domingo, 12 de março de 2017

No dia 8 de março de 1917 as trabalhadoras russas incendiaram o mundo!

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Joice Souza (CST/PSOL)


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Fev 10, 2017

Você já deve ter ouvido a história de como surgiu o 8 de março. A partir da década de 60, em meio à guerra fria, circulou e se consolidou a versão de que o dia internacional das mulheres trabalhadoras foi instaurado em função da morte de 129 operárias norte-americanas durante uma greve em 1857, em um incêndio provocados por seus patrões.

No entanto essa história nunca ocorreu. Ela é fruto de uma confusão ou talvez de uma das maiores fanfics do stalinismo mundial. Esse mito nos levou a relembrar o 8 de março como o dia em que operárias foram queimadas vivas, a greve derrotada e a burguesia saia vitoriosa esmagando, com a força física, os métodos da classe. Mas essa história é um mito! Há publicações fartas que demonstram que essa narrativa é fruto de um conjunto de informações desencontradas e confusão de datas.

As operárias tomavam as ruas no inicio do século XX

Claro o mito da greve de 1857 possui vários elementos verdadeiros. De fato, em 1910 a comunista Clara Zetkin propôs ao congresso da Segunda Internacional Comunista a fixação do dia internacional de lutas das mulheres trabalhadoras a ser comemorado no dia 29 de março. O “womans day” era realizado nos EUA com grande marchas organizadas por mulheres desde o inicio do século XX sempre entre fins de fevereiro e início de março, tendo como pauta o direito ao voto , melhores salários e condições de trabalho , jornada de trabalho, etc.

O “DIA DA Mulher” ganhava força no inicio do século à medida que ganhava força a participação das trabalhadoras no movimento operário. Segundo Aleksandra Kollontai , o numero de trabalhadoras sindicalizadas saltou de pequenos grupos dispersos em fins do século XIX para formar “um poderoso exército de mais de um milhão de mulheres socialistas” em 1913.

Não fomos incendiadas. Incendiamos o mundo!

Também é verdade que o fato que consolidou em 1922, o oito de março como Dia Internacional das Mulheres Trabalhadoras foi uma importante marcha de operárias em greve. Porém, essa greve não foi derrotada por um incêndio. Teve inicio em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário juliano) o poderoso levante de trabalhadoras (e trabalhadores) de Petrogrado iniciado por operárias tecelãs, que atropelaram a orientação da direção do partido bolchevique de não realizar greve , num levante espontâneo que segundo Trotsky deu o pontapé primeira etapa da revolução russa, a chamada revolução de fevereiro.

Era o dia internacional das mulheres (que na época não tinha data fixa). A socialdemocracia russa preparava panfletos. A Rússia explodia em greves num novo ascenso operário que desde 1915 rompia com o período de refluxo e derrotas vividos durante cinco anos. Mesmo assim as direções do movimento operário haviam desaconselhado a realização de greve por acreditar que “não eram momentos propícios à hostilidade” e agitavam a necessidade de uma “ação revolucionária”, porém sem data determinada. Mas quando amanheceu o dia 23 de fevereiro, as fabricas têxteis do bairro de Vyborg não funcionaram.

Contrariando a orientação de suas direções, operárias tecelãs entraram em greve e enviaram comissões a outras categorias. As direções, de inicio a contragosto, acompanharam a marcha. Leon Trotsky nos fala sobre esse episódio nos primeiros capítulos de seu livro História da evolução Russa escrito em 1930:

“De fato, estabeleceu-se que a Revolução de Fevereiro foi desencadeada por elementos da base que ultrapassaram a posição das suas próprias organizações e que a iniciativa foi espontaneamente tomada por um contingente do proletariado explorado e oprimido mais que todos os outros – as trabalhadoras do têxtil, cujo número, deveria-se pensar, devia-se contar muitas mulheres soldados. (…) O número de grevistas, mulheres e homens foi, nesse dia, cerca de 90 000. (…) Em diversos bairros apareceram bandeiras vermelhas cujas inscrições atestavam que os trabalhadores exigiam pão, mas não queria mais autocracia nem guerra. O “Dia das Mulheres” tinha conseguido. Ele estava cheio de entusiasmo e não tinha causado vítimas. (TROTSKI, 1930)

Aquele 23 de fevereiro não terminaria ali. Nos dias seguintes mais operários/as se juntavam as manifestações, as forças policiais se dividiam entre a repressão e a simpatia ao movimento e as palavras de ordem por pão, paz e terra ecoavam pelas ruas de Petrogrado:

Importante destacar que o levante de Petrogrado não foi um levante só de mulheres desprezado pelos homens como defendem setores do pós-modernismo sempre que querem problematizar um suposto papel secundário das mulheres na revolução. A greve do dia 23 foi um poderoso de levante de trabalhadoras e trabalhadores impulsionada por um de seus setores mais precarizados, as tecelãs, contra o absolutismo do Czar e que atropelou e arrastou consigo uma direção que inicialmente estava vacilante. No texto mulheres militantes nos dias da Revolução de outubro, Aleksandra Kollontai fala sobre o papel das mulheres. Dele destaco o seguinte trecho:

As mulheres que participaram na Grande Revolução de Outubro – quem eram elas? Indivíduos isolados? Não, havia multidões delas; dezenas, centenas e milhares de heroínas anônimas que, marchando lado a lado com os operários e camponeses sob a Bandeira Vermelha e a palavra-de-ordem dos Sovietes, passou por cima das ruínas do czarismo rumo a um novo futuro… (.) No ano de 1917, o grande oceano de humanidade se levanta e se agita, e a maior parte desde oceano feita de mulheres… Algum dia a historia escreverá sobre as proezas dessas heroínas anônimas da revolução, que morreram na Guerra, foram mortas pelos Brancos e amargaram incontáveis privações nos primeiros anos seguintes a revolução, mas que continuou a carregar nas costas o Estandarte Vermelho dos Poder Soviético e do comunismo. (Kollontai, 1927).

Essas trabalhadoras conquistaram o que nenhuma democracia burguesa havia dado até então. O Estado Revolucionário garantiu igualdade política e jurídica a mulheres e homens, o direito ao divorcio e ao aborto, a construção de creches, restaurantes e lavandeira públicas e consolidou em 1922 o dia 8 de março como dia internacional da mulheres em alusão a greve das tecelãs de Petrogrado.

A revolução russa foi um divisor de águas nas lutas feministas do início do século XX, pois de um lado as trabalhadoras em todo o mundo abraçavam o socialismo reivindicavam para si conquistas das trabalhadoras soviéticas; por outro lado, as mulheres burguesas se lançavam em defesa de sua classe, pois lutavam por questões pontuais: igualdade de gênero desde que isso não significasse perder seus privilégios. Muitas foram às associações, clubes e grupos de mulheres (em geral da alta-sociedade) contra o comunismo fundadas naquele período.

