sábado, 13 de maio de 2017

A esquerda e o depoimento de Lula

.


No momento presente, em que os pequeno-burgueses democratas são oprimidos por toda a parte, eles pregam ao proletariado em geral a união e a conciliação, estendem-lhe a mão e aspiram à formação de um grande partido de oposição que abarque todos os matizes no partido democrático; isto é, anseiam por envolver os operários numa organização partidária onde predominem as frases sociais-democratas gerais, atrás das quais se escondem os seus interesses particulares e onde as reivindicações bem determinadas do proletariado não possam ser apresentadas por mor da querida paz. Uma tal união resultaria apenas em proveito deles e em completo desproveito do proletariado. O proletariado perderia toda a sua posição autónoma arduamente conseguida e afundar-se-ia outra vez, tornando-se apêndice da democracia burguesa oficial. Essa união tem de ser recusada, por conseguinte, da maneira mais decidida. Em vez de condescender uma vez mais em servir de claque dos democratas burgueses, os operários, principalmente a Liga, têm de trabalhar para constituir, ao lado dos democratas oficiais, uma organização do partido operário, autónoma, secreta e pública, e para fazer de cada comunidade o centro e o núcleo de agrupamentos operários, nos quais a posição e os interesses do proletariado sejam discutidos independentemente das influências burguesas.” (Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas. Karl Marx, Friedrich Engels. Março de 1850)



Em 2005, quando estourou o escândalo de corrupção do mensalão José Dirceu foi criticado duramente, ainda que de forma oportunista, por importantes dirigentes petistas. Ele era considerado o grande responsável pela política de alianças espúrias e práticas corruptas.

Delúbio Soares foi expulso, Lula veio a público pedir desculpas, embora tenha se esquivado dizendo-se traído e que não sabia de nada. Falava-se em refundação do PT e a própria militância petista dizia que o seu partido tratava os seus corruptos de forma diferente dos outros partidos.

Como atestou posteriormente a história nada mudou mas a existência de um polo de oposição à esquerda obrigava os dirigentes petistas a fingirem que faziam alguma coisa sob pena de verem uma debandada no partido, que estava perdendo militantes e apoiadores. Sim, no ano de 2005 foi a esquerda que saiu às ruas “contra a corrupção” e até pelo “Fora Lula”.

Naquela época quase ninguém na esquerda acreditava que uma liderança como Lula, com a influência que possui dentro do PT, poderia estar por fora dos acontecimentos e de que “não sabia de nada”, mesmo que o próprio delator do esquema, o então deputado federal Roberto Jefferson (PTB-RJ), dissesse que Lula era inocente. Até porque em termos morais a esquerda inteira sabia das irregularidades praticadas pela corrente política de Lula nas eleições internas do PT para manter o aparato e o controle do partido.

Com a Lava Jato as coisas ocorreram de forma distinta. Sem nenhum constrangimento e autocrítica o PT passou a fazer discurso de vitimismo e de “perseguição política” em parte porque essa elaboração encontrou aceitação e foi reproduzida por boa parte da esquerda, incluindo uma parcela que esteve nos atos do “Fora Lula” em 2005, embora a relação de Lula com as empreiteiras hoje esteja bem mais visível do que a sua atuação no mensalão.

As relações de Lula com a burguesia é um fato que nem o petista mais fanático ousa negar. A única coisa que se discute é se os agrados e os milhões que recebeu da burguesia estavam dentro da legislação burguesa ou não. Por isso, apesar das viagens nos jatinhos das empreiteiras, das palestras realizadas, dos prêmios recebidos, alguns insistem nos pedidos de apresentação de “provas”. Com esta linha a traição de classe torna-se supérflua. O que importa se Lula se vendeu? Importa é saber se se vendeu dentro dos limites permitidos pela legislação burguesa.

É evidente que traição de classe e corrupção política não são necessariamente confluentes. Pode-se trair uma causa, ou uma classe, sem receber um único centavo. Um participante de um movimento reivindicatório que, por inocência, entregue a tática das lideranças estará traindo o movimento sem auferir nenhuma vantagem material. Por outro lado, pode-se praticar corrupção e manter a fidelidade de classe, vide os subornos pagos pela burguesia para que parlamentares de direita fisiológicos aprovem projetos e medidas em seu favor.

Ocorre que o nível de exigência de uma parcela importante da esquerda brasileira recuou de tal maneira que não há o mínimo incômodo com a “corrupção legal” praticada por Lula e o PT. Recebe-se milhões, se viaja nos jatinhos dos empreiteiros e depois se editam Medidas Provisórias que os beneficiam, lhes são concedidos financiamentos públicos a fundo perdido, se descolam contratos de obras no Brasil e no exterior, e é como se tudo não passasse de mera coincidência.

Coincidências que não cessam de se acumular, como verificável no próprio dia do depoimento: Lula chegou em Curitiba no jatinho de Walfrido Mares Guia, que ocupou os ministérios do Turismo e das Relações Institucionais durante o seu governo. Walfrido é um grande empresário da área da educação, dono do grupo Kroton, e esteve envolvido no chamado “mensalão mineiro”, esquema de corrupção montado pelo PSDB - principal concorrente do PT.

A condição de lobista de empreiteira parece tão arraigada e naturalizada que Lula chegou a questionar Sérgio Moro se o juiz não se sentia responsável pela “destruição da construção civil” o que teria gerado o desemprego de 600 milhões de pessoas – o que foi uma tremenda e constrangedora gafe já que a população brasileira é de pouco mais de 207 milhões de habitantes.

Alguns alegam que é preciso defender Lula e o PT para manter o Estado democrático de direito, que hoje seriam eles as vítimas mas que amanhã seria a esquerda e toda a classe. Esquece-se de todo o aparato repressivo e de espionagem montado e utilizado pelo PT nos anos em que governou, em algumas ocasiões em aliança com governantes demotucanos. Deixo disponível um artigo para recordar alguns fatos ocorridos durante a “democracia petista”. [*]

O argumento do Estado democrático de direito tem limites de critério. E há um método infalível e muito simples para saber se a defesa de uma causa é realmente de uma causa ou se está acobertando a defesa de determinadas figuras e/ou organizações: testar o critério no sentido contrário.

