quarta-feira, 31 de março de 2010

Choque de gestão na democracia: tucanos infiltram agentes nas mobilizações sociais

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Infiltração e repressão: Serra aplica cartilha de Yeda

Marco Aurélio Weissheimer

O governo José Serra (PSDB) adotou as mesmas táticas policiais utilizadas pela também tucana Yeda Crusius no Rio Grande do Sul. Integram essas táticas, entre outras, duas medidas básicas: reprimir violentamente protestos e manifestações de ruas e infiltrar policiais à paisana nestes protestos e manifestações. O episódio da foto onde um homem carrega uma PM ferida nos protestos de 26 de março expôs, involuntariamente, esse tipo de prática. Inicialmente, um texto do jornalista Leandro Fortes reproduziu a versão difundida pela Agência Estado dando conta de que o homem era um manifestante que participava do ato dos professores. Diante da repercussão causada pela foto, dois dias depois, o comando da PM de São Paulo divulgou uma nota garantindo que se tratava de um policial à paisana “que estava passando por ali por acaso”. A PM negou tratar-se de um “infiltrado”, mas negou-se a divulgar o nome do mesmo o que só reforça a tese de que se tratava de um homem do chamado “serviço de inteligência” da polícia.

Uma das regras básicas do trabalho desse “serviço de inteligência” é não ser identificado publicamente. Vale tudo para assegurar o anonimato, desde disfarçar-se de manifestante ou mesmo de jornalista. No dia 30 de abril de 2009, um homem, apontado por manifestantes como sendo agente da PM2, o serviço secreto da Brigada Militar (a PM gaúcha), usou indevidamente o nome da Carta Maior ao infiltrar-se em uma manifestação de servidores públicos contra o governo Yeda Crusius, em Porto Alegre, e fazer fotos dos manifestantes (foto). Não foi a primeira vez que servidores de órgãos de segurança disfarçaram-se de fotógrafos no Rio Grande do Sul, identificando-se como profissionais de imprensa para espionar manifestações de sindicatos e movimentos sociais. Em geral, essa prática conta com a cumplicidade (pelo silêncio) da imprensa local, que tem conhecimento da mesma, mas não fala no assunto.

O papel dos infiltrados é duplo: recolher informações e fazer fotos de manifestantes, por um lado; e, eventualmente, dar início a provocações que levem a distúrbios e conflitos que, posteriormente, serão atribuídos aos manifestantes. Essa prática, aplicada várias vezes contra sem terras, professores e servidores públicos no Rio Grande do Sul, é repetida agora em São Paulo com as acusações de que os professores em greve seriam “baderneiros” e responsáveis pelos conflitos com a polícia. A decisão do PSDB de São Paulo de entrar na Justiça contra o Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo também segue a mesma cartilha utilizada pelo governo Yeda no RS. Segundo a representação encaminhada em conjunto pelo PSDB e pelo DEM, “o movimento se organiza em torno de palavras de ordem e outras manifestações que tendem a interferir no âmbito eleitoral, partidarizando o movimento”.

No Rio Grande do Sul, dirigentes sindicais, jornalistas e lideranças de movimentos sociais já perderam a conta do número de processos, no âmbito civil e criminal, movidos pela governadora Yeda Crusius. O Ministério Público do Rio Grande do Sul chegou a determinar, em 2009, a retirada de cartazes e outdoors que faziam parte de uma campanha de sindicatos de servidores públicos e movimentos sociais denunciando casos de corrupção envolvendo o governo Yeda. A atual presidente do Centro de Professores do Estado do RS (CPERS/Sindicato), Rejane Oliveira, está sofrendo vários processos, um deles por ter participado de uma manifestação em frente à casa da governadora.

O fato é que os governos tucanos apresentam uma uniformidade no trato com manifestações sociais: o que domina é a lógica da repressão, a ausência do diálogo e a aversão ao contraditório. O uso de policiais infiltrados nas manifestações é típico de tempos autoritários, onde a “interlocução” de governos com a oposição é feita nos subterrâneos, com práticas nada transparentes. Não é por acaso, portanto, que cenas e práticas similares vêm sendo vistas nas ruas de São Paulo e do Rio Grande do Sul.

http://rsurgente.opsblog.org/2010/03/30/infiltracao-e-repressao-serra-aplica-cartilha-de-yeda/
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terça-feira, 30 de março de 2010

Fogaça admite ter palanque com Dilma

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O atual Prefeito de Porto Alegre e candidato do PMDB ao governo do Estado, José Fogaça, admitiu que pode dividir o palanque eleitoral com a candidata petista à Presidência da República, Dilma Rousseff, caso o Diretório Nacional do seu partido decida apoiar a candidata de Lula.

A declaração de Fogaça é pertinente uma vez que apesar da convergência de projetos e práticas políticas entre o PT e a velha direita, inclusive no Rio Grande do Sul, ambos faziam, por aqui, uma encenação de antagonismo nas eleições.

Além do mais evidencia o escandaloso vale tudo eleitoral onde teríamos a aberração de ao mesmo tempo em que o PMDB gaúcho apoiaria o PT em nível nacional seria seu concorrente em nível estadual.



Fogaça admite dividir palanque com Dilma caso o diretório nacional decida pelo apoio
Prefeito entregou a carta de renúncia ao cargo para concorrer ao governo do Estado

José Fogaça encerra seu ciclo como prefeito da Capital gaúcha ao meio-dia desta terça-feira. Ele deve se concentrar a partir de agora na campanha da candidatura ao governo do Estado. Em entrevista hoje ao programa Gaúcha Atualidade, ele afirmou que deve estar ao lado de Dilma Rousseff, caso o partido decida apoiar a candidata do PT.

— O PMDB do Rio Grande do Sul considera que é inaceitável que o PMDB do Brasil não tenha um projeto para o país, e ao lado desse projeto, um candidato próprio. Mas nós vamos sempre respeitar a decisão do Diretório Nacional — afirmou Fogaça

Fogaça admitiu que deixa o governo por uma decisão do partido, e que não gostaria de deixar a gestão pela metade.

— A minha saída foi antecedida por um longo e criterioso debate. De fato eu não queria, não tinha pretensão, não desejava, de modo algum sair do governo. Essas condições foram criadas pelo processo político.

Questionado sobre qual seria a principal crítica ao seu governo, Fogaça citou o modelo de sistemas de placas e mobiliário urbano.

— Precisamos modificar toda a legislação. Já modificamos, mas é preciso uma reestruturação completa para que esse mobiliário, paradas de ônibus, placas de ruas e sinalizações possam ganhar um nível de qualidade de primeiro mundo.

Fogaça destacou como uma marca de sua passagem pela prefeitura o modelo de gestão por programas e a governança solidária local. O prefeito também lamentou o fato da impossibilidade de concluir determinadas ações.

— Sempre ficam coisas por fazer. Nós estamos com uma matriz de responsabilidades para construir uma dezena de obras para Porto Alegre, todas elas estão inclusive planejadas dentro da perspectiva da Copa do Mundo.

Fonte: ZH Online (30/03/2010 09h18min),
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1§ion=Pol%EDtica&newsID=a2856286.xml
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segunda-feira, 29 de março de 2010

Honduras: General golpista é agraciado com cargo

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O Governo de Porfírio Lobo, eleito em uma eleição que contou com a abstenção da maioria da população, acaba de nomear o General golpista, Romeo Vásquez Velásquez, gerente da Hondutel (empresa de telecomunicações).