Infelizmente, o triunfo do stalinismo e a burocratização do estado soviético a partir de 1923 interrompeu esse processo de (auto) libertação das mulheres antes que ele se completasse revertendo diversas conquistas das mulheres e jogando o 8 de março no esquecimento por décadas. Somente na década de 60 é que o dia internacional da mulher veio ser retomado tanto pelo stalinismo mundial que o resgatou já com o mito da greve de 1857 como pela burguesia em 1975, quando a ONU reconheceu oficialmente a data buscando dar respostas ao novo ascenso da lutas das mulheres que se gestava naquele período.

Seguir o exemplo das tecelãs de Petrogrado! Viva a luta das mulheres ! Viva a revolução russa!

100 anos após a revolução, o capitalismo mostra sua face patriarcal na Rússia: em Janeiro deste ano foi aprovada a lei que descriminaliza a violência domestica e em todo o mundo a crise capitalista atinge com mais força as mulheres superexploradas e oprimidas. Poderosos levantes de mulheres explodem em todo o mundo contra o patriarcado e relembrar a história do 8 de março , dia em que iremos mais uma vez às ruas , é muito importante para lembrar que essa data não é sobre a burguesia e seus métodos assassinos e cruéis, nem sobre repressão. É sobre o poder das mulheres trabalhadoras e seus métodos . O 8 de março é um dia pra ir à luta e incendiar o mundo como o fizeram as tecelãs em 1917.


Extraído de:


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domingo, 5 de março de 2017

Do “Fora Lula” ao “Fica Dilma”: o que aconteceu com a esquerda brasileira?

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Em janeiro de 2003, poucos dias após receber a faixa presidencial cercado por um clima de euforia e esperança, Lula anunciava uma Reforma da Previdência que aumentava a idade mínima, introduzia a taxação dos aposentados, acabava com a aposentadoria integral, criava um fundo complementar que privatizava parte da previdência, acabava com a paridade nos reajustes dos servidores da ativa com os aposentados e reduzia as pensões aos dependentes.

Tal reforma, cujas mudanças elencadas acabaram sendo aprovadas no mesmo ano, constituiu-se na primeira grande desilusão dos governos petistas no Palácio do Planalto para setores da sociedade brasileira que por anos lhe haviam depositado confiança e esperança.

A direita tentou canalizar esse primeiro grande desgaste mas acabou neutralizada pela esquerda com o bloco formado pela resistência de alguns parlamentares do próprio PT que não apenas se recusaram a votar a favor da referida reforma como ainda lideraram atos contra ela.

Por tal atitude Luciana Genro, Babá, Heloísa Helena e João Fontes terminaram expulsos por figuras como José Dirceu, Delúbio Soares e Sílvio Pereira acusados, pela Comissão de Ética do partido, de infidelidade partidária! Conhecidos na época como os “parlamentares radicais” se aliaram a outros militantes e lutadores sociais e fundaram em 2005 o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

No ano da sua fundação, ainda antes da obtenção do seu registro definitivo na Justiça Eleitoral, o PSOL se defrontou com o seu primeiro grande desafio: o estouro do escândalo do mensalão no governo Lula.

Ainda que após a Reforma da Previdência o governo Lula houvesse seguido aplicando medidas que contrariavam o discurso petista, como privatizações e o prosseguimento da política econômica do tucano Fernando Henrique, o envolvimento do PT em um escândalo de corrupção constituiu-se na segunda grande desilusão para setores que historicamente confiaram no partido e muitos acabaram rompendo com ele.

O episódio poderia ter gerado um Kim Kataguiri, um Fernando Holiday ou turbinado Jair Bolsonaro. Mas, novamente a direita não conseguiu canalizar o desgaste petista devido à ação da esquerda: PSOL e PSTU organizaram atos unitários contra a corrupção e pelo “Fora Lula” (no caso do PSOL) e “Fora Todos” (no caso do PSTU). PT, PCdoB e movimentos sociais aliados também organizaram atos em defesa do governo mas em menor número.

O enfrentamento que essa parcela da esquerda realizava com o petismo era corajoso e admirável uma vez que se dava em um momento em que Lula e o PT gozavam de amplo apoio e prestígio o que tornava a pressão dos petistas e seus aliados terrivelmente forte.

Curiosamente, quando as contradições sociais se agudizaram, a sociedade brasileira se polarizou e o PT iniciou o seu enfraquecimento é que a esquerda brasileira começou a retroagir no seu correto enfrentamento ao petismo, permitindo que figuras da direita até então marginais crescessem e aparecessem. Por que isso ocorreu?

Ainda que ao longo dos anos mesmo alguns setores da esquerda que enfrentavam o petismo por vezes votassem nele nas eleições como um “mal menor” ou “menos pior” foi em junho de 2013 que a capitulação ganhou um salto de qualidade e a adesão de novas organizações políticas.

Perdida em meio a um fenômeno de massas que deixou de dirigir parte da esquerda assustou-se quando a direita entrou para disputar o movimento. Desacostumada ao enfrentamento de rua com a direita houve setores que simplesmente abandonaram as ruas. Teve ainda o episódio da hostilidade às bandeiras dos partidos na Avenida Paulista, que foi interpretado de forma simplista como “um ataque fascista”, rendendo uma ampla unidade de partidos que ia de organizações que se reivindicam revolucionárias até o próprio PT. Nos parece que neste fato encontra-se o embrião do discurso de “onda conservadora”.

Esses acontecimentos de junho de 2013 fortaleceram a visão daqueles que já analisavam a conjuntura como extremamente difícil, de que a classe trabalhadora estava derrotada e de que era apenas a direita que se fortalecia. O impressionismo que prevaleceu jogou a maior parte da esquerda na defensiva deixando-a cega para as contradições da realidade que mostrava a eclosão de greves pela base, o crescimento do autonomismo, do anarquismo e da própria esquerda socialista (e não apenas da direita) - fenômenos mais do que previsíveis em conjunturas de crise capitalista.

Ora, se enxerga-se apenas derrotas da classe, crescimento da direita, onda conservadora e que o nazismo e fascismo estão na nossa porta não resta dúvidas de que a ação política prioritária é a derrota desses “monstros” e a defesa das conquistas democráticas o que envolveria a formação de uma “frente ampla” com todos os setores que defendem as bandeiras democráticas. O PT, que tem explorado com êxito essa elaboração, deixava de ser combatido para se tornar aliado.

