a hipocrisia dos discursos das gestões petistas sobre a crise, o caráter antipovo do seu governo e a sua submissão ao grande capital.


Ler também:

A crise no Brasil

Crise se aprofunda no mundo e no Brasil


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[1] Dilma pediu ao G20 geração de emprego para enfrentar crise (07/11/2011):

Contra a crise, Dilma lembra bordão de Lula (14/07/2012):

Governo se empenhará em proteger trabalhadores e garantir empregos, diz Dilma (03/04/2012):

Pronunciamento à Nação da Presidenta da República, Dilma Rousseff, em cadeia nacional de rádio e TV, por ocasião das comemorações do Sete de Setembro (06/07/2011):

[2] Proposta entre GM e Sindicato suspende 1.840 demissões (04/08/2012):

[3] Mantega: GM gera emprego; governo não trata ações localizadas (31/07/2012):

[4] Nota do Sindicato sobre declaração de Guido Mantega (31/07/2012):

[5] Agora Mantega afirma que não vai tolerar demissões (03/08/2012):

[6] Volvo anuncia demissões na fábrica de Curitiba

Volvo demite 208 funcionários de fábrica em Curitiba (04/07/2012):

[7] Volkswagen abre Plano de Demissões Voluntárias na fábrica de Taubaté (02/07/2012):

Volks anuncia PDV na unidade de Taubaté (03/07/2012):

[8] Mercedes suspende contrato de 1.500 empregados (29/05/2012):

[9] SCANIA CORTA 138 TRABALHADORES (05/01/2012):

[10] Novas regras do BNDES já apresentam resultados positivos para a Scania (28/07/2009):

[11] BNDES apóia com US$ 50 milhões aumento das exportações da Scania (17/07/2003):

[12] Indústria automobilística teve isenção de R$ 1 milhão por emprego criado (02/06/2012):
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