Lobo e seu partido apoiaram o truculento golpe de Estado do ano passado e a essa medida mostra claramente a farsa que é o seu discurso democrático.

Que os governos da região continuem a não reconhecer esse governo forjado no golpismo!



Romeo Vásquez Velásquez nombrado como gerente de Hondutel
9 Marzo, 2010

TEGUCIGALPA.- El ex jefe del Estado Mayor Conjunto de las Fuerzas Armadas, Romeo Vásquez Velásquez fue nombrado este martes como nuevo gerente de la Empresa Hondureña de Telecomunicaciones (Hondutel), en sustitución de Jorge Aguilar quien se venía desempeñando en su cargo durante los últimos ocho meses desde la pasada administración de Roberto Micheletti.

El nombramiento de Vásquez Velásquez que en consenso con los miembros de la Junta Directiva de Hondutel, que está integrada por Oscar Escalante, titular de Industria y Comercio, Áfrico Madrid, de Gobernación y Justicia; William Chong Wong, de Finanzas; así como los comisionados Juan Carlos García y Roberto Ramón Castillo.

El general en condición de retiro, indicó a periodistas que “está listo para servir a su patria en cualquier posición”. Y agradeció la confianza que depositó el Presidente, Porfirio Lobo Sosa.

Vásquez Velásquez dijo que “se trata de un reto para cumplir con la responsabilidad, que se tiene con la empresa del pueblo, de los hondureños”. “Tenemos la obligación de levantarla”, agregó.

Reconoció que se trata de “una gran tarea” en el gobierno que pone especial atención en “el factor humano” en busca del bien común del pueblo hondureño.

Además como sub gerente de Hondutel, fue juramentado esta tarde, el ingeniero, Jesús Mejía.

Por su parte, Aguilar dijo que la empresa se encuentra en una crisis financiera, pero que aún con la crisis en enero se generaron 25 millones de lempiras en ganancias.

En desarrollo

Fonte: La Tribuna,
http://www.latribuna.hn/web2.0/?p=106835
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sábado, 27 de março de 2010

Nojo do povo!

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Em visita a um campo de refugiados em Porto Príncipe, no Haiti, no último dia 22, o ex-presidente dos Estados Unidos, George Bush, limpou a mão na camisa do seu conterrâneo e também ex-presidente, Bill Clinton, após apertar a mão de um cidadão haitiano.



http://www.youtube.com/watch?v=z0xd-wsHQ-w&feature=player_embedded
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Como Serra trata a educação

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Na tarde de ontem (sexta-feira, 26/03/2010) uma mobilização dos professores de São Paulo foi duramente reprimida com uma verdadeira operação de guerra que contou com a presença até de helicóptero.

Após realizar a sua assembléia em frente ao Estádio Morumbi, os docentes iniciaram uma passeata pacífica que deveria se encerrar na frente do Palácio Bandeirantes, que é a sede do Governo do Estado.

No entanto, os manifestantes encontraram pelo caminho barricadas que haviam sido montadas pela Polícia Militar com o claro objetivo de evitar a chegada dos mesmos até o Palácio governamental. Todas as vias de acesso foram bloqueadas, desrespeitando os direitos democráticos de livre expressão e locomoção (ir e vir).

Tentando entender o porquê desse tratamento acabou se formando uma aglomeração de professores em frente de uma das barricadas. A resposta da polícia foi cassetadas, balas de borracha, bombas de gás lacrimogênio e spray de pimenta.

É assim que Serra trata os docentes e a educação!







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http://www.youtube.com/watch?v=RWzKFV6Bt7A

http://www.youtube.com/watch?v=3iDhh8ErpDc

http://www.youtube.com/watch?v=wVg0jIJ0geg
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sexta-feira, 26 de março de 2010

As crianças de Fallujah

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http://www.youtube.com/watch?v=ac7kcg0qi-Q


Em 2003 os Estados Unidos e seus aliados invadiram o Iraque com o argumento de que iam tomar-lhe as armas de destruição em massa que ameaçavam a segurança planetária. Na sequência ficou comprovado que as tais armas não passavam de ficção.

Além disso, o país que se credenciava como o herói que salvaria a humanidade de armas bestiais não vacilou em utilizar armamento, que por seus efeitos e crueldade, é proibido pelas convenções internacionais, como, por exemplo, o fósforo branco.[1]

Outra munição devastadora utilizada contra os iraquianos foi a bomba de fragmentação. Esse artefato, que mantém seus efeitos mesmo após encerrado o conflito, recebeu o repúdio de 93 países que em 2008 assinaram um tratado visando a sua proibição. Os Estados Unidos não compareceram ao encontro.[2]

Mas as incoerências não cessam por aí. Se os presidentes americanos, desde Bush até Obama, fazem discursos escandalizados contra o urânio utilizado pelo Irã em seu programa nuclear (programa esse que até agora não se conseguiu provar que é para fins bélicos), as suas tropas, por sua vez, não se acanharam em utilizar urânio empobrecido no Iraque.[3]

O principal alvo dos ataques de urânio foi a cidade de Fallujah onde se travaram duros embates em 2004. As trágicas consequências para a população civil transcendeu o período do auge dos bombardeios. A radiação liberada pelo urânio utilizado está causando câncer, problemas cardíacos e no sistema nervoso além de defeitos congênitos em crianças recém nascidas.
"Vi fotos de bebês nascidos com um olho no meio da testa, com o nariz na testa", disse a pesquisadora iraquiana baseada na Inglaterra Malik Hamdam.[4]

De acordo com os médicos que atuam no Iraque antes de 2003 ocorria um caso de defeito congênito a cada dois meses, aproximadamente. Hoje eles se deparam com esse problema todos os dias.
Cabeças maiores do que o normal, problemas de coração, nos olhos e nos membros inferiores, além de outras anomalias têm sido constatadas frequentemente conforme afirma o neuro-cirurgião Abdul Wahid Salah.[5]

Abaixo seguem algumas imagens chocantes divulgadas pela mídia inglesa, umas pelo tablóide The Guardian[6] e outras pelo Daily Mail Online[7], que dão uma idéia do trágico resultado da bestialidade imperial:

The Guardian:












Daily Mail Online:












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[1] Pentágono admite uso de fósforo branco no Iraque (16/11/2005):
http://noticias.uol.com.br/ultnot/efe/2005/11/16/ult1808u53538.jhtm

[2] Assinado tratado contra armas de fragmentação (04/12/2009):
http://noticias.terra.com.br/mundo/interna/0,,OI3373041-EI294,00-Assinado+tratado+contra+armas+de+fragmentacao+falta+ratificar.html

[3] Urânio empobrecido: Um crime de guerra dentro de uma guerra criminosa, por William Bowles (24/03/2010):
http://www.resistir.info/iraque/du_21mar10.html

[4] Iraquianos denunciam aumento de defeitos congênitos em Fallujah (04/03/2010):
http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2010/03/04/iraquianos-denunciam-aumento-de-defeitos-congenitos-em-fallujah-915985720.asp