Muita gente que foi para as ruas contra o impeachment de Dilma alegava estar apenas defendendo a democracia mas tergiversava, engasgava, emudecia quando se perguntava se no lugar de Dilma fosse Aécio Neves se iria para as ruas também. Com as chamadas conduções coercitivas muitos dos que se escandalizaram quando eram os petistas, emudeceram e até debocharam quando o mesmo aconteceu com gente como Silas Malafaia. O mesmo ocorre com relação às delações, que só são colocadas em questionamento quando envolvem dirigentes e políticos do PT. Idem para as listas divulgadas e as prisões.

A seletividade nunca foi um critério de coerência. Alguns a praticam malandramente, outros são levados pela atmosfera produzida pelos malandros. É verdade que alguns poucos se dizem contra tudo isso e contra todos. Mas essa coerência esbarra no empenho, na verdade na falta dele. Nenhuma nota, texto, artigo ou simples postagem em rede social é publicada quando trata-se de não petistas.

Toda essa seletividade e empenho para defender os dirigentes petistas deve-se a caracterização de que o PT é um “mal menor” em relação ao conjunto dos partidos da ordem. É uma caracterização que alguns já não escondem possuir. E o pano de fundo que reaproximou a maior parte da esquerda da órbita petista foi a crença na “onda conservadora” e até “fascista”.

Só que essa reaproximação resulta “apenas em proveito deles e em completo desproveito do proletariado”, para utilizar as adequadas palavras de Marx e Engels destacadas no início deste artigo. Os petistas “pregam ao proletariado em geral a união e a conciliação” agora para traí-los mais uma vez logo ali adiante. Foi assim depois das eleições de 2014 quando após derrotar Aécio Neves, Dilma passou a aplicar medidas de ajustes fiscais que o tucano implementaria. Foi assim na primeira eleição depois do impeachment quando o PT aliou-se aos partidos que votaram pela saída de Dilma. Foi assim nas eleições dos dirigentes das casas parlamentares onde o PT apoiou os candidatos dos partidos que votaram pelo impeachment de Dilma (incluindo os candidatos de Temer) mesmo quando tinha candidaturas de esquerda, como do PSOL.

Em vez de condescender uma vez mais em servir de claque do PT e se desmoralizar a esquerda brasileira deve organizar-se de forma independente, priorizar a luta contra o ajuste fiscal, trabalhar para construir uma nova greve geral, defender a investigação e prisão de todos os corruptos e assim ajudar a forjar uma alternativa de classe.

É preciso retomar a linha combativa do início dos governos petistas. Uma linha que neutralizava a demagogia da direita. E isso não será alcançado se colocando na defesa de Lula e participando de caravanas como a de Curitiba. Tampouco celebrando a soltura de José Dirceu.



Leia também:
O mensalão e a amnésia do governismo

Do “Fora Lula” ao “Fica Dilma”: o que aconteceu com a esquerda brasileira?

[*] Alguns fatos para refletir sobre democracia e garantias constitucionais. 24/03/2016.



.

quarta-feira, 29 de março de 2017

“Ondas” comparadas

.
Imagem relacionada


Entre o final dos anos 90 e o início dos anos 2.000 a América Latina viveu uma “onda progressista” que teve como base as lutas populares contra as medidas neoliberais implementadas por vários governos na região. Greves, protestos e até insurreições varreram o continente chacoalhando regimes e derrubando governos. Partidos e figuras políticas se fizeram presentes e, em alguns casos, lideraram os protestos. Muitos deles se elegeram e, devido a pressão das massas, recuaram em ataques e atenderam algumas demandas populares.

Seus limites se tornaram evidentes para o grande público quando estourou a crise econômica e eles passaram a aplicar medidas de ajustes para seguir administrando o capital, embora chegassem a discursar contra o capitalismo. Com isso entraram em declínio e tornaram-se tão impopulares quanto os governos que combateram no passado. E como a maior parte dos movimentos sociais que puxaram os protestos lá atrás foram cooptados e a esquerda majoritária optou por atuar na órbita destes governos obviamente que só havia sobrado a direita para canalizar a insatisfação. Este aparente “giro à direita” das massas tem sido chamado por alguns de “onda conservadora”.

Só que há um grande porém nessa tal “onda conservadora”: as massas, supostamente tragadas pelo conservadorismo, não só não dão sustentação para os governos da direita como rejeitam suas medidas de ajustes fiscais o que os têm tornado impopulares muito rapidamente. Que o diga o ex-presidente chileno, Sebastian Piñera e o atual presidente da Argentina, Maurício Macri.

É uma situação bem distinta da “onda progressista” passada onde havia uma sustentação dos tais governos pelas massas que apoiavam as suas medidas. Não foi por acaso que em 2002 os venezuelanos foram para as ruas e derrotaram o golpe de Estado.

Será que com essa comparação mais do que adequada e necessária finalmente ficou compreensível o que é uma “onda”, onde ela existiu de fato e onde não há “onda” alguma?



.

domingo, 26 de março de 2017

Fissuras na direita, desafios para a esquerda

.
Uma parcela da direita brasileira acreditou que a rejeição popular ao governo Dilma e ao PT era sinônimo de rejeição às pautas da esquerda como um todo e de apoio ao liberalismo econômico, embora as pesquisas realizadas com o público que foi nos atos do impeachment apontavam a defesa de mais investimentos públicos.

No dia 16 de agosto de 2015, pesquisa conjunta realizada na Avenida Paulista pela professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Esther Solano; pelo filósofo da Universidade de São Paulo (USP), Pablo Ortellado e por Lucia Nader, da Fundação Open Society, para o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação, da USP, encontrou que:

“A pesquisa também ajuda a desmistificar a tese de que, assim como os grupos Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua, que organizam os protestos, os manifestantes tenham um pensamento liberal sobre questões que envolvam a presença do Estado na vida dos cidadãos.