Assim, se em eleições passadas o PT, encarado como “mal menor” ou “menos pior”, recebia o voto envergonhado de parcelas da esquerda e lutadores sociais que se enfrentavam com seus governos nos anos anteriores, o segundo turno das eleições de 2014 assistiu a um engajamento militante de alguns desses mesmos ativistas que só encontrava paralelo na primeira vitória de Lula. A esquerda majoritária capitulava a falsa polarização e, em vez de neutralizar o campo para o crescimento da direita, jogava adubo nele.

A Dilma “Coração Valente” reeleita em um pleito apertado só mostrou coragem para atacar a classe trabalhadora e as classes populares. Como quase todos os governos que aplicam ajustes fiscais viu seu apoio popular se esvair rapidamente. A crise econômica e a crise política, alimentando-se mutuamente, fez evaporar a sua base política. Sem condições de governar foi retirada do poder pela classe dominante em uma manobra que previa um grande acordo nacional posterior para “salvar todo mundo”, inclusive ela e Lula, como fica claro nos áudios de Sérgio Machado com Renan Calheiros e Romero Jucá. Dilma sofreu impeachment mas não teve os direitos políticos suspensos provavelmente devido a este acordo.

Para uma esquerda amedrontada e na defensiva era inútil tentar demonstrar que a saída de Dilma não se tratava de um golpe de Estado; que não era um ataque a um governo popular e de esquerda; que não se tratava de mudanças nos rumos da economia e de que as classes dominantes fritam os políticos da sua própria classe quando não mais lhes interessam, como aconteceu com Silvio Berlusconi na Itália que, desgastado e sem base política para aplicar o ajuste fical, acabou substituído por um representante direto dos banqueiros - fato cuja essência da queda se assemelha muito ao de Dilma.

Assim, a esquerda majoritária no Brasil mergulhou de cabeça no “Fica Dilma”, ainda que tentassem alegar estar apenas defendendo a legalidade, argumento facilmente quebrado quando se perguntava se tratando-se de um governante do PSDB, DEM, PMDB, ou outro da mesma estirpe em situação similar, se a oposição ao “golpe” teria o mesmo vigor e se ocuparia as ruas.

E enquanto atuava como bote salva-vidas do PT em seu momento de naufrágio cabia a Kim Kataguiri, Fernando Holiday, Jair Bolsonaro, entre outros, a crítica dos governos petistas. Sem contraponto à esquerda cresceram e apareceram como figuras destacadas da direita.

A sequência da história mostrou que o ajuste fiscal de Temer nada mais era do que a continuidade do ajuste de Dilma e do PT; de que enquanto gritava “não ao golpe” nos palanques, nos bastidores a direção petista fazia alianças eleitorais com os “golpistas” e votava neles para presidir as casas legislativas do país, incluíndo apoio aos candidatos de Temer no Congresso Nacional; que Lula já dá conselhos e se oferece para ajudar Temer e até busca apoio eleitoral para 2018 entre aqueles que votaram a favor do impeachment e a própria Dilma andou se opondo à cassação de Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Por falar em 2018 há os que, dada a última sondagem eleitoral, já manifestaram o desejo de votar em Lula para derrotar a direita, no caso Jair Bolsonaro, que aparece em terceiro lugar. Pródiga em espalhar o medo a militância petista já aponta o dedo para Bolsonaro na tentativa de angariar os amedrontados da esquerda.

Se o êxito eleitoral de uma possível candidatura de Bolsonaro ainda não possa ser medido com precisão o certo é que tentar enfraquecê-lo jogando-se no colo de Lula provavelmente produzirá o efeito contrário.

As experiências de 2003 e 2005 demonstraram que o melhor caminho para neutralizar ou reduzir as chances da direita é a oposição política firme e decidida da esquerda em relação ao petismo aliada a apresentação de uma alternativa. Colar-se nele serve apenas para inflar a falsa polarização e enfraquecer a esquerda como alternativa política já que ela acaba aparecendo aos olhos de milhões como aliada do PT e, portanto, semelhante a ele.

Felizmente como vivemos uma conjuntura de polarização social, e não uma onda conservadora, os rumos ainda podem ser corrigidos. As medidas de ajustes fiscais são rechaçadas pela maioria da população brasileira e tem gerado crise mesmo na base do Movimento Brasil Livre (MBL), do Vem Pra Rua e até de Jair Bolsonaro.

A luta contra o ajuste fiscal precisa estar colada no “Fora Temer” e pela continuidade das investigações contra a operação abafa do governo e necessita da unidade da esquerda que deve ter uma atuação política que não se deixe capitular ou desviar pelo oportunismo petista, que em última instância deseja a aplicação do ajuste e visa apenas tentar canalizar para as próximas eleições o desgaste do governo que o aplica. Neste sentido, a vitoriosa greve dos servidores de Florianópolis, que passando por cima da direção burocrática do sindicato derrotou os ataques da prefeitura, é uma inspiradora lição.


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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Fevereiro de 1917: A Revolução que derrubou o Czar

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fev 24, 2017



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por Diego Vitello – Coordenação Nacional da CST-PSOL



“Em cada fábrica, em cada corporação, em cada companhia militar, em cada taberna, nos hospitais da tropa, a cada aquartelamento, e mesmo nos campos despovoados, progredia um trabalho molecular da ideia revolucionária.” Leon Trotsky



Há 100 anos um importante processo revolucionário derrubou um regime que imperou na Rússia por quase quatro séculos (1547 – 1917). Esse processo entrou para a história como “Revolução de Fevereiro” e derrubou o Czar Nicolau II, que governava a Rússia desde 1894. Fevereiro dá início a um período conturbadíssimo na Rússia, de intensos conflitos sociais, onde Revolução e Contrarrevolução se chocam mais abertamente durante o ano todo. O ano de 1917 é de tempos concentrados, onde, no que diz respeito à experiência política das classes sociais exploradas, dias valiam anos e meses valiam décadas.



Foi também o início de grandes mudanças no maior conflito armado que a humanidade conhecera até então, a Primeira Guerra Mundial, com cerca de 20 milhões de mortos entre combatentes e civis. O Império Russo jogava um papel destacado ao lado das antigas potências, Inglaterra e França, enfrentando a ascendente burguesia da Alemanha e seus aliados da Áustria-Hungria e do Império Turco-Otomano. Além de mudanças, no conflito, a relação de forças entre as classes sociais também ganha uma nova configuração. Ao proletariado e ao campesinato russo cabe cumprirem um papel decisivo na derrubada do regime czarista e os seus irmãos de classe dos outros países em conflito se animavam por defender seus próprios interesses e não mais os de seus governos e da “sua” burguesia.