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,iraquianos-denunciam-aumento-de-defeitos-congenitos-em-fallujah,519490,0.htm

http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,iraquianos-denunciam-aumento-de-defeitos-congenitos-em-fallujah,519350,0.htm

http://ultimosegundo.ig.com.br/bbc/2010/03/04/iraquianos+denunciam+aumento+de+defeitos+congenitos+em+fallujah+9416679.html

http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4300766-EI308,00-Iraque+denunciam+aumento+de+defeitos+congenitos+em+Fallujah.html

Child deformities 'increasing' in Falluja (04/03/2010):
http://news.bbc.co.uk/today/hi/today/newsid_8548000/8548926.stm

Iraq littered with high levels of nuclear and dioxin contamination, study finds (22/01/2010):
http://www.guardian.co.uk/world/2010/jan/22/iraq-nuclear-contaminated-sites

[5] Huge rise in birth defects in Falluja (13/11/2009):
http://www.guardian.co.uk/world/2009/nov/13/falluja-cancer-children-birth-defects

[6] The children of Falluja:
http://www.guardian.co.uk/world/gallery/2009/nov/13/iraq-us-military?picture=355553427

[7] The curse of Fallujah: Women warned not to have babies because of rise in birth defects since U.S. assault (05/03/2010):
http://www.dailymail.co.uk/news/worldnews/article-1255312/Birth-defects-Fallujah-rise-U-S-operation.html
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terça-feira, 23 de março de 2010

Serra faz convênio com a Rede Globo

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Se no ano passado Arruda assinou um convênio com a Revista Veja e depois foi agraciado com uma entrevista amigável e que o promovia, agora, em pleno ano eleitoral, o governador de São Paulo, José Serra, candidato do PSDB à Presidência da República, firmou um convênio entre o Estado de São Paulo e a Rede Globo e a Fundação Roberto Marinho.

O acordo, que preve a construção de uma escola técnica, foi noticiado e comemorado pela própria emissora em seus veículos de comunicação como o Portal G1 [*].

A escola será construída em um terreno na Avenida Doutor Chucri Zaidan, na Zona Sul de São Paulo. O "terreno é de propriedade do estado" informa a matéria do G1.

Tal terreno, porém, estava sendo ocupado ilegalmente pela Rede Globo, conforme denunciou a sua concorrente, Rede Record, em reportagem de agosto de 2009:


http://www.youtube.com/watch?v=Z-M3a2aqElo&feature=player_embedded

Os campeões da defesa da propriedade avançaram a cerca imprudentemente sobre uma área pública e a ação enérgica de Serra, outro campeão da defesa da propriedade, foi premiar os poderosos invasores entregando-lhes a propriedade.

Não é por menos que muitos estão dizendo que o tucano legalizou a grilagem de terras da emissora.
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[*] Governo de SP assina convênio para construção de escola técnica (19/03/10):
http://g1.globo.com/Noticias/SaoPaulo/0,,MUL1536879-5605,00-GOVERNO+DE+SP+ASSINA+CONVENIO+COM+A+TV+GLOBO+PARA+CONSTRUCAO+DE+ESCOLA+TECN.html

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segunda-feira, 22 de março de 2010

O mito Adam Smith

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Aviso: o artigo a seguir, que como sugere o título "torra" Adam Smith, não foi escrito por nenhum anticapitalista, mas pelo liberal da Escola Austríaca Murray N. Rothbard (1926-1995).

Agradeço ao meu irmão Richard Nogueira por ter me enviado o presente texto, o qual suprimi alguns trechos que considerei menos importantes.



O mito Adam Smith
24/10/2009 por Murray N. Rothbard[*]

Adam Smith (1723-1790) é um mistério envolto em uma charada dentro de um enigma. O mistério é a enorme e inaudita disparidade entre a exaltada reputação de Smith e a realidade de sua dúbia contribuição para o pensamento econômico.

A reputação de Smith praticamente eclipsa o sol. Desde o seu tempo até muito recentemente, pensava-se que ele havia virtualmente recriado a ciência econômica. Ele era universalmente aclamado com o Pai Fundador. Livros sobre a história do pensamento econômico, após alguns poucos e bem merecidos escárnios direcionados aos mercantilistas e alguns acenos para os fisiocratas, invariavelmente começam dizendo que Smith é o criador da disciplina da economia. Quaisquer erros que ele tenha cometido são compreensivelmente desculpados como sendo as inevitáveis falhas de todo grande pioneiro.

Inúmeras palavras já foram escritas sobre ele. No bicentenário de sua obra magna, Uma Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações (1776), houve uma verdadeira avalanche de livros, ensaios e penduricalhos sobre o sereno professor escocês. Seu perfil esculpido em um medalhão feito por James Tassie é conhecido em todo o mundo. Até mesmo um filme hagiográfico sobre Smith foi feito por uma fundação pró-livre mercado durante o bicentenário, (...) e defensores do livre mercado há muito aclamam Adam Smith seu santo padroeiro.

'Gravatas de Adam Smith' foram utilizadas como insígnia de honra pelo alto escalão do governo Reagan.

(...)

Como já vimos, Smith dificilmente foi o fundador da ciência econômica, uma ciência que existiu desde os escolásticos medievais e, em sua forma moderna, desde Richard Cantillon. Mas aquilo que os alemães costumavam classificar como o Das AdamSmithProblem é algo muito mais severo do que isso. Pois o problema não é apenas que Smith não foi o fundador da ciência econômica.

O problema é que ele não originou nada que fosse verdade, e tudo que ele originou estava errado. Mesmo em uma época em que havia menos citações e notas de rodapé do que a nossa, Adam Smith foi um desavergonhado plagiador, pouco ou nunca reconhecendo suas fontes e roubando grandes nacos, por exemplo, da obra de Cantillon. Muito pior foi a completa recusa de Smith em citar ou reconhecer seu querido mentor Francis Hutcheson, de quem ele extraiu a maioria de suas ideias bem como a organização de suas escritas sobre economia e filosofia moral. Smith chegou até a escrever uma carta privada à Universidade de Glasgow falando sobre o 'nunca a ser esquecido Dr. Hutcheson', mas aparentemente a amnésia convenientemente o acometeu quando foi escrever A Riqueza das Nações para o público geral.

Embora fosse um inveterado plagiário, Smith sofria de um complexo de Colombo, e acusava amigos próximos de estarem plagiando-o. E mesmo sendo um plagiador, ele plagiava mal, acrescentando novas falácias às verdades que coletava. Ao castigar Adam Smith por seus erros, portanto, não estamos sendo anacrônicos, punindo absurdamente pensadores do passado por não serem tão espertos quanto nós, que viemos depois. Pois Smith não apenas não contribuiu com nada de valor para o pensamento econômico, como também sua economia foi uma grave deterioração da economia de seus predecessores: de Cantillon, de Turgot, de seu professor Hutcheson, dos escolásticos espanhóis, e até mesmo, bizarramente, de seus próprios trabalhos anteriores, como Escritas sobre Jurisprudência (não publicado, 1762-63, 1766) e a Teoria dos Sentimentos Morais (1759).