Os pesquisadores questionaram as pessoas sobre seus direitos e a grande maioria se mostrou a favor de educação (86,9% dos entrevistados) e saúde (74,3%) providas de forma gratuita. Somente a gratuidade dos serviços de transporte foi rejeitada pelos participantes (48,90%) do protesto em São Paulo.” [1]

Se o “Fora Dilma” era o elemento unificador a heterogeneidade dos manifestantes pró-impeachment já era verificável na diversidade das pautas que apareciam descritas em cartazes simples feitos de forma espontânea, que iam desde a defesa de mais investimentos em saúde e educação (que eram bastante comuns), passando por defesa de uma Reforma Política e até “novas eleições”. [2]

O elevado rechaço popular ao ajuste fiscal, à PEC dos Gastos e mais recentemente à Reforma da Previdência e às Terceirizações não só não surpreendem como já eram esperadas e nos mostram a complexidade de uma realidade contraditória que não se permite ser encaixada em narrativas apressadas ou análises superficiais.

Jair Bolsonaro foi muito criticado por seus seguidores devido ao voto favorável que conferiu à PEC dos Gastos depois de ter declarado publicamente que votaria contra ela [3]. Seu filho, Eduardo Bolsonaro, recebeu uma enxurrada de questionamentos e críticas de sua plateia por ter votado a favor do PL das Terceirizações [4] enquanto que Bolsonaro, o pai, pré-candidato a Presidente absteve-se de votar na matéria para, segundo ele próprio, não “receber uma enxurrda de críticas” e não ser “massacrado” [5].

Após os apelos de Temer para ajudá-lo no convencimento da população a aceitar as reformas trabalhista e previdenciária [6] MBL e Vem Pra Rua, diante de uma série de críticas de seus próprios seguidores, se viram obrigados a informar o governo de que a Reforma da Previdência é demasiadamente impopular [7]. O MBL, tentando se desvincular da Reforma da Previdência de Temer, anunciou a defesa da reforma da FIPE (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), não menos impopular [8]. O grupo se viu obrigado a mudar a pauta da chamada do seu ato do dia 26 de março, onde inicialmente defendia abertamente as Reformas da Previdência e Trabalhista [9] passando a defender tais reformas com a palavra de ordem “Por reformas justas que acabem com privilégios” [10], uma manobra que evidencia a dificuldade de se defender tais reformas mesmo perante suas bases. Finalmente é preciso destacar a presença de inúmeras pessoas que foram nos atos pelo impeachment de Dilma nos atos do 15 de março chamado pelas Centrais Sindicais e organizações de esquerda [11] enquanto que os atos da direita do dia 26 tiveram baixa adesão [12].

Tais fatos, que apontam fissuras nas bases da direita, colocam algumas questões para a esquerda brasileira:

A primeira é em relação a própria caracterização da conjuntura que alguns setores possuem. Essa realidade torna completamente insustentável a tese da “onda conservadora”. Afinal, que “onda conservadora” seria esta que, em vez de ser a base de apoio e sustentar as pautas conservadoras, as rejeita; que questiona os direitistas que defendem tais medidas e até se permite cerrar fileiras com a esquerda para derrotar tais pautas?

Os índices recordes de impopularidade do governo Temer, a rejeição massiva às medidas de ajustes fiscais e aos governos que as implementam e, principalmente, a adesão significativa ao ato contra a Reforma da Previdência no dia 15 - apesar das burocracias sindicais não terem construído desde a base - são elementos que não permitem pessimismo e que apontam a possibilidade de uma ofensiva capaz de derrotar o ajuste e derrubar Michel Temer. Uma greve geral, de verdade, está na ordem do dia!

A segunda questão tem a ver com o tratamento dado aos seguimentos que participaram dos atos pelo impeachment. Se equivocaram os dirigentes sociais que disseram para as suas bases que “do lado de lá” não se encontraria nada que prestasse. É preciso separar o joio do trigo, distinguindo entre aqueles que são direitistas convictos das pessoas comuns, sem posicionamento político definido, que apoiaram a saída de Dilma mas que não queriam Temer e tampouco ajuste fiscal e perda de direitos. Os primeiros não serão convencidos, logo devem ser combatidos; já as segundas merecem atenção, paciência e diálogo – sem sectarismo!

Nesse sentido, ficar taxando indiscriminadamente de “coxinhas”, “reacionárias”, “nazifascistas”, “paneleiros” e responsabilizando essas pessoas pelas medidas de Temer só vai gerar antipatia, espantá-las e ainda prejudicar o processo de ruptura delas com os políticos oportunistas e reacionários que momentaneamente canalizaram parte do desgaste do PT.

Se a principal tarefa da conjuntura é derrotar o ajuste fiscal e a perda de direitos que advém dele não só todos aqueles que se opõem a ele são bem-vindos como não devem ser hostilizados. Se aceitamos em nossas fileiras aqueles que até ontem aplicavam o ajuste fiscal com as suas próprias mãos e que, na presente luta, visam apenas canalizar para as eleições o desgaste dos que hoje o aplicam por que então deveríamos rejeitar pessoas comuns que nunca o desejaram apenas por terem tido uma postura distinta da nossa em determinado episódio?


______________________________________________________

[1] Quem são os manifestantes de 16 de agosto? Renan Truffi, Carta Capital, 18/08/2015.

[2] Acompanhe as manifestações contra o governo no Distrito Federal. 15/03/2015.

Manifestação contra o governo – Cartazes. 13/03/2016.

[3] Seguidores de Bolsonaro se revoltam com voto do deputado na PEC 241. 13/10/2016.

[4] Terceirização. Eduardo Bolsonaro. Facebook pessoal do deputado, 23/03/2017.

[5] Bolsonaro se absteve de votar pró-terceirização com medo de ser “massacrado” pela esquerda. Marcelo Faria. Instituto Liberal de São Paulo, 25/03/2017.

[6] Michel Temer pede ajuda a Kim Kataguiri para reformas da Previdência e do Trabalho. 27/09/2016.

[7] Grupos que apoiaram impeachment alertam Temer para rejeição à reforma na Previdência. 23/02/2017.

[8] MBL não apoia a reforma de Temer, e sim a reforma proposta pela FIPE. Nota pública, 15/03/2017.

[9] “Voltamos às ruas. Desta vez, pelo fim do estatuto do desarmamento, fim do foro privilegiado, pelo bom andamento da LAVA JATO, e pelas reformas trabalhista e previdenciária - cortando privilégios e mamatas de políticos e do judiciário.” Facebook do Movimento Brasil Livre, 13/02/2017.