A Revolução, devido ao desenvolvimento desigual e combinado na história, começará exatamente no “elo mais débil da cadeia imperialista”, como Lenin se referia ao Império Russo. A Rússia, em 1917, já contabilizava 5,5 milhões de mortos. A crise chega com força no exército, e as deserções em massa dos soldados são cada vez mais comuns. Três anos após o início da guerra, a previsão política de Lenin, de que as condições das massas iriam cair bruscamente gerando um enorme descontentamento e mudanças bruscas na situação política, abrindo uma situação revolucionária mundial, estava confirmada pela história.



Alguns elementos da Rússia antes da Revolução de Fevereiro



O país da revolução de fevereiro tinha no início da Primeira Guerra, em 1914, cerca de 160 milhões de habitantes, sendo que 87% viviam no campo. Deste campesinato, cerca de 80% era analfabeto. O atraso do país, que aboliu a servidão somente em 1861, fica evidente com esses dados. Do ponto de vista dos conflitos de classe, esse atraso gerou uma burguesia bem mais fraca que nos principais países europeus, e ao mesmo tempo, um proletariado relativamente novo frente ao de outros países como Inglaterra, França e Alemanha, por exemplo.



As empresas capitalistas e imperialistas penetravam com força na Rússia desde o final do século XIX. Um proletariado jovem, reduzido em número, porém concentradíssimo, ganhava seus contornos e ia se tornando um dos atores políticos e sociais mais relevantes da sociedade russa. Em 1905, um levante proletário com uma poderosíssima onda de greves espalhou as lutas pelo país, contagiando o campesinato pobre que realizou diversas ocupações de terra. Esta revolta, que Lenin batizou de “O Ensaio Geral” para 1917, gerou um importante amadurecimento político nos trabalhadores russos que, pela primeira vez, durante os meses de mobilização, formaram seus conselhos (Sovietes) para tomar as decisões políticas de sua mobilização.



O proletariado ganhava força, ano após ano. Em 1912, estima-se que haviam 3 milhões de operários em toda Rússia, uma proporção bastante baixa no que diz respeito ao conjunto da população. No entanto, as concentrações operárias eram grandes e bastante restritas às duas principais cidades do país, Petrogrado e Moscou. Essa classe operária trabalhava em geral mais de 10 horas por dia (a Lei das 10 horas de trabalho raramente era cumprida), e vivia em condições extremamente repressivas nas fábricas.



O ano de 1917 também é o quarto ano do conflito internacional e a matança prolongada a mando dos governos imperialistas começa a gerar um descontentamento social a cada dia maior. Deserção e falta de disciplina nas tropas, inflação dos preços e racionamento de víveres, são também elementos que marcam a dramática situação política russa na guerra.



A derrubada do Czar



No final do mês de Fevereiro (no calendário Juliano, que era utilizado pela Rússia à época), teremos dias decisivos para a queda do império Czarista. O dia 23 de Fevereiro, para o calendário Juliano, ocorre no mesmo dia que o 8 de março, para o Gregoriano. Isso é importante, pois é justamente em um “Dia Internacional das Mulheres” que começam os momentos decisivos e o império czarista, que vinha agonizando há meses, cai. Nas palavras de Trotsky em seu célebre livro A História da Revolução Russa: “De fato, estabeleceu-se que a Revolução de Fevereiro foi desencadeada por elementos da base que ultrapassaram a oposição das suas próprias organizações e que a iniciativa foi espontaneamente tomada por um contingente do proletariado explorado e oprimido mais que todos os outros – as trabalhadoras do têxtil, cujo número, deveria se pensar, devia-se contar muitas mulheres soldados.”



O centro político da Revolução foi Petrogrado. Capital russa à época, a cidade era marcada por enormes concentrações operárias em fábricas com dezenas de milhares de trabalhadores. Foi no dia 27 de fevereiro que trabalhadores e soldados adentraram no Palácio Tauríde, em Petrogrado, onde funcionava a Duma (Parlamento Russo). Nesse mesmo dia se formou o governo provisório do qual falaremos mais adiante. Dias depois, no dia 2 de março, o Czar, já sem poder nenhum, abdica oficialmente.



A revolução de fevereiro de 1917, a chamada “insurreição anônima”, foi um levantamento espontâneo das massas, surpreendendo todos os socialistas, inclusive os bolcheviques, cujo papel, como organização, foi nulo durante os acontecimentos, apesar de que seus militantes desempenharam um importante trabalho individualmente nas fábricas e nas ruas, como agitadores e organizadores.



O ressurgimento dos sovietes e o duplo poder



Após a queda do Czar, os conselhos de operários e camponeses começam novamente a tomar forma pelo país, retomando a experiência do fugaz duplo poder da Revolução de 1905. Estava instaurada uma polarização que perduraria durante o ano de 17. De um lado estavam os sovietes, representante direto de operários, camponeses e soldados, do outro, o governo provisório, formado pela burguesia liberal com a colaboração de partidos como o Menchevique e o Socialista-Revolucionário, que ainda estavam à frente dos sovietes também. Esta contradição inexorável irá durar poucos meses.



A situação de duplo poder cria inevitavelmente uma instabilidade muito grande no país, já que é impossível que classes antagônicas governem ao mesmo tempo. Vai se gestando, desde os dias subsequentes a fevereiro, um conflito aberto, que mostra que uma nova revolução estava latente. O que retardou em alguns meses essa Revolução foi, sem dúvidas, a política de conciliação de classes promovida pelos partidos dos principais dirigentes dos sovietes: o Menchevique e o Socialista-Revolucionário. A influência de ambos partidos na condução dos primeiros meses dos sovietes explica também a “demora” de uma nova revolução.



Os bolcheviques, a guerra e fevereiro



A Revolução de Fevereiro também é um marco para o movimento operário internacional. Os principais partidos socialistas do mundo, porém, estavam de costas para esse processo. Em 1914, os principais partidos sociais-democratas, que agrupavam os socialistas de cada país, votaram, junto com as “suas” burguesias, os créditos de guerra. Ou seja, concretamente, mais de 90% da esquerda europeia mandava os operários e camponeses de seu país matarem os de outros países para defender os interesses econômicos da “sua” burguesia. Um crime político de repercussão histórica. Em 1916 Lenin escrevia: “É evidente a traição ao socialismo por parte daqueles que votaram pelos créditos de guerra, entraram para os ministérios e advogaram a ideia da defesa da pátria em 1914-1915. Só os hipócritas podem negar este fato (…)Em que consiste a essência econômica do defensismo durante a guerra de 1914-1915? A burguesia de todas as grandes potências trava a guerra com o fim de partilhar e explorar o mundo, com o fim de oprimir os povos. Um pequeno círculo da burocracia operária, da aristocracia operária e de companheiros de jornada pequeno-burgueses podem receber algumas migalhas dos grandes lucros da burguesia. A causa de classe profunda do social-chauvinismo e do oportunismo é a mesma: a aliança de uma pequena camada de operários privilegiados com a “sua” burguesia nacional contra as massas da classe operária, a aliança dos lacaios da burguesia com esta última contra a classe por ela explorada.” (LENIN, Vladimir. O oportunismo e a falência da II Internacional)