O mistério de Adam Smith, portanto, é a imensa disparidade entre uma reputação monstruosamente hiperinflacionada e a deplorável realidade. Mas o problema é pior do que isso; não é apenas o fato de A Riqueza das Nações ter desfrutado de uma terrivelmente exagerada reputação desde seus dias até hoje. O problema é que A Riqueza das Nações de alguma forma conseguiu cegar todos os homens, economistas e leigos igualmente, para o fato de que outros economistas, que eram melhores, haviam existido e escrito antes de 1776. A Riqueza das Nações exerceu no mundo um impacto tão colossal que todo o conhecimento de economistas anteriores foi apagado - daí a reputação de Smith como o Pai Fundador da ciência econômica. O problema histórico é esse: como pôde ocorrer esse fenômeno com um livro tão derivativo, tão profundamente falho, tão menos notório que seus predecessores?

A resposta certamente não é por causa de alguma lucidez ou clareza de estilo ou de pensamento. Pois o tão reverenciado A Riqueza das Nações é um livro enorme, prolixo, rudimentar e confuso, repleto de ambiguidades e profundas contradições internas. (...) Há uma vantagem sociológica em ser ambíguo e obscuro. O estupefato alemão Christian J. Kraus, ardoroso smithiano, certa feita se referiu a A Riqueza das Nações como a 'Bíblia' da economia política.(...)

(...)

Adam Smith não fundou a ciência econômica, mas ele de fato criou o paradigma da escola clássica britânica, e é sempre útil para o criador de um paradigma ser rudimentar e confuso, deixando assim espaço para os discípulos que irão tentar clarificar e sistematizar as contribuições do Mestre. Até os anos 1950, os economistas, ao menos aqueles da tradição anglo-americana, reverenciavam Smith como o fundador, e viam os posteriores desenvolvimentos da economia como um movimento linearmente ascendente em direção à luz, com Smith sendo sucedido por Ricardo e John Stuart Mill, e depois, após um pouco de divergência criada pelos austríacos nos anos 1870, com Alfred Marshall estabelecendo a economia neoclássica como sendo uma disciplina neo-ricardiana - logo, neo-smithiana. De certo modo, John Maynard Keynes, aluno de Marshall em Cambridge, pensou estar apenas preenchendo o vácuo da herança ricardiana-marshalliana.

Dentro desse enfatuado miasma de adoração a Smith, a História da Análise Econômica (1954) de Joseph A. Schumpeter surgiu como um autêntico arrasa-quarteirão. Oriundo das tradições continentais walrasianas e austríacas, ao invés do classicismo britânico, Schumpeter conseguiu, virtualmente pela primeira vez, lançar um olhar frio e realista sobre o celebrado escocês. Escrevendo com um desdém finamente dissimulado, Schumpeter usualmente denegria a contribuição de Smith, e essencialmente mantinha que Smith havia desviado a economia para um caminho errado, um caminho infelizmente distinto daquele traçado por seus ancestrais continentais.

Desde Schumpeter, os historiadores do pensamento econômico adotaram amplamente uma posição de recuo. Smith, reconhecem eles, não criou nada, mas foi o grande sintetizador e sistematizador, o primeiro a pegar todos os segmentos dispersos de seus predecessores e costurá-los de modo a formar uma estrutura coerente e sistemática. Mas o trabalho de Smith foi o oposto do coerente e do sistemático, e Ricardo e Say, seus dois maiores discípulos, cada um deles se incumbiu da tarefa de moldar um sistema coerente fora da bagunça smithiana.

Mais ainda: embora seja verdade que os escritos pré-Smith eram incisivos porém esparsos (Turgot), ou entranhados de filosofia moral (Hutcheson), é também verdade que já havia dois tratados gerais sobre economia anteriores a A Riqueza das Nações. Um deles é Essai, a grande obra de Cantillon, a qual, após o advento de Smith, caiu em atroz esquecimento, sendo resgatada apenas um século depois por Jevons; e o outro, o primeiro livro a utilizar economia política em seu título, foi Principles of Political Economy (1767), uma obsoleta obra em dois volumes de Sir James Steuart (1712-80). (...)

(...)

Ainda que o livro de Steuart estivesse em descompasso com o emergente espírito liberal clássico da época, estava errado quem concluiu que a obra teria pouca ou nenhuma influência. O livro foi bem recebido, altamente respeitado, e apresentou boas vendagens. E cinco anos após sua publicação, em 1772, Steuart ganhou a batalha contra Adam Smith para o posto de consultor monetário da Companhia das Índias Orientais.

(...)

Apresentamos assim nossa própria versão do Das AdamSmithProblem: como pôde uma obra tão gravemente falha como A Riqueza das Nações rapidamente se tornar tão dominante a ponto de apagar todas as outras alternativas? Mas antes de considerarmos essa questão, temos de examinar os vários aspectos do pensamento smithiano em mais detalhes.

A vida de Smith

Adam Smith nasceu em 1723 na pequena cidade de Kirkcaldy, perto de Edimburgo. Seu pai, também Adam Smith (1679-1723), que morreu pouco antes de ele nascer, foi um eminente promotor de justiça militar da Escócia e depois o superintendente fiscal da alfândega em Kirkcaldy, que havia se casado com uma moça pertencente a uma rica família proprietária de terras. O jovem Smith foi, portanto, criado pela mãe. A cidade de Kirkcaldy era militantemente presbiteriana. Na escola em que estudou, a escola Burgh, ele encontrou vários jovens escoceses presbiterianos, sendo que um deles, John Drysdale, veio a ser por duas vezes o moderador da assembleia geral da Igreja da Escócia.

Smith, de fato, veio de uma família de funcionários da alfândega. Além de seu pai, seu primo Hercules Scott Smith serviu como coletor da alfândega de Kirkcaldy; seu guardião, outro que também se chamava Adam Smith, veio a ser coletor alfandegário em Kirkcaldy bem como inspetor alfandegário em outros portos escoceses. Finalmente, um outro primo também chamado Adam Smith mais tarde veio a trabalhar como coletor alfandegário em Alloa.

De 1737 a 1740, Adam Smith estudou na Universidade de Glasgow, onde ele ficou fascinado pelas ideias de Francis Hutcheson e absorveu os encantos do liberalismo clássico, do direito natural e da economia política. Em 1740, Smith obteve seu mestrado com louvor na Universidade de Glasgow. Sua mãe o havia batizado na fé episcopal, e ela ansiava por ver o filho se tornar um ministro episcopal. Smith foi mandado ao Balliol College, em Oxford, em uma bolsa de estudos destinada a promover futuros clérigos episcopais. Porém ele se sentia infeliz por causa do péssimo nível de instrução ofertada pela Oxford daqueles tempos, e retornou após seis anos, aos 23 anos de idade, sem ter se ordenado. Não obstante seu batismo e a pressão de sua mãe, Smith permaneceu um ardente presbiteriano e, ao retornar a Edimburgo em 1746, ele ficou desempregado por dois anos.

Finalmente, em 1748, Henry Home, mais conhecido como Lord Kames, juiz e líder do iluminismo escocês, além de ser primo de David Hume, decidiu promover uma série de palestras públicas em Edimburgo para educar os advogados. Junto com o amigo de infância de Smith, James Oswald de Dunnikier, Kames conseguiu fazer com que a Sociedade Filosófica de Edimburgo patrocinasse Smith durante vários anos de palestras sobre direito natural, literatura, liberdade de comércio e liberdade individual. Em 1750, Adam Smith obteve a cadeira de teoria da lógica em sua alma mater, a Universidade de Glasgow, e não teve quaisquer dificuldades em fazer a Confissão de Fé de Westminster perante o Presbitério de Glasgow. Finalmente, em 1752, Smith teve a satisfação de ascender à cadeira de filosofia moral que pertenceu ao seu querido professor Hutcheson, na qual ele ficaria por 12 anos.