Os 7 maiores absurdos publicados pelo MBL. Luan Toja. Voyager, 22/03/2017.
http://voyager1.net/politica/os-7-maiores-absurdos-publicados-pelo-mbl/

[10] “Este domingo, todos nas ruas”. Facebook do Movimento Brasil Livre, 25/03/2017.

[11] Protesto organizado pela CUT tem manifestantes de verde e amarelo. 15/03/2017.

[12] AO VIVO | Protesto menor era esperado, diz Kim Kataguiri do MBL. 26/03/2017.


.

domingo, 12 de março de 2017

No dia 8 de março de 1917 as trabalhadoras russas incendiaram o mundo!

.

Joice Souza (CST/PSOL)


Resultado de imagem para No dia 8 de março de 1917 as trabalhadoras russas incendiaram o mundo!

Fev 10, 2017

Você já deve ter ouvido a história de como surgiu o 8 de março. A partir da década de 60, em meio à guerra fria, circulou e se consolidou a versão de que o dia internacional das mulheres trabalhadoras foi instaurado em função da morte de 129 operárias norte-americanas durante uma greve em 1857, em um incêndio provocados por seus patrões.

No entanto essa história nunca ocorreu. Ela é fruto de uma confusão ou talvez de uma das maiores fanfics do stalinismo mundial. Esse mito nos levou a relembrar o 8 de março como o dia em que operárias foram queimadas vivas, a greve derrotada e a burguesia saia vitoriosa esmagando, com a força física, os métodos da classe. Mas essa história é um mito! Há publicações fartas que demonstram que essa narrativa é fruto de um conjunto de informações desencontradas e confusão de datas.

As operárias tomavam as ruas no inicio do século XX

Claro o mito da greve de 1857 possui vários elementos verdadeiros. De fato, em 1910 a comunista Clara Zetkin propôs ao congresso da Segunda Internacional Comunista a fixação do dia internacional de lutas das mulheres trabalhadoras a ser comemorado no dia 29 de março. O “womans day” era realizado nos EUA com grande marchas organizadas por mulheres desde o inicio do século XX sempre entre fins de fevereiro e início de março, tendo como pauta o direito ao voto , melhores salários e condições de trabalho , jornada de trabalho, etc.

O “DIA DA Mulher” ganhava força no inicio do século à medida que ganhava força a participação das trabalhadoras no movimento operário. Segundo Aleksandra Kollontai , o numero de trabalhadoras sindicalizadas saltou de pequenos grupos dispersos em fins do século XIX para formar “um poderoso exército de mais de um milhão de mulheres socialistas” em 1913.

Não fomos incendiadas. Incendiamos o mundo!

Também é verdade que o fato que consolidou em 1922, o oito de março como Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras foi uma importante marcha de operárias em greve. Porém, essa greve não foi derrotada por um incêndio. Teve inicio em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário juliano) o poderoso levante de trabalhadoras (e trabalhadores) de Petrogrado iniciado por operárias tecelãs, que atropelaram a orientação da direção do partido bolchevique de não realizar greve , num levante espontâneo que segundo Trotsky deu o pontapé primeira etapa da revolução russa, a chamada revolução de fevereiro.

Era o dia internacional das mulheres (que na época não tinha data fixa). A socialdemocracia russa preparava panfletos. A Rússia explodia em greves num novo ascenso operário que desde 1915 rompia com o período de refluxo e derrotas vividos durante cinco anos. Mesmo assim as direções do movimento operário haviam desaconselhado a realização de greve por acreditar que “não eram momentos propícios à hostilidade” e agitavam a necessidade de uma “ação revolucionária”, porém sem data determinada. Mas quando amanheceu o dia 23 de fevereiro, as fabricas têxteis do bairro de Vyborg não funcionaram.

Contrariando a orientação de suas direções, operárias tecelãs entraram em greve e enviaram comissões a outras categorias. As direções, de inicio a contragosto, acompanharam a marcha. Leon Trotsky nos fala sobre esse episódio nos primeiros capítulos de seu livro História da evolução Russa escrito em 1930:

“De fato, estabeleceu-se que a Revolução de Fevereiro foi desencadeada por elementos da base que ultrapassaram a posição das suas próprias organizações e que a iniciativa foi espontaneamente tomada por um contingente do proletariado explorado e oprimido mais que todos os outros – as trabalhadoras do têxtil, cujo número, deveria-se pensar, devia-se contar muitas mulheres soldados. (…) O número de grevistas, mulheres e homens foi, nesse dia, cerca de 90 000. (…) Em diversos bairros apareceram bandeiras vermelhas cujas inscrições atestavam que os trabalhadores exigiam pão, mas não queria mais autocracia nem guerra. O “Dia das Mulheres” tinha conseguido. Ele estava cheio de entusiasmo e não tinha causado vítimas. (TROTSKI, 1930)

Aquele 23 de fevereiro não terminaria ali. Nos dias seguintes mais operários/as se juntavam as manifestações, as forças policiais se dividiam entre a repressão e a simpatia ao movimento e as palavras de ordem por pão, paz e terra ecoavam pelas ruas de Petrogrado:

Importante destacar que o levante de Petrogrado não foi um levante só de mulheres desprezado pelos homens como defendem setores do pós-modernismo sempre que querem problematizar um suposto papel secundário das mulheres na revolução. A greve do dia 23 foi um poderoso de levante de trabalhadoras e trabalhadores impulsionada por um de seus setores mais precarizados, as tecelãs, contra o absolutismo do Czar e que atropelou e arrastou consigo uma direção que inicialmente estava vacilante. No texto mulheres militantes nos dias da Revolução de outubro, Aleksandra Kollontai fala sobre o papel das mulheres. Dele destaco o seguinte trecho:

As mulheres que participaram na Grande Revolução de Outubro – quem eram elas? Indivíduos isolados? Não, havia multidões delas; dezenas, centenas e milhares de heroínas anônimas que, marchando lado a lado com os operários e camponeses sob a Bandeira Vermelha e a palavra-de-ordem dos Sovietes, passou por cima das ruínas do czarismo rumo a um novo futuro… (.) No ano de 1917, o grande oceano de humanidade se levanta e se agita, e a maior parte desde oceano feita de mulheres… Algum dia a historia escreverá sobre as proezas dessas heroínas anônimas da revolução, que morreram na Guerra, foram mortas pelos Brancos e amargaram incontáveis privações nos primeiros anos seguintes a revolução, mas que continuou a carregar nas costas o Estandarte Vermelho dos Poder Soviético e do comunismo. (Kollontai, 1927).