A localização política dos bolcheviques de não apoiar a burguesia de seu país, como o fizera a quase totalidade da esquerda europeia, os colocavam em uma armação política correta, contra a matança imperialista e a favor dos interesses da classe operária, que em nada ganhava com a guerra. Isso foi, sem dúvidas, importantíssimo no desenrolar dos acontecimentos de fevereiro. Lenin já havia alertado em 1914 que as condições de vida das massas iriam em breve se tornar insuportáveis e, portanto, uma situação revolucionária estava aberta com o início da guerra, apesar da traição histórica da maioria dos partidos sociais-democratas, mesmo que os marxistas revolucionários de todo mundo “coubessem em um vagão de trem” em 1914.



De fato, os bolcheviques participaram da Revolução de Fevereiro, ainda que não tinham a sua direção política, como em outubro. Um dos elementos, sem dúvidas, importante é que a ampla maioria da direção do partido, sobretudo os seus quadros de direção mais experimentados, se encontravam no exílio quando a Revolução se desencadeou. O próprio Lenin não estava na Rússia. Isso, por óbvio, gerou uma importante limitação na ação do partido, como mínimo. A “insurreição anônima” de fevereiro, como foi chamada por alguns historiadores, teve também a participação de diversas forças políticas, com um papel importante dos operários temperados nas lutas dos anos anteriores e na “escola de Lenin”. Nas palavras de Trotsky, mais uma vez: “A questão posta acima: quem conduziu a Revolução de Fevereiro? Podemos, por consequência responder com clareza desejada: operários conscientes e endurecidos que, sobretudo, tinham sido formados na escola do partido de Lenin. Mas, devemos acrescentar que, esta direção, se ela foi suficiente para segurar a vitória da insurreição, não esteve em posição de colocar, desde do início, a liderança da revolução entre as mãos da vanguarda proletária.” (TROTSKY, Leon. A História da Revolução Russa).



Surge o primeiro governo de conciliação de classes de história



A Revolução, fruto fundamentalmente da mobilização operária e popular, conquista um regime com uma série de liberdades democráticas inéditas para a Rússia. Porém, isso é somente nos seus inícios, logo o regime voltará a impor duras restrições às liberdades democráticas.



Logo após a queda do antigo regime, a débil burguesia russa rapidamente busca montar um governo que assuma o controle do país após a queda do Czar. Um governo que possa, sobretudo, parar e desviar o processo revolucionário em curso, do qual a revolução de fevereiro era apenas o começo. Nas palavras de Trotsky: “A burguesia russa, nascendo demasiado tarde, odiava mortalmente a revolução. Mas, ao seu ódio faltava-lhe força. Ela devia ficar na expectativa e manobrar. Não tendo possibilidade de derrubar e de sufocar a revolução, a burguesia contava tomá-la por via de extinção.” (TROTSKY, Leon. A História da Revolução Russa).



Devido à enorme mobilização popular que tinha desencadeado a Revolução, a burguesia chega a acordos com partidos pretensamente “de esquerda” para formar um governo. O governo surgido após a Revolução de Fevereiro é o primeiro governo de Frente-Popular da história, ou seja, pela primeira vez partidos operários governam um país em comum com a burguesia. Obviamente, o resultado dessa política é uma traição aos interesses da classe operária como os meses subsequentes irão demonstrar. Mas isso, é tema para os próximos textos que faremos abordando os principais acontecimentos na Rússia de 1917.



Extraído de:


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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Brasil: cai a máscara da falsa polarização

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Movimento Brasil Livre (MBL) e Vem Pra Rua, organizações que lideraram os atos pelo impeachment de Dilma, chamaram ato em defesa da Lava Jato mas não querem saber de “Fora Temer”.

Rogério Chequer, coordenador do Vem Pra Rua, não tergiversou sobre o caráter do ato: “queremos deixar bem claro que este não é um ato ‘fora, Temer’” [1]. Isso poucos dias após Eduardo Cunha ter delatado Michel Temer, de forma comprometedora, ao juíz Sérgio Moro [2] – fato que, aliás, passou batido por MBL e Vem Pra Rua, que guardaram um silêncio conveniente e cúmplice.

De forma descarada e vergonhosa blindam um dos principais articuladores do fim da Lava Jato, uma prática que tem sido corriqueira. No episódio em que Temer criou um ministério para conferir foro privilegiado a Moreira Franco, investigado pela Lava Jato, o MBL lamentou a criação do ministério, não a blindagem de Franco. Posteriormente foram além, repetindo o discurso dos integrantes do governo de que o caso de Moreira Franco era diferente do de Lula [3]. No final de 2016, MBL e Vem Pra Rua já haviam convocado outro ato “contra a corrupção” mas pelo “Fica Temer” [4].

Assim, mostram que nunca foram contra a corrupção mas apenas contra os desvios dos concorrentes. Não foi por acaso que vários dos seus integrantes se filiaram nos partidos que estão atolados até os fios de cabelo na corrupção e que são investigados pela Lava Jato – isso depois de proclamarem-se orgulhosamente “apartidários” [5].

Um apartidarismo que era apenas da boca para fora. As relações dessas organizações com partidos como PSDB, DEM, PMDB, Solidariedade, entre outros, já havia sido divulgada na grande imprensa como em matéria publicada no UOL em 27 de maio do ano passado [6]. Na ocasião, o MBL negava qualquer financiamento, embora reconhecesse a utilização do aparato fornecido pelos partidos, e ainda declarava que “Nos assombra perceber que ainda temos gente que recusa a ação política coordenada entre partidos e movimentos, numa clara demonstração de fascismo e autoritarismo.” [7]

Não haveria o mínimo “assombro” se os dirigentes do MBL não tivessem se declarado “apartidários”. Também não ocorreria “assombro” caso os partidos que coordenaram a luta política com seu movimento não tivessem implicados em escândalos de corrupção, incluindo o mesmo esquema o qual eles tanto denunciavam seus concorrentes.

Como nem todos são cegos e incoerentes e como a base que ia nos atos chamados pelo MBL e Vem Pra Rua era heterogênea, no dia 13 de março de 2016, os tucanos Aécio Neves e Geraldo Alckmin foram vaiados e expulsos da Avenida Paulista, tendo frustrado o seu desejo de subir no palanque com seus aliados de movimento para consagrar “a ação política coordenada” [8].