As palestras de Smith em Edimburgo e Glasgow foram muito populares, e a principal ênfase foi no 'sistema de liberdade natural', no sistema de direito natural e no laissez-faire, o qual ele vinha até então promovendo com muito menos qualificação do que em sua mais cuidadosa A Riqueza das Nações. Ele também conseguiu converter muitos dos principais mercadores de Glasgow a esse excitante novo credo. Smith também se atirou com entusiasmo nas associações sociais e educacionais que estavam começando a ser formadas pelo moderado clérigo presbiteriano, pelos professores universitários, pelos literatos e pelos advogados, tanto em Glasgow quanto em Edimburgo. É provável que David Hume tenha assistido às palestras de Edimburgo em 1752, pois os dois se tornaram amigos leais logo depois.

Smith foi um membro fundador da Sociedade Literária de Glasgow no ano seguinte; a sociedade se engajava em discussões e debates de alto nível, e se reunia diligentemente todas as quintas-feiras de novembro a maio. Hume e Smith eram membros, e em uma das primeiras sessões Smith leu uma descrição de alguns dos recém impressos Discursos Políticos de Hume. Estranhamente, os dois amigos, claramente os membros mais brilhantes da Sociedade, eram extremamente acanhados, e nunca disseram uma palavra em qualquer uma das discussões.

Não obstante seu acanhamento, Smith era um ativo e inveterado sócio de clubes, tornando-se o principal membro da Sociedade Filosófica de Edimburgo e da Sociedade Seleta (também de Edimburgo), que prosperaram durante a década de 1750 e que se reuniam semanalmente, juntando a moderada alta elite do clero, membros universitários e advogados. Smith também era membro ativo do Clube de Economia Política de Glasgow, do Oyster Club (Edimburgo), do Simson's Club de Glasgow, e do Poker Club (Edimburgo), fundado por seu amigo Adam Ferguson, professor de filosofia moral da Universidade de Edimburgo, especificamente para promover o 'espírito guerreiro'.

Como se isso não fosse o suficiente, Adam Smith foi um dos principais contribuidores e editores da malograda Edinburgh Review (1755-56), dedicada amplamente à defesa de seus amigos Hume e Kames contra a linha dura evangélica do clérigo calvinista da Escócia. A Edinburgh Review foi fundada pelo jovem e brilhante advogado Alexander Wedderburn (1733-1805), que viria a ser juiz, depois membro do parlamento inglês e finalmente Juiz Supremo britânico (1793-1801). Wedderburn era latitudinário a ponto de defender a licença de bordeis. Outros luminares da Edinburgh Review eram membros da elite moderada: o político John Jardine (1715-60), cuja filha se casou com o filho de Lord Kames; o poderoso reverendo William Robertson, e o reverendo Hugh Blair (1718-1800), professor de retórica da Universidade de Edimburgo.

A intensidade do presbiterianismo de Adam Smith, ainda que ele não fosse fundamentalista, pode ser vista em sua relação com Hugh Blair. Blair, um pastor da igreja Greyfriars, em Edimburgo, estava em constante atrito com o clérigo calvinista ortodoxo, que repetidamente o denunciava aos presbitérios de Glasgow e Edimburgo. Em A Riqueza das Nações, Adam Smith prestou o seguinte encômio ao clérigo presbiteriano: 'Talvez seja difícil encontrar em qualquer lugar da Europa um grupo de homens mais erudito, decente, independente e respeitável do que a maior parte do clérigo presbiteriano da Holanda, de Genebra, da Suíça e da Escócia.' Seu velho amigo Blair, embora ele próprio um dos principais clérigos presbiterianos, comentou em uma carta a Smith: 'Você está, creio eu, sendo excessivamente benévolo para com o Presbitério'.

Após Smith publicar sua filosofia moral em sua obra A Teoria dos Sentimentos Morais (1759), sua crescente fama lhe valeu uma posição altamente lucrativa em 1764 como tutor do jovem Duque de Buccleuch. Por causa desses três anos de tutoragem, os quais ele passou com o jovem duque na França, Smith foi premiado com um salário anual vitalício de £300, duas vezes seu salário anual em Glasgow. Durante esses três agradáveis anos na França, ele foi apresentado a Turgot e aos fisiocratas. Tendo completado sua tarefa tutorial, Smith voltou à sua cidade natal Kirkcaldy, onde, tranqüilo com seu ordenado vitalício, ele trabalhou por dez anos para finalizar A Riqueza das Nações, a qual ele já havia começado durante sua estadia na França.

A fama de A Riqueza das Nações levou seu orgulhoso pupilo, o Duque de Buccleuch, a dar a Smith, em 1778, o altamente bem pago posto de comissário da alfândega escocesa em Edimburgo. Com um salário de £600 anuais por esse posto governamental, o qual ele manteve até o dia de sua morte em 1790, acrescido de sua bela pensão vitalícia, Adam Smith estava ganhando perto de £1000 por ano - uma 'receita principesca', como um de seus biógrafos descreveu. O próprio Smith escreveu nessa época que ele estava 'tão rico quanto eu poderia sonhar'. Ele lamentava apenas ter de comparecer ao seu posto de trabalho na alfândega, o que lhe roubava tempo de suas 'atividades literárias'.

(...)

A divisão do trabalho

É apropriado começar a discutir A Riqueza das Nações focando a divisão do trabalho, uma vez que o próprio Smith começa sua obra nesse ponto e dado que, para Smith, essa divisão tinha importância crucial e decisiva. Seu professor Hutcheson também havia analisado a importância da divisão do trabalho nas economias em desenvolvimento, assim como haviam feito o mesmo Hume, Turgot, Mandeville, James Harris e outros economistas. Mas para Smith, a divisão do trabalho assumiu uma importância excessiva e agigantada, relegando às sombras questões cruciais como acumulação de capital e o crescimento do conhecimento tecnológico.(...)

(...)

(...) Smith foi incapaz de aplicar sua análise da divisão do trabalho ao comércio internacional (...) Ademais, domesticamente, Smith deu excessiva importância à divisão do trabalho dentro de uma fábrica ou indústria, ao mesmo tempo em que negligenciou a bem mais significativa divisão do trabalho entre as indústrias.

(...)

Adam Smith, embora fosse ele próprio um plagiário de marca maior, como já foi dito, sofria também do complexo de Colombo, frequentemente acusando outras pessoas de estarem injustamente plagiando-o. Em 1755, ele inclusive chegou a reivindicar a invenção do conceito de laissez-faire, ou o sistema de liberdade natural, afirmando que fora ele quem havia lecionado esses princípios desde as palestras de Edimburgo, em 1749. Pode ser. Mas a alegação ignora que tais expressões já haviam sido ditas por seus próprios professores, bem como por Hugo Grócio e Pufendorf, para não mencionar Boisguilbert e os outros pensadores laissez-faire franceses do final do século XVII.

Em 1769, o contencioso Smith acusou de plágio o diretor William Robertson por ocasião da publicação do livro History of the Reign of Charles V, de autoria deste último. Não se sabe qual seria o tópico do roubo literário, e é difícil imaginar, considerando a distância entre a obra de Smith e o tema do livro de Robertson.