Essas trabalhadoras conquistaram o que nenhuma democracia burguesa havia dado até então. O Estado Revolucionário garantiu igualdade política e jurídica a mulheres e homens, o direito ao divorcio e ao aborto, a construção de creches, restaurantes e lavandeira públicas e consolidou em 1922 o dia 8 de março como dia internacional da mulheres em alusão a greve das tecelãs de Petrogrado.

A revolução russa foi um divisor de águas nas lutas feministas do início do século XX, pois de um lado as trabalhadoras em todo o mundo abraçavam o socialismo reivindicavam para si conquistas das trabalhadoras soviéticas; por outro lado, as mulheres burguesas se lançavam em defesa de sua classe, pois lutavam por questões pontuais: igualdade de gênero desde que isso não significasse perder seus privilégios. Muitas foram às associações, clubes e grupos de mulheres (em geral da alta-sociedade) contra o comunismo fundadas naquele período.

Infelizmente, o triunfo do stalinismo e a burocratização do estado soviético a partir de 1923 interrompeu esse processo de (auto) libertação das mulheres antes que ele se completasse revertendo diversas conquistas das mulheres e jogando o 8 de março no esquecimento por décadas. Somente na década de 60 é que o dia internacional da mulher veio ser retomado tanto pelo stalinismo mundial que o resgatou já com o mito da greve de 1857 como pela burguesia em 1975, quando a ONU reconheceu oficialmente a data buscando dar respostas ao novo ascenso da lutas das mulheres que se gestava naquele período.

Seguir o exemplo das tecelãs de Petrogrado! Viva a luta das mulheres ! Viva a revolução russa!

100 anos após a revolução, o capitalismo mostra sua face patriarcal na Rússia: em Janeiro deste ano foi aprovada a lei que descriminaliza a violência domestica e em todo o mundo a crise capitalista atinge com mais força as mulheres superexploradas e oprimidas. Poderosos levantes de mulheres explodem em todo o mundo contra o patriarcado e relembrar a história do 8 de março , dia em que iremos mais uma vez às ruas , é muito importante para lembrar que essa data não é sobre a burguesia e seus métodos assassinos e cruéis, nem sobre repressão. É sobre o poder das mulheres trabalhadoras e seus métodos . O 8 de março é um dia pra ir à luta e incendiar o mundo como o fizeram as tecelãs em 1917.


Extraído de:


.

domingo, 5 de março de 2017

Do “Fora Lula” ao “Fica Dilma”: o que aconteceu com a esquerda brasileira?

.

Em janeiro de 2003, poucos dias após receber a faixa presidencial cercado por um clima de euforia e esperança, Lula anunciava uma Reforma da Previdência que aumentava a idade mínima, introduzia a taxação dos aposentados, acabava com a aposentadoria integral, criava um fundo complementar que privatizava parte da previdência, acabava com a paridade nos reajustes dos servidores da ativa com os aposentados e reduzia as pensões aos dependentes.

Tal reforma, cujas mudanças elencadas acabaram sendo aprovadas no mesmo ano, constituiu-se na primeira grande desilusão dos governos petistas no Palácio do Planalto para setores da sociedade brasileira que por anos lhe haviam depositado confiança e esperança.

A direita tentou canalizar esse primeiro grande desgaste mas acabou neutralizada pela esquerda com o bloco formado pela resistência de alguns parlamentares do próprio PT que não apenas se recusaram a votar a favor da referida reforma como ainda lideraram atos contra ela.

Por tal atitude Luciana Genro, Babá, Heloísa Helena e João Fontes terminaram expulsos por figuras como José Dirceu, Delúbio Soares e Sílvio Pereira acusados, pela Comissão de Ética do partido, de infidelidade partidária! Conhecidos na época como os “parlamentares radicais” se aliaram a outros militantes e lutadores sociais e fundaram em 2005 o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

No ano da sua fundação, ainda antes da obtenção do seu registro definitivo na Justiça Eleitoral, o PSOL se defrontou com o seu primeiro grande desafio: o estouro do escândalo do mensalão no governo Lula.

Ainda que após a Reforma da Previdência o governo Lula houvesse seguido aplicando medidas que contrariavam o discurso petista, como privatizações e o prosseguimento da política econômica do tucano Fernando Henrique, o envolvimento do PT em um escândalo de corrupção constituiu-se na segunda grande desilusão para setores que historicamente confiaram no partido e muitos acabaram rompendo com ele.

O episódio poderia ter gerado um Kim Kataguiri, um Fernando Holiday ou turbinado Jair Bolsonaro. Mas, novamente a direita não conseguiu canalizar o desgaste petista devido à ação da esquerda: PSOL e PSTU organizaram atos unitários contra a corrupção e pelo “Fora Lula” (no caso do PSOL) e “Fora Todos” (no caso do PSTU). PT, PCdoB e movimentos sociais aliados também organizaram atos em defesa do governo mas em menor número.

O enfrentamento que essa parcela da esquerda realizava com o petismo era corajoso e admirável uma vez que se dava em um momento em que Lula e o PT gozavam de amplo apoio e prestígio o que tornava a pressão dos petistas e seus aliados terrivelmente forte.

Curiosamente, quando as contradições sociais se agudizaram, a sociedade brasileira se polarizou e o PT iniciou o seu enfraquecimento é que a esquerda brasileira começou a retroagir no seu correto enfrentamento ao petismo, permitindo que figuras da direita até então marginais crescessem e aparecessem. Por que isso ocorreu?

Ainda que ao longo dos anos mesmo alguns setores da esquerda que enfrentavam o petismo por vezes votassem nele nas eleições como um “mal menor” ou “menos pior” foi em junho de 2013 que a capitulação ganhou um salto de qualidade e a adesão de novas organizações políticas.