Se o fim formal do apartidarismo foi selado com a filiação partidária ela aprofundou-se com o apoio explícito a governos, dentro e fora do país. O presidente Maurício Macri da Argentina foi muito “mitado” pelo MBL até a sua política aprofundar o caos social e assim o movimento jogou-o na invisibilidade tendo caído no “esquecimento”, sem nenhuma mea culpa ou autocrítica. Atualmente apoiam os tucanos João Dória Jr e Nelson Marchezan Jr. Com Temer o apoio se dá de forma um pouco mascarada, principalmente através de blindagens, exigências e defesa de suas medidas de ajuste fiscal.

Mas não foi apenas o seu apartidarismo que mostrou-se farsante, aquela conversa de que “primeiro se tira uns e depois o resto” também não passou de discurso engana bobo. Para completar apoiam o ajuste fiscal que tem massacrado o nível de vida do povo brasileiro, assim como os governos que o aplicam.

Enquanto isso, Lula e o PT trocam afagos [9], fazem acordos, alianças eleitorais [10] e até votam nos ditos “golpistas” para presidir os parlamentos, incluindo os candidatos de Temer no Congresso Nacional [11].

Em São Paulo, cidade que acusam de ser o ninho da reação nacional, votaram no candidato do DEM, partido do Fernando Holiday do MBL, para a presidência da Câmara Municipal [12]. O rapaz, que está se adaptando rapidinho à política institucional mesquinha, não tardou a devolver a gentileza votando no petista Senival Moura para a Comissão de Transportes da Câmara em um acordo avalizado pelo prefeito tucano João Doria Jr [13].

No que tange ao ajuste fiscal nos movimentos sociais e na oposição parlamentar o PT não tem sido consequente na luta pela sua derrota e onde governa aplica medidas que não deixam a desejar ao ajuste de Temer, que na realidade nada mais é do que a continuidade do ajuste de Dilma e do PT [14].

A história está comprovando que os dois grupos políticos que há pouco tempo atrás tentaram polarizar a política brasileira só desejam chegar e manter-se no poder. Para este objetivo exploraram (e exploram quando possível) a boa intenção e a justa indignação de milhares de pessoas. Como atesta o caso de São Paulo citado, nos bastidores eles se entendem e se arranjam na distribuição de cargos. Ambos desejam o fim da Lava Jato e o ajuste fiscal para manter seus podres privilégios.

O desafio segue sendo a formação de um terceiro campo político independente, classista, anti ajuste fiscal, sem o rabo preso, que tenha como atuação política prioritária a mobilização social para de fato mudar o país e não apenas promover alguma dança nas cadeiras institucionais.

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[1] MBL e Vem Pra Rua convocam manifestações a favor da Lava Jato. 14/02/2017.

[2] Depoimento Eduardo Cunha a Sérgio Moro (completo). 07/02/2017.

[3] Em maio de 2016 a então presidente Dilma Rousseff nomeou Lula Ministro da Casa Civil o que ia lhe conferir foro privilegiado.

[4] Vem Pra Rua e MBL mantêm convocação de ato sobre pacote anticorrupção. 30/11/2016.

[5] Movimentos pró-impeachment mudam discurso e vão às urnas. 17/01/2016.

[6] Áudios mostram que partidos financiaram MBL em atos pró-impeachment. 27/05/2016.

[7] NOTA OFICIAL DO MBL SOBRE MATÉRIA CALUNIOSA DO UOL. 30/05/2016.

[8] Alckmin e Aécio são hostilizados na chegada à manifestação na Paulista. 13/03/2016.

[9] Lula dá conselhos a Temer e diz estar à disposição para diálogo: ‘Me chama’. Josias de Souza, 03/02/2017.

[10] PT e PCdoB se coligam com golpistas em metade das cidades brasileiras. Cleber Lourenço, 22/08/2016.

[11] PT decide apoiar candidatos da base de Temer para o comando do Congresso. 20/01/2017.

[12] No item 11 da nota da bancada municipal do PT paulistano de 26/12/2016 consta a explicação do apoio a Milton Leite do DEM para a presidência da Câmara:

[13] Coordenador do MBL vota em petista em comissão da Câmara de SP. 10/02/2017.

[14] Esta afirmação por vezes gera polêmica. Por isso algumas lembranças são necessárias:
- A PEC dos gastos de Temer tem a sua origem no “Novo Regime Fiscal” do governo Dilma, tanto que o governo do PT no Piauí aprovou uma versão estadual da PEC de Temer com o nome “dilmista”.
- O teor do plano de acordo da dívida com os Estados de Temer, que é uma verdadeira chantagem, é o mesmo do PLP 257/16 de Dilma.
- A contra-reforma do Ensino Médio de Temer tem a sua base na proposta do governo Dilma.
- Dilma já havia se comprometido com uma nova contra-reforma na previdência e atacado direitos trabalhistas.
- Tanto Dilma quanto Temer vetaram proposta de auditar a dívida pública brasileira.
- A entrega do restante do pré-sal já havia sido apoiada por Dilma em votação no Senado Federal em 25/02/2016.


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terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

4 lições da greve da PM no Espírito Santo

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1) O ajuste fiscal não “coloca a casa em ordem”

Desde o estouro da crise financeira de 2008 o ajuste fiscal tem sido a política das classes dominantes para tentar manter o processo de acumulação e reprodução do capital. A lógica consiste em cortar direitos do andar de baixo e recursos dos serviços públicos para sustentar dívidas públicas suspeitas, cuja quase totalidade delas nunca foram auditadas. Assim, o ajuste fiscal atua como um Robin Hood ao contrário.

É preciso compreender que a questão ultrapassa a moralidade, ainda que o funcionamento do sistema esteja eivado de imoralidades. Não se trata simplesmente de uma maldade praticada por sadismo. As classes dominantes estão a cuidar dos seus interesses de classe e da sua formação social, e tentam mascarar isso com discursos ideológicos como o de que o ajuste fiscal é um “remédio amargo” necessário para “colocar a casa em ordem”.

Como é facilmente constatável o “remédio amargo” só é servido para o andar de baixo, e ainda assim de forma forçosa, enquanto que para o andar de cima aumentam as doses de “melzinho na chupeta”. A população tem perdido empregos, salários, aposentadorias e serviços públicos essenciais ao passo que percebe que grandes bancos e grandes empresas recebem cada vez mais dinheiro público e outras benesses (isenções fiscais, financiamentos a fundo perdido, subsídios, etc) e que os políticos que alardeiam crise e pedem paciência ao povo também ampliam seus privilégios.