A mais famosa acusação de plágio lançada por Smith foi contra seu amigo Adam Ferguson sobre a questão da divisão do trabalho. O professor Hamowy mostrou que Smith não terminou a amizade com seu velho amigo, como anteriormente havia se pensado, por causa do uso que Ferguson fez do conceito de divisão do trabalho em seu Ensaio Sobre a História da Sociedade Civil, de 1767. Pela visão de todos os escritores que haviam empregado o conceito anteriormente, esse comportamento seria ridículo, mesmo para Adam Smith. O professor Hamowy supõe que o fim da amizade veio no início dos anos 1780, por causa de uma discussão proposta por Ferguson, em seu clube, sobre aquilo que viria a ser publicado mais tarde como parte de seu Principles of Moral and Political Science, de 1792. Nesse seu livro, Ferguson sumariza o exemplo da fábrica de alfinetes que constitui a passagem mais famosa de A Riqueza das Nações. Smith descreve uma pequena fábrica de alfinetes na qual dez trabalhadores, cada qual especializado em um diferente aspecto do trabalho, poderiam produzir mais de 48.000 alfinetes por dia, ao passo que se cada um desses dez fizesse todo o alfinete sozinho, eles poderiam não fazer sequer um alfinete por dia, e certamente não mais do que 20. Dessa forma, a divisão do trabalho multiplicou enormemente a produtividade de cada trabalhador. Em seu livro Principles, Ferguson escreveu: 'Um agrupamento consistente de pessoas, no qual cada uma delas executa apenas uma parte da fabricação de um alfinete, pode produzir muito mais em um determinado intervalo de tempo do que talvez o dobro do número de trabalhadores seria capaz caso cada um fosse produzir um alfinete inteiro ou executar todas as etapas da construção desse diminuto artigo'.

Quando Smith censurou Ferguson por este não reconhecer sua precedência no exemplo da fábrica de alfinetes, Ferguson retorquiu dizendo que ele nada havia pegado emprestado de Smith, e que na verdade ambos haviam retirado esse exemplo de uma fonte francesa 'a qual Smith havia pegado antes dele'. Há fortes evidências de que a 'fonte francesa' para ambos os escritores tenha sido o artigo sobre epingles (alfinetes) na Encyclopédie (1755), já que o artigo menciona 18 operações distintas necessárias para se fabricar um alfinete, o mesmo número repetido por Smith em A Riqueza das Nações - embora nas fábricas inglesas da época, 25 fosse o número mais comum de operações necessárias.

Assim, Adam Smith terminou uma antiga e duradoura amizade ao injustamente acusar Adam Ferguson de ter plagiado dele um exemplo que, na verdade, ambos haviam retirado sem reconhecimento da Encyclopédie francesa. O comentário feito pelo reverendo Carlyle de que Smith possuía 'um pouco de ciúmes em seu temperamento' parece ser uma enorme atenuação, e somos informados em seu registro obituário na Monthly Review de 1790 que 'Smith vivia constantemente em tamanha apreensão de ter suas ideias roubadas que, se ele visse algum de seus alunos anotando suas apresentações, ele iria instantaneamente interrompê-lo e dizer "Odeio escrevinhadores"'.

O exemplo dado por Smith de uma pequena fábrica francesa de alfinetes, ao invés de utilizar uma grande fábrica britânica, realça um fato curioso sobre seu celebrado A Riqueza das Nações: o renomado economista parecia não ter tido o menor conhecimento acerca da Revolução Industrial que acontecia ao seu redor. Embora ele fosse amigo do Dr. John Roebuck, o proprietário da siderurgia Carron, cuja inauguração em 1760 marcou o início da Revolução Industrial na Escócia, Smith não demonstrou qualquer indicação de que sabia de sua existência.

Não obstante ele fosse pelo menos um conhecido do grande inventor James Watt, Smith não demonstrou ter qualquer conhecimento de algumas das principais invenções de Watt. Ele não fez qualquer menção em seu famoso livro ao boom na construção de canais que havia começado no início da década de 1760, à existência da (...) indústria têxtil de algodão, à indústria de cerâmica ou aos novos métodos de fabricação de cerveja. (...)

Portanto, em contraste com aqueles historiadores que o louvam por sua apreensão empírica das questões econômicas e industriais contemporâneas, Adam Smith estava totalmente desatento em relação aos importantes eventos econômicos que o rodeavam. Grande parte de sua análise estava errada, e muitos dos fatos que ele incluiu em seu A Riqueza das Nações eram obsoletos e foram coletados de livros velhos mais de 30 anos.

Trabalho produtivo vs. improdutivo

Uma das mais dúbias contribuições dos fisiocratas para o pensamento econômico foi sua visão de que apenas a agricultura era produtiva, que apenas a agricultura contribuía para que houvesse excedentes - produit net - na economia. Smith, fortemente influenciado pelos fisiocratas, manteve o infeliz conceito de trabalho 'produtivo', mas o expandiu da agricultura para bens materiais em geral. Para Smith, portanto, o trabalho voltado para objetos materiais era 'produtivo'; mas o trabalho voltado para, digamos, serviços, ou produção intangível, era 'improdutivo'.

A parcialidade de Smith em favor de objetos materiais equivalia a uma propensão em favor de investimentos em bens de capital, uma vez que um estoque de bens de capital por definição tem de estar incorporado em objetos materiais. Bens de consumo, por outro lado, podem tanto ser serviços intangíveis ou bens quaisquer - sendo que, nesse caso, eles acabam sendo exauridos no processo de consumo. A apologia de Smith à produção material, portanto, era uma maneira indireta de defender investimentos na acumulação de bens de capital em contraposição ao próprio objetivo de se produzir bens de capital: aumentar o consumo.

Quando foi discutir exportações e importações, Smith percebeu bem que não fazia sentido apenas acumular objetos intermediários; o acúmulo só faria sentido se eles viessem a ser posteriormente consumidos, isto é, se eles fabricassem algo. Afinal, o único objetivo da produção é o consumo. Mas como o professor Roger Garrison demonstrou, a consciência presbiteriana de Adam Smith o levou a valorizar o trabalho per se, o trabalho como sua própria finalidade, e a rejeitar as preferências temporais que existem no livre mercado entre poupança e consumo.

Claramente Smith queria muito mais investimento voltado para a produção futura e menos consumo presente do que o mercado estaria disposto a escolher. Uma das contradições de sua posição é que acumular mais bens de capital em detrimento do consumo presente irá, no final, resultar em um maior padrão de vida apenas se se permitir que esses meios de produção possam ser consumidos fabricando bens. Afinal de que adianta ter meios de produção se esses não podem ser consumidos? Mas aparentemente Smith queria que houvesse um acúmulo cada vez maior de meios de produção que nunca poderiam ser consumidos.


[*] Murray N. Rothbard (1926-1995) foi um decano da Escola Austríaca e o fundador do moderno libertarianismo. Também foi o vice-presidente acadêmico do Ludwig von Mises Institute e do Center for Libertarian Studies.

Tradução de Leandro Augusto Gomes Roque

Disponível na íntegra em:
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=434
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Marina Silva rasga de vez a fantasia de progressista

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Na última sexta-feira a candidata do PV à Presidência da República rasgou de vez a fantasia de progressista que alguns acreditavam que ela pudesse vestir na campanha eleitoral.