Perdida em meio a um fenômeno de massas que deixou de dirigir parte da esquerda assustou-se quando a direita entrou para disputar o movimento. Desacostumada ao enfrentamento de rua com a direita houve setores que simplesmente abandonaram as ruas. Teve ainda o episódio da hostilidade às bandeiras dos partidos na Avenida Paulista, que foi interpretado de forma simplista como “um ataque fascista”, rendendo uma ampla unidade de partidos que ia de organizações que se reivindicam revolucionárias até o próprio PT. Nos parece que neste fato encontra-se o embrião do discurso de “onda conservadora”.

Esses acontecimentos de junho de 2013 fortaleceram a visão daqueles que já analisavam a conjuntura como extremamente difícil, de que a classe trabalhadora estava derrotada e de que era apenas a direita que se fortalecia. O impressionismo que prevaleceu jogou a maior parte da esquerda na defensiva deixando-a cega para as contradições da realidade que mostrava a eclosão de greves pela base, o crescimento do autonomismo, do anarquismo e da própria esquerda socialista (e não apenas da direita) - fenômenos mais do que previsíveis em conjunturas de crise capitalista.

Ora, se enxerga-se apenas derrotas da classe, crescimento da direita, onda conservadora e que o nazismo e fascismo estão na nossa porta não resta dúvidas de que a ação política prioritária é a derrota desses “monstros” e a defesa das conquistas democráticas o que envolveria a formação de uma “frente ampla” com todos os setores que defendem as bandeiras democráticas. O PT, que tem explorado com êxito essa elaboração, deixava de ser combatido para se tornar aliado.

Assim, se em eleições passadas o PT, encarado como “mal menor” ou “menos pior”, recebia o voto envergonhado de parcelas da esquerda e lutadores sociais que se enfrentavam com seus governos nos anos anteriores, o segundo turno das eleições de 2014 assistiu a um engajamento militante de alguns desses mesmos ativistas que só encontrava paralelo na primeira vitória de Lula. A esquerda majoritária capitulava a falsa polarização e, em vez de neutralizar o campo para o crescimento da direita, jogava adubo nele.

A Dilma “Coração Valente” reeleita em um pleito apertado só mostrou coragem para atacar a classe trabalhadora e as classes populares. Como quase todos os governos que aplicam ajustes fiscais viu seu apoio popular se esvair rapidamente. A crise econômica e a crise política, alimentando-se mutuamente, fez evaporar a sua base política. Sem condições de governar foi retirada do poder pela classe dominante em uma manobra que previa um grande acordo nacional posterior para “salvar todo mundo”, inclusive ela e Lula, como fica claro nos áudios de Sérgio Machado com Renan Calheiros e Romero Jucá. Dilma sofreu impeachment mas não teve os direitos políticos suspensos provavelmente devido a este acordo.

Para uma esquerda amedrontada e na defensiva era inútil tentar demonstrar que a saída de Dilma não se tratava de um golpe de Estado; que não era um ataque a um governo popular e de esquerda; que não se tratava de mudanças nos rumos da economia e de que as classes dominantes fritam os políticos da sua própria classe quando não mais lhes interessam, como aconteceu com Silvio Berlusconi na Itália que, desgastado e sem base política para aplicar o ajuste fical, acabou substituído por um representante direto dos banqueiros - fato cuja essência da queda se assemelha muito ao de Dilma.

Assim, a esquerda majoritária no Brasil mergulhou de cabeça no “Fica Dilma”, ainda que tentassem alegar estar apenas defendendo a legalidade, argumento facilmente quebrado quando se perguntava se tratando-se de um governante do PSDB, DEM, PMDB, ou outro da mesma estirpe em situação similar, se a oposição ao “golpe” teria o mesmo vigor e se ocuparia as ruas.

E enquanto atuava como bote salva-vidas do PT em seu momento de naufrágio cabia a Kim Kataguiri, Fernando Holiday, Jair Bolsonaro, entre outros, a crítica dos governos petistas. Sem contraponto à esquerda cresceram e apareceram como figuras destacadas da direita.

A sequência da história mostrou que o ajuste fiscal de Temer nada mais era do que a continuidade do ajuste de Dilma e do PT; de que enquanto gritava “não ao golpe” nos palanques, nos bastidores a direção petista fazia alianças eleitorais com os “golpistas” e votava neles para presidir as casas legislativas do país, incluíndo apoio aos candidatos de Temer no Congresso Nacional; que Lula já dá conselhos e se oferece para ajudar Temer e até busca apoio eleitoral para 2018 entre aqueles que votaram a favor do impeachment e a própria Dilma andou se opondo à cassação de Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Por falar em 2018 há os que, dada a última sondagem eleitoral, já manifestaram o desejo de votar em Lula para derrotar a direita, no caso Jair Bolsonaro, que aparece em terceiro lugar. Pródiga em espalhar o medo a militância petista já aponta o dedo para Bolsonaro na tentativa de angariar os amedrontados da esquerda.

Se o êxito eleitoral de uma possível candidatura de Bolsonaro ainda não possa ser medido com precisão o certo é que tentar enfraquecê-lo jogando-se no colo de Lula provavelmente produzirá o efeito contrário.

As experiências de 2003 e 2005 demonstraram que o melhor caminho para neutralizar ou reduzir as chances da direita é a oposição política firme e decidida da esquerda em relação ao petismo aliada a apresentação de uma alternativa. Colar-se nele serve apenas para inflar a falsa polarização e enfraquecer a esquerda como alternativa política já que ela acaba aparecendo aos olhos de milhões como aliada do PT e, portanto, semelhante a ele.

Felizmente como vivemos uma conjuntura de polarização social, e não uma onda conservadora, os rumos ainda podem ser corrigidos. As medidas de ajustes fiscais são rechaçadas pela maioria da população brasileira e tem gerado crise mesmo na base do Movimento Brasil Livre (MBL), do Vem Pra Rua e até de Jair Bolsonaro.

A luta contra o ajuste fiscal precisa estar colada no “Fora Temer” e pela continuidade das investigações contra a operação abafa do governo e necessita da unidade da esquerda que deve ter uma atuação política que não se deixe capitular ou desviar pelo oportunismo petista, que em última instância deseja a aplicação do ajuste e visa apenas tentar canalizar para as próximas eleições o desgaste do governo que o aplica. Neste sentido, a vitoriosa greve dos servidores de Florianópolis, que passando por cima da direção burocrática do sindicato derrotou os ataques da prefeitura, é uma inspiradora lição.