Nesse cenário fica difícil do povo manter a calma e a instabilidade social, política e econômica se apresenta estremecendo os alicerces da “casa em ordem”. Assim, o ajuste fiscal escancara que seu objetivo é manter em ordem os lucros e privilégios do andar de cima e não organizar as contas públicas - tanto que a dívida pública não só não é auditada como as próprias medidas de ajustes dos governos, como a PEC dos gastos de Temer, permite a elevação da dívida pública em um mecanismo similar ao que foi utilizado na Grécia.

O atual capitalismo globalizado e financeirizado necessita do ajuste fiscal para manter-se respirando. Sua crise não é apenas cíclica, de acumulação, mas estrutural, onde o desenvolvimento do sistema criou obstáculos a si próprio para poder reproduzir-se. As reformas estão sendo desmontadas e abolidas e o espaço para remendos estão praticamente fechados. Não é casual que aqueles cujo o horizonte é reformar o capitalismo critiquem o ajuste fiscal na oposição para logo em seguida transformarem-se nos seus mais fiéis guardiões no governo, como atesta a experiência grega do partido Syriza.

No Brasil a propaganda ideológica das classes dominantes apresentava o Espírito Santo como um caso bem sucedido de ajuste fiscal, exemplo a ser seguido pelos demais Estados do país [1]. A greve da Polícia Militar (PM) desmoralizou completamente essa propaganda e demonstrou que tal ajuste foi realizado às custas dos seus salários e da precarização das suas condições de trabalho, afetando assim a qualidade do serviço que prestam, comprometendo-o.


2) A culpa do caos não é da greve da polícia

O governo do Espírito Santo e a grande mídia tentaram imputar à greve da PM o caos social que se verificou. Na verdade o movimento grevista apenas escancarou a violência que vem sendo camuflada por ser administrada na “normalidade” do cotidiano via intervenção policial.

A violência urbana tem causas estruturais e sociais não sendo a polícia nem a culpada e tampouco a solução para o problema, como bem reconheceu o homem das fracassadas Unidades de Polícias Pacificadoras (UPPs), José Mariano Beltrame:

“A polícia não é solução do problema. Ela é parte da solução do problema. E esta é a visão sistêmica que tem de se ter do que é segurança. Segurança não é polícia. Dizer que segurança é polícia é uma miopia, porque se isso for assim vamos precisar de verdadeiros exércitos chineses nas ruas do Brasil.” [2]

Insuspeito de ser partidário da esquerda ou de ser militante dos Direitos Humanos, Beltrame crava:

“Quanto mais cidadania você der para uma população, menos polícia você precisa.”

“A luta contra a droga é irracional.” [ibidem]

O parlamento brasileiro nunca aprovou uma única reforma social que promovesse a cidadania. No máximo algumas políticas públicas esporádicas são implementadas. E com as medidas de ajustes fiscais as parcas medidas de promoção da cidadania sofrem cortes que as inviabilizam ou são abolidas.

Empregos, escolas e hospitais são fechados. Bolsas de estudos e financiamentos estudantis são cortados. Vagas em universidades são encerradas. A aposentadoria está em risco. As oportunidades, em um país já escandalosamente desigual, escasseiam ainda mais para as classes populares.

A chamada “guerra às drogas” que já estava perdida antes se transforma em um verdadeiro WO com o ajuste fiscal. O sistema prisional caótico, que não recupera os detentos, está empilhando pessoas por terem sido encontradas com drogas – às vezes quantidades pequenas [3][4]. A legalização, que poderia aumentar a arrecadação e reduzir a violência [ibidem], sequer é cogitada. Pelo contrário, o ex-Ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, acredita ser possível erradicar a maconha no país [ibidem].

Eis os elementos promotores do caos! Nenhum deles têm relação com a polícia, esteja ela nas ruas ou aquartelada.


3) Desmilitarizar a polícia não é aboli-la

A greve da PM colocou boa parte da direita brasileira em uma tremenda sinuca de bico. Contrários às greves, defensores do ajuste fiscal e ao mesmo tempo dizendo-se amigos dos policiais, boa parte dos quadros da direita tiveram que sair pela tangente disparando contra a esquerda e nesse sentido atacando a pauta da desmilitarização da polícia apresentando-a como a abolição de toda a polícia.

Como o próprio nome indica desmilitarizar é deixar de ser militar, ou seja, desvincular do Exército as polícias que estão a ele ligadas, como é o caso da PM do Espírito Santo, tornando-a uma instituição civil, o que ampliaria os direitos dos policiais, como o de livre expressão, organização e de exercício de greves [5]. E tornar uma instituição civil não tem nada que ver com desarmar a polícia. É por ter essa compreensão que 77,2% dos policiais declararam-se favoráveis à desmilitarização em pesquisa realizada em 2014 pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, pelo Centro de Pesquisas Jurídicas Aplicadas da Fundação Getúlio Vargas e pela Secretaria Nacional de Segurança Pública [ibidem].

O chefe último das polícias estaduais são os governadores de Estado. São eles que indicam os comandantes das polícias. A estrutura militar submete os policiais às decisões políticas sem o direito de expressão ou contestação sendo obrigados a cumprir as mais absurdas ordens. Pior ainda: são severamente punidos em casos de desobediência ou revolta, como está ocorrendo no Espírito Santo [6].

A situação é tão absurda que mesmo políticos de direita, como Jair Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, reconhecem que essa estrutura acaba favorecendo o abuso político contra os policiais. Mesmo assim eles se recusam a defender o fim dela, alegando que há ocasiões em que a paralisação dos policiais seria inadequada: “como em um reveillón”, conforme declarou Flávio em debate com Marcelo Freixo no Facebook do jornal Extra no dia 10/02/2017.

Ocorre que as ocasiões em que uma categoria entra em greve tem relação com os ataques dos governos ou patrões, seja um arrocho salarial, perda de um direito ou piora nas condições de trabalho. Em 2014, os garis fizeram uma exitosa greve em pleno carnaval com grande apoio e simpatia popular. Ao alegar que há ocasiões inadequadas para uma paralisação eximi-se de responsabilidade os verdadeiros culpados e transfere a culpa para aqueles que resistem. Dessa forma, os Bolsonaros condenam os políticos no atacado para absolvê-los no varejo.

A responsabilidade última por uma greve no setor público é do governo. No caso do Espírito Santo de um governo que vem aplicando há anos um brutal ajuste fiscal. Bolsonaros, Kim Katiguiri, Fernado Holiday, entre outros, defendem as políticas de ajustes fiscais e não têm muito o que oferecer aos policiais que se rebelaram contra as condições produzidas pelo ajuste a não ser discursos histéricos contra os direitos humanos, mentir sobre a desmilitarização e apelar para que trabalhem independente das circunstâncias.