Em Cuiabá, Marina Silva defendeu os 16 anos da atual política econômica, comemorou o superávit primário e deixou claro que seu governo daria autonomia ao Banco Central e que chamaria uma Assembléia Constituinte exclusiva para aprovar as "reformas que o país precisa".

"(...) defendemos o superávit primário, uma conquista dos últimos 16 anos" [*], disse a candidata "verde". Realmente para os banqueiros tratou-se de uma grande conquista que foi concedida por Fernando Henrique e mantida por Lula.

Dar autonomia ao Banco Central seria outra grande conquista para o capital financeiro. Porém vai na contramão do atual debate travado por economistas defensores do próprio capitalismo que têm defendido a regulação do sistema financeiro.

E chamar uma Constituinte em um momento de refluxo das lutas de massas só serviria para abater direitos da classe trabalhadora e aprovar as reformas que as classes dominantes brasileiras desejam como as da Previdência, Trabalhista, etc.

O programa de governo de Marina Silva é tão bicudo quanto o do Serra e o seu peleguismo, que se utiliza da sua História e influência junto a setores populares para servir as classes dominantes, é tão similar quanto o de Lula e o de Dilma.

Desta forma a sua candidatura demonstra que não tem nenhuma condição de expressar uma alternativa ao bloco hegemônico que busca polarizar a eleição presidencial.

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[*] Marina defende manutenção de política econômica dos últimos 16 anos (20/03/2010):
http://oglobo.globo.com/pais/mat/2010/03/19/marina-defende-manutencao-de-politica-economica-dos-ultimos-16-anos-916127106.asp
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quinta-feira, 18 de março de 2010

Imperialismo ameaça Irã com sanções "agressivas"

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" (...) vamos atrás de sanções agressivas."
Barack Obama, sobre o Irã


Não há nenhuma prova concreta de que o Irã esteja desenvolvendo armamento nuclear, mesmo assim, Barack Obama anunciou que o imperialismo americano, no exercício do poder de polícia internacional que se auto confiou, vai buscar sanções agressivas contra o país:
"É um problema difícil, mas é um problema que nós precisamos resolver porque, se o Irã tiver uma arma nuclear, então você teria uma corrida por armas nucleares no Oriente Médio e isso seria muito perigoso para a nossa segurança nacional". [1]

O império, que coloca o pé na porta de países soberanos ao seu bel prazer e que detém armamento nuclear, quer evitar de qualquer forma, até "agressivamente", que suas potenciais vítimas desenvolvam qualquer tecnologia que possa ser revertida para a sua defesa. O que nem é o caso do Irã já que ainda não se provou o contrário do que alega o país sobre o seu programa nuclear.

A elevação do tom contra o Irã está inserida em uma conjuntura de recrudescimento do intervencionismo dos Estados Unidos.
Sob a atual administração o império tem ampliado as suas bases militares pelo mundo, como na Colômbia (com o objetivo confessado de monitorar de perto os processos latinos) e no Leste Europeu; além da ampliação de tropas no Afeganistão. [2]

Nem o Prêmio Nobel da Paz, entregue em 2009 para alimentar a farsa do "Obama paz e amor", conseguiu se sustentar diante das evidências.
Na ocasião um constrangido Obama segurava o prêmio com uma mão enquanto com a outra tentava justificar o aprofundamento da política imperialista no Afeganistão. [3]

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[1] Obama diz que EUA buscarão sanções agressivas contra o Irã (18/03/2010):
http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2010/03/18/obama-diz-que-eua-buscarao-sancoes-agressivas-contra-ira-916097822.asp

[2] O pacifismo de Obama (13/11/2009):
http://blogdomonjn.blogspot.com/2009/11/o-pacifismo-de-obama.html

[3] A "guerra justa" de Obama (11/12/2009):
http://blogdomonjn.blogspot.com/2009/12/guerra-justa-de-obama.html
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segunda-feira, 15 de março de 2010

Marina Silva quer "liberalismo sustentável"

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Está ficando cada vez mais claro, até para os mais leigos, que a relação do atual sistema econômico com a natureza está levando o planeta à destruição e que se não houver uma mudança drástica a espécie humana será extinta.
E que sistema econômico é este afinal? Trata-se do capitalismo em sua fase neoliberal, leia-se: o velho liberalismo sendo restaurado!

Pois não é essa a avaliação da candidata "Verde" à Presidência da República, Marina Silva. Ela agora difunde a empulhação de que executará um "liberalismo sustentável". Um liberalismo domado, humano, "verde". É mole?

Para domar o liberalismo e deixá-lo sustentável é preciso atacar o "pesado" Estado brasileiro, cortar gastos, impor mais ajuste fiscal e permitir o crescimento econômico do capital. São as "novidades" defendidas pela equipe de economistas e empresários que estão elaborando o programa da candidatura Marina Silva. Neoliberais? Isso é a "satanização do debate", se esquiva a ex-ministra do Governo Lula.[*]

A fantasia de "progressista" que Marina Silva desejava utilizar se despedaçou muito antes de começar a "festa" eleitoral.

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[*] Marina constrói "liberalismo sustentável"
http://clipping.tse.gov.br/noticias/2010/Mar/14/marina-constroi-liberalismo-sustentavel

http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2010/03/14/marina-constroi-liberalismo-sustentavel-274310.asp
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"(...) teria sido melhor que a Internet nunca tivesse sido inventada (...)"

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A pérola acima foi dita pelo Senador americano do Partido Democrata, Jay Rockefeller, e pode ser conferida no vídeo abaixo:


http://www.youtube.com/watch?v=GVU8ybhjswc

Ele chegou a propor uma lei que daria ao Presidente o poder de declarar uma espécie de "estado de emergência na internet".

Para mais informações ler o artigo "Onda crescente de censura na Internet", de James Corbett, que encontra-se disponível em:
http://resistir.info/varios/censura_internet_p.html
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Governismo ataca movimento sindical independente

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A Fenadados[1], que é ligada a CUT, decidiu cassar a liberação sindical do Sindppd-RS[2] referente à empresa federal de informática Serpro-RS, deixando esse setor da categoria sem representação.

A medida é uma retaliação a atuação independente do sindicato que, em 16 de dezembro por exigência dos trabalhadores do Serpro-RS, realizou uma assembléia onde aprovou a desfiliação da Fenadados.
Os trabalhadores do Serpro se sentiam traidos pela atuação pró-governo da Federação que vinha aprovando acordos que contrariavam as decisões da base. O descontentamento atingiu o ápice após a última campanha salarial que contou com uma greve de 29 dias.

O caráter político da decisão da Fenadados fica mais claro quando se observa dois aspectos: primeiro que será retirada a liberação da principal dirigente do sindicato (Vera Guasso, que é do PSTU) e segundo que outros sindicatos da mesma categoria mantêm a representação mesmo não sendo filiados à Federação (como os de São Paulo e Santa Catarina).

O Sindppd-RS está tomando providências para tentar reverter a absurda decisão da Fenadados.

O episódio mostra mais uma vez que entre tucanos e petistas há apenas uma disputa pelo controle do aparelho do Estado.
Os projetos são os mesmos inclusive no que tange a atacar e criminalizar a luta dos trabalhadores. Se Serra demitiu sindicalistas em São Paulo a burocracia lulo-petista ataca o movimento independente dos trabalhadores.
Importante lembrar disso já que estamos em ano eleitoral onde PT e PSDB se apresentarão como se fossem antagônicos.