.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Fevereiro de 1917: A Revolução que derrubou o Czar

.
fev 24, 2017



Resultado de imagem para revolução russa de fevereiro cst psol



por Diego Vitello – Coordenação Nacional da CST-PSOL



“Em cada fábrica, em cada corporação, em cada companhia militar, em cada taberna, nos hospitais da tropa, a cada aquartelamento, e mesmo nos campos despovoados, progredia um trabalho molecular da ideia revolucionária.” Leon Trotsky



Há 100 anos um importante processo revolucionário derrubou um regime que imperou na Rússia por quase quatro séculos (1547 – 1917). Esse processo entrou para a história como “Revolução de Fevereiro” e derrubou o Czar Nicolau II, que governava a Rússia desde 1894. Fevereiro dá início a um período conturbadíssimo na Rússia, de intensos conflitos sociais, onde Revolução e Contrarrevolução se chocam mais abertamente durante o ano todo. O ano de 1917 é de tempos concentrados, onde, no que diz respeito à experiência política das classes sociais exploradas, dias valiam anos e meses valiam décadas.



Foi também o início de grandes mudanças no maior conflito armado que a humanidade conhecera até então, a Primeira Guerra Mundial, com cerca de 20 milhões de mortos entre combatentes e civis. O Império Russo jogava um papel destacado ao lado das antigas potências, Inglaterra e França, enfrentando a ascendente burguesia da Alemanha e seus aliados da Áustria-Hungria e do Império Turco-Otomano. Além de mudanças, no conflito, a relação de forças entre as classes sociais também ganha uma nova configuração. Ao proletariado e ao campesinato russo cabe cumprirem um papel decisivo na derrubada do regime czarista e os seus irmãos de classe dos outros países em conflito se animavam por defender seus próprios interesses e não mais os de seus governos e da “sua” burguesia.



A Revolução, devido ao desenvolvimento desigual e combinado na história, começará exatamente no “elo mais débil da cadeia imperialista”, como Lenin se referia ao Império Russo. A Rússia, em 1917, já contabilizava 5,5 milhões de mortos. A crise chega com força no exército, e as deserções em massa dos soldados são cada vez mais comuns. Três anos após o início da guerra, a previsão política de Lenin, de que as condições das massas iriam cair bruscamente gerando um enorme descontentamento e mudanças bruscas na situação política, abrindo uma situação revolucionária mundial, estava confirmada pela história.



Alguns elementos da Rússia antes da Revolução de Fevereiro



O país da revolução de fevereiro tinha no início da Primeira Guerra, em 1914, cerca de 160 milhões de habitantes, sendo que 87% viviam no campo. Deste campesinato, cerca de 80% era analfabeto. O atraso do país, que aboliu a servidão somente em 1861, fica evidente com esses dados. Do ponto de vista dos conflitos de classe, esse atraso gerou uma burguesia bem mais fraca que nos principais países europeus, e ao mesmo tempo, um proletariado relativamente novo frente ao de outros países como Inglaterra, França e Alemanha, por exemplo.



As empresas capitalistas e imperialistas penetravam com força na Rússia desde o final do século XIX. Um proletariado jovem, reduzido em número, porém concentradíssimo, ganhava seus contornos e ia se tornando um dos atores políticos e sociais mais relevantes da sociedade russa. Em 1905, um levante proletário com uma poderosíssima onda de greves espalhou as lutas pelo país, contagiando o campesinato pobre que realizou diversas ocupações de terra. Esta revolta, que Lenin batizou de “O Ensaio Geral” para 1917, gerou um importante amadurecimento político nos trabalhadores russos que, pela primeira vez, durante os meses de mobilização, formaram seus conselhos (Sovietes) para tomar as decisões políticas de sua mobilização.



O proletariado ganhava força, ano após ano. Em 1912, estima-se que haviam 3 milhões de operários em toda Rússia, uma proporção bastante baixa no que diz respeito ao conjunto da população. No entanto, as concentrações operárias eram grandes e bastante restritas às duas principais cidades do país, Petrogrado e Moscou. Essa classe operária trabalhava em geral mais de 10 horas por dia (a Lei das 10 horas de trabalho raramente era cumprida), e vivia em condições extremamente repressivas nas fábricas.



O ano de 1917 também é o quarto ano do conflito internacional e a matança prolongada a mando dos governos imperialistas começa a gerar um descontentamento social a cada dia maior. Deserção e falta de disciplina nas tropas, inflação dos preços e racionamento de víveres, são também elementos que marcam a dramática situação política russa na guerra.



A derrubada do Czar



No final do mês de Fevereiro (no calendário Juliano, que era utilizado pela Rússia à época), teremos dias decisivos para a queda do império Czarista. O dia 23 de Fevereiro, para o calendário Juliano, ocorre no mesmo dia que o 8 de março, para o Gregoriano. Isso é importante, pois é justamente em um “Dia Internacional das Mulheres” que começam os momentos decisivos e o império czarista, que vinha agonizando há meses, cai. Nas palavras de Trotsky em seu célebre livro A História da Revolução Russa: “De fato, estabeleceu-se que a Revolução de Fevereiro foi desencadeada por elementos da base que ultrapassaram a oposição das suas próprias organizações e que a iniciativa foi espontaneamente tomada por um contingente do proletariado explorado e oprimido mais que todos os outros – as trabalhadoras do têxtil, cujo número, deveria se pensar, devia-se contar muitas mulheres soldados.”



O centro político da Revolução foi Petrogrado. Capital russa à época, a cidade era marcada por enormes concentrações operárias em fábricas com dezenas de milhares de trabalhadores. Foi no dia 27 de fevereiro que trabalhadores e soldados adentraram no Palácio Tauríde, em Petrogrado, onde funcionava a Duma (Parlamento Russo). Nesse mesmo dia se formou o governo provisório do qual falaremos mais adiante. Dias depois, no dia 2 de março, o Czar, já sem poder nenhum, abdica oficialmente.



A revolução de fevereiro de 1917, a chamada “insurreição anônima”, foi um levantamento espontâneo das massas, surpreendendo todos os socialistas, inclusive os bolcheviques, cujo papel, como organização, foi nulo durante os acontecimentos, apesar de que seus militantes desempenharam um importante trabalho individualmente nas fábricas e nas ruas, como agitadores e organizadores.