Ao tentar responsabilizar a esquerda pela ausência de policiais nas ruas do Espírito Santo a direita apela para uma ridícula e desesperada tática de tentar fugir das consequências das próprias políticas defendidas. Se alguém “aboliu” a PM capixaba foi o ajuste fiscal e não a esquerda ou a desmilitarização.


4) O Exército não é capaz de combater a violência

Muitos acreditam de forma honesta que o Exército pode cumprir de forma exitosa o papel da polícia e assim extirpar a violência urbana.

Ora, se nem a polícia, que tem preparo, pode ser encarada como a solução definitiva de um problema cujas raízes são sociais e estruturais tampouco pode o Exército – cuja atribuição e treinamento têm outros objetivos.

A continuidade dos saques, roubos e mortes no Espírito Santo [7], mesmo com as presenças do Exército e da Força Nacional, constituem refutações práticas da crença de que os milicos podem resolver esse complexo problema social.


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[1] "Ajuste do Espírito Santo é exemplo de lição de casa para Estados endividados", por Samuel Pessôa. 25/12/2016.

[2] "A polícia é só parte da solução do problema", diz José Mariano Beltrame. Entrevista ao Jornal Zero Hora de Porto Alegre. 05/11/2016.

[3] Insignificância: homem é condenado pelo STJ por tráfico de 0,02g de maconha. 22/06/2015.

[4] Observações sobre a violência no Brasil. 08/01/2017.

[5] 5 fatos que você precisa conhecer antes de falar sobre a desmilitarização da polícia.

[6] PM do ES deve demitir 161 policiais envolvidos em motim. 13/12/2017.

[7] Grande Vitória tem tiroteio e saques a comércios mesmo com Exército. 07/02/2017.


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domingo, 29 de janeiro de 2017

Marx e a revolução na Inglaterra do século XIX

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É comum ouvir em meios acadêmicos e militantes que Marx se equivocou com relação ao acontecimento de revoluções em países capitalistas avançados, como se tal afirmação não tivesse passado de simples desejo do pai do socialismo científico desprovido de qualquer fundamento na realidade concreta.

Se até o presente momento de fato nenhuma revolução social ocorreu em país desenvolvido é fato que os conflitos sociais no século XIX eram mais intensos em países de capitalismo adiantado. E essa era a base material na qual Marx se inspirava.

Na presente carta que segue abaixo fica evidente, nas palavras de Marx, que além dos progressos materiais das forças de produção a Inglaterra do século XIX também fazia avançar as contradições sociais em seu interior.



Carta ao Parlamento do Trabalho(1)
Karl Marx
9 de Março de 1854

Escrito: 9 de Março, 1854.
Primeira Edição: no People's Paper em 18 de Março, 1854.
Fonte: www.marxists.org/archive/marx/works/1854/03/09.htm (Marx Engels on Britain, Progress Publishers 1953).
Tradução para o português: Eduardo de Andrade Machado.
HTML de  Fernando Araújo para o Marxist Internet Archive.


Londres, 9 de Março de 1854

Lamento profundamente estar incapacitado, neste momento, ao menos, de deixar Londres, e assim de estar impedido de expressar verbalmente meus sentimentos de orgulho e gratidão em receber o convite para tomar um lugar como Delegado Honorário no Parlamento do Trabalho. A mera constituição de tal Parlamento, marca uma nova época na história do mundo. As notícias de tal gracioso fato erguerão as esperanças das classes trabalhadoras por toda Europa e América.

A Grã-Bretanha, de todos os outros países, têm desenvolvido numa escala gigantesca, o despotismo do Capital e a escravidão do Trabalho. Em nenhum outro país as estações intermediárias entre milionários comandando exércitos inteiros da indútria e os escravos assalariados vivendo somente de sua mão para a boca estiveram sendo tão gradualmente varridas do solo. Não existe mais aqui, como em países continentais, grandes classes de camponeses e artesãos, quase igualmente dependentes de sua propriedade e seu próprio trabalho. Um divórcio completo da propriedade perante o trabalho se efetivou na Grã-Bretanha. Em nenhum outro país, aliás, a guerra entre as duas classes que constituem a sociedade moderna assumiu dimensões colossais e características tão distintas e palpáveis.

Mas é precisamente partindo destes fatos que as classes trabalhadoras da Grã-Bretanha, antes de todas outras, vem a ser competentes e clamadas a atuarem como líderes no grandioso movimentos que deve finalmente resultar na absoluta emancipação do Trabalho. De tal forma, estão conscientes da clareza de suas posições, da vasta maioria de seus números, das lutas desastrosas de seu passado e da força moral de seu presente.

É o trabalho de milhões da Grã-Bretanha, os quais primeiro conceberam — a base real de uma nova sociedade — a indústria moderna, que transformou agências destrutivas da natureza em poder produtivo, para o homem. As classes trabalhadoras inglesas, com energia invencível, pelo suor de suas frontes e cérebros, chamaram à vida os meios materiais de enobrecimento do trabalho, e da multiplicação de seus frutos a um certo nível que realize a possibilidade da abundância geral.

Pela criação de inesgotável capacidade produtiva da indústria moderna, completaram a primeira condição para a emancipação do Trabalho. Têm agora de perceber sua outra condição. Têm que libertar os poderes da produção de riquezas das amarras infames do monopólio, sujeitando-os ao controle conjunto dos produtores, os quais, até agora, possibilitaram que muitos produtos de suas mãos tornassem contrários a si próprios e se transformassem em muitos instrumentos de sua própria sujeição.

As classes trabalhadoras conquistaram a natureza; elas tem agora de conquistar o homem. Para proceder tal desafio não querem a força, mas a organização de sua força comum, organização das classes trabalhadoras numa escala nacional — que, como suponho, é o fim maior e glorioso desejado pelo Parlamento do Trabalho.

Se o Parlamento do Trabalho provar fidelidade à idéia que lhe concebeu vida, no futuro, alguns historiadores terão de recordar a existência de dois Parlamentos na Inglaterra no ano de 1854, um Parlamento em Londres e um Parlamento em Manchester — um Parlamento dos ricos e um Parlamento dos pobres — mas aqueles homens sentaram-se somente no Parlamento dos homens e não no Parlamento dos mestres.

Atenciosamente,
Karl Marx


Notas:
(1) Esta carta fora endereçada ao Congresso Chartista que ocorrera em Março de 1854 em Manchester.



Extraído de:
https://www.marxists.org/portugues/marx/1854/03/09.htm


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