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[1] Fenadados: Federação Nacional dos Trabalhadores em Empresas de Processamento de Dados, Serviços em Informática e Similares.

[2] Sindppd-RS: Sindicato dos Trabalhadores em Processamento de Dados do Rio Grande do Sul.

Leia mais no site do Sindppd-RS:
Notícia - Abaixo-assinado contra a cassação da liberação sindical do Sindppd/RS (11/03/2010):
http://www.sindppd-rs.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1541&Itemid=4

SERPRO - Denúncia: Fenadados quer cortar liberação sindical do Serpro no Sindppd/RS (24/02/2010):
http://www.sindppd-rs.org.br/index.php?option=com_content&task=view&id=1529&Itemid=4
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quinta-feira, 11 de março de 2010

Lula: o modelo de entreguista!

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Na semana passada a Secretaria de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, esteve visitando a América do Sul e deixou a seguinte dica ao governo venezuelano:

"Nós (americanos) não participamos de nada que possa prejudicar qualquer venezuelano. Mas nós estamos observando que está se minando pouco a pouco as liberdades na Venezuela. Esperamos que a Venezuela possa retomar a liberdade, olhar mais para o Sul (das Américas) e para modelos como Brasil e Chile, países que têm êxito" [*]

A primeira parte da assertativa de Hillary é desmentida pela própria ação do Governo Obama, do qual ela faz parte, que no ano passado enviou tropas para a Colômbia com o objetivo de monitorar mais de perto os processos sulamericanos que atrapalham os interesses do imperialismo.

A segunda parte mostra mais uma vez que o papel desempenhado pelo Governo Lula na região serve aos interesses do imperialismo, contrariando as "análises" eufóricas do governismo e as alopradas da direita atabalhoada.

Ciente disso, o império distribui afagos ao governo brasileiro desde a administração Bush, passando pela entrega de prêmios ao mesmo, a denominação de "o cara" e agora passa a apontá-lo como "modelo" a ser seguido por outros governos da região.

Lula virou o modelo de entreguista perfeito do imperialismo!

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[*] Hillary sugere que Chávez se espelhe no Brasil (03/03/2010):
http://oglobo.globo.com/economia/mat/2010/03/03/hillary-sugere-que-chavez-se-espelhe-no-brasil-915980887.asp
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Esta é para os dirigentes arrogantes

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Há trabalhadores que ocupam cargos de comando e que acreditam serem muito mais do que realmente são no processo produtivo.

No trecho à seguir esses indivíduos são colocados no seu devido lugar não por um marxista ou autor progressista mas por um próprio liberal da Escola Austríaca.


"(...) a atividade dos dirigentes de uma empresa consiste simplesmente em executar lealmente as tarefas que lhes foram confiadas pelos seus patrões, os acionistas, e que para executar as ordens recebidas são forçados a se ajustarem à estrutura de preços do mercado, os quais são determinados, em última instância, por outros fatores e não pela atividade gerencial.
(...)
O papel de um diretor de empresa na condução da atividade econômica é muito mais modesto do que imaginam os aludidos teóricos. Sua função é apenas gerencial; auxilia os empresários e capitalistas, desencumbindo-se de tarefas subordinadas. O gerente não substitui jamais o empresário. Os especuladores, promotores, investidores e banqueiros, ao determinarem a estrutura das bolsas de valores e de mercadorias e o mercado financeiro, delimitam a órbita na qual as tarefas menores são confiadas aos gerentes. Ao se desincumbir dessas tarefas, o gerente tem que ajustar sua atuação à estrutura do mercado, a qual depende de fatores que vão muito além das funções gerenciais.
(...)
Quem confunde atividade empresarial com gerência ignora o verdadeiro problema econômico. Nas disputas trabalhistas, as partes em confronto não são a direção da empresa e a mão-de-obra; são o empresário (ou o capital) e os assalariados. O sistema capitalista não é um sistema gerencial; é um sistema empresarial."


- Ludwig von Mises. Ação Humana. Capítulo XXVI. p.981-982:
http://ordemlivre.org/download.php?file=mises-acaohumana.pdf
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quarta-feira, 10 de março de 2010

A crise na Irlanda, por Paul Krugman

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Enquanto alguns liberais seguem o seu silêncio sepulcral sobre a crise na Irlanda[1], o economista americano Paul Krugman, que de marxista não tem nada, analisou a atual crise financeira e fez uma analogia entre o seu país de origem e o país europeu outrora festejado nos círculos do livre mercado.

O artigo é interessante na medida em que refuta as falácias dos fundamentalistas do mercado que afirmam que a atual crise econômica tem "as impressões digitais do governo em todos os locais"[2], porém, cabe ressaltar, contém as limitações de alguém que acredita que as crises capitalistas possam ser evitadas com a simples regulação.


Segunda, 8 de março de 2010, 13h49

Um espelho irlandês

Paul Krugman, The New York Times

Todo mundo tem uma teoria sobre a crise financeira. Essas teorias vão do absurdo ao plausível - de argumentos de que os democratas liberais de alguma forma pressionaram os bancos a emprestar dinheiro a pobres que não mereciam (embora os republicanos controlassem o Congresso) à crença de que instrumentos financeiros exóticos fomentaram a confusão e a fraude. Mas o que sabemos realmente?

Bem, de certa forma, a simples escala da crise - a forma como afetou muito, embora não totalmente, o mundo - é, no mínimo, útil para a pesquisa. Podemos olhar para os países que evitaram o pior, como o Canadá, e perguntar em que eles acertaram - por exemplo, limitar a alavancagem financeira, proteger os consumidores e, sobretudo, evitar deixar-se dominar por uma ideologia que rejeita qualquer necessidade de regulação. Podemos também olhar para os países cujas instituições financeiras e políticas pareciam muito diferentes das dos Estados Unidos, mas que também foram abaladas, e tentar encontrar motivos comuns.

Então, vamos falar da Irlanda.

Como destaca um novo artigo dos economistas irlandeses Gregory Connor, Thomas Flavin e Brian O'Kelly, "quase todos os fatores aparentemente causadores da crise dos Estados Unidos não estão presentes no caso irlandês, e vice-versa. Mesmo assim, o formato da crise da Irlanda foi muito semelhante: uma enorme bolha imobiliária - os preços subiram mais em Dublin do que em Los Angeles ou Miami - seguida de uma grave quebradeira de bancos que somente foi contida por meio de um caro plano de socorro governamental".

A Irlanda não tinha nenhum dos vilões favoritos da direita americana: não houve Decreto de Reinvestimento Comunitário (Community Reinvestment Act, em inglês), nem Fannie Mãe ou Freddie Mac. Mais surpreendente, talvez, tenha sido a insignificância das finanças exóticas: o colapso da Irlanda não foi uma história de obrigações de dívida e derivativos de crédito "colateralizados" (com lastro em garantias): foi um antiquado e comum caso de excesso, no qual os bancos fizeram grandes empréstimos a clientes questionáveis e os contribuintes acabaram pagando a conta.

Então, o que temos em comum? Os autores do novo estudo sugerem quatro "fatores causadores profundos".

Em primeiro lugar, houve uma exuberância irracional: em ambos os países