O ressurgimento dos sovietes e o duplo poder



Após a queda do Czar, os conselhos de operários e camponeses começam novamente a tomar forma pelo país, retomando a experiência do fugaz duplo poder da Revolução de 1905. Estava instaurada uma polarização que perduraria durante o ano de 17. De um lado estavam os sovietes, representante direto de operários, camponeses e soldados, do outro, o governo provisório, formado pela burguesia liberal com a colaboração de partidos como o Menchevique e o Socialista-Revolucionário, que ainda estavam à frente dos sovietes também. Esta contradição inexorável irá durar poucos meses.



A situação de duplo poder cria inevitavelmente uma instabilidade muito grande no país, já que é impossível que classes antagônicas governem ao mesmo tempo. Vai se gestando, desde os dias subsequentes a fevereiro, um conflito aberto, que mostra que uma nova revolução estava latente. O que retardou em alguns meses essa Revolução foi, sem dúvidas, a política de conciliação de classes promovida pelos partidos dos principais dirigentes dos sovietes: o Menchevique e o Socialista-Revolucionário. A influência de ambos partidos na condução dos primeiros meses dos sovietes explica também a “demora” de uma nova revolução.



Os bolcheviques, a guerra e fevereiro



A Revolução de Fevereiro também é um marco para o movimento operário internacional. Os principais partidos socialistas do mundo, porém, estavam de costas para esse processo. Em 1914, os principais partidos sociais-democratas, que agrupavam os socialistas de cada país, votaram, junto com as “suas” burguesias, os créditos de guerra. Ou seja, concretamente, mais de 90% da esquerda europeia mandava os operários e camponeses de seu país matarem os de outros países para defender os interesses econômicos da “sua” burguesia. Um crime político de repercussão histórica. Em 1916 Lenin escrevia: “É evidente a traição ao socialismo por parte daqueles que votaram pelos créditos de guerra, entraram para os ministérios e advogaram a ideia da defesa da pátria em 1914-1915. Só os hipócritas podem negar este fato (…)Em que consiste a essência econômica do defensismo durante a guerra de 1914-1915? A burguesia de todas as grandes potências trava a guerra com o fim de partilhar e explorar o mundo, com o fim de oprimir os povos. Um pequeno círculo da burocracia operária, da aristocracia operária e de companheiros de jornada pequeno-burgueses podem receber algumas migalhas dos grandes lucros da burguesia. A causa de classe profunda do social-chauvinismo e do oportunismo é a mesma: a aliança de uma pequena camada de operários privilegiados com a “sua” burguesia nacional contra as massas da classe operária, a aliança dos lacaios da burguesia com esta última contra a classe por ela explorada.” (LENIN, Vladimir. O oportunismo e a falência da II Internacional)



A localização política dos bolcheviques de não apoiar a burguesia de seu país, como o fizera a quase totalidade da esquerda europeia, os colocavam em uma armação política correta, contra a matança imperialista e a favor dos interesses da classe operária, que em nada ganhava com a guerra. Isso foi, sem dúvidas, importantíssimo no desenrolar dos acontecimentos de fevereiro. Lenin já havia alertado em 1914 que as condições de vida das massas iriam em breve se tornar insuportáveis e, portanto, uma situação revolucionária estava aberta com o início da guerra, apesar da traição histórica da maioria dos partidos sociais-democratas, mesmo que os marxistas revolucionários de todo mundo “coubessem em um vagão de trem” em 1914.



De fato, os bolcheviques participaram da Revolução de Fevereiro, ainda que não tinham a sua direção política, como em outubro. Um dos elementos, sem dúvidas, importante é que a ampla maioria da direção do partido, sobretudo os seus quadros de direção mais experimentados, se encontravam no exílio quando a Revolução se desencadeou. O próprio Lenin não estava na Rússia. Isso, por óbvio, gerou uma importante limitação na ação do partido, como mínimo. A “insurreição anônima” de fevereiro, como foi chamada por alguns historiadores, teve também a participação de diversas forças políticas, com um papel importante dos operários temperados nas lutas dos anos anteriores e na “escola de Lenin”. Nas palavras de Trotsky, mais uma vez: “A questão posta acima: quem conduziu a Revolução de Fevereiro? Podemos, por consequência responder com clareza desejada: operários conscientes e endurecidos que, sobretudo, tinham sido formados na escola do partido de Lenin. Mas, devemos acrescentar que, esta direção, se ela foi suficiente para segurar a vitória da insurreição, não esteve em posição de colocar, desde do início, a liderança da revolução entre as mãos da vanguarda proletária.” (TROTSKY, Leon. A História da Revolução Russa).



Surge o primeiro governo de conciliação de classes de história



A Revolução, fruto fundamentalmente da mobilização operária e popular, conquista um regime com uma série de liberdades democráticas inéditas para a Rússia. Porém, isso é somente nos seus inícios, logo o regime voltará a impor duras restrições às liberdades democráticas.



Logo após a queda do antigo regime, a débil burguesia russa rapidamente busca montar um governo que assuma o controle do país após a queda do Czar. Um governo que possa, sobretudo, parar e desviar o processo revolucionário em curso, do qual a revolução de fevereiro era apenas o começo. Nas palavras de Trotsky: “A burguesia russa, nascendo demasiado tarde, odiava mortalmente a revolução. Mas, ao seu ódio faltava-lhe força. Ela devia ficar na expectativa e manobrar. Não tendo possibilidade de derrubar e de sufocar a revolução, a burguesia contava tomá-la por via de extinção.” (TROTSKY, Leon. A História da Revolução Russa).



Devido à enorme mobilização popular que tinha desencadeado a Revolução, a burguesia chega a acordos com partidos pretensamente “de esquerda” para formar um governo. O governo surgido após a Revolução de Fevereiro é o primeiro governo de Frente-Popular da história, ou seja, pela primeira vez partidos operários governam um país em comum com a burguesia. Obviamente, o resultado dessa política é uma traição aos interesses da classe operária como os meses subsequentes irão demonstrar. Mas isso, é tema para os próximos textos que faremos abordando os principais acontecimentos na Rússia de 1917.



Extraído de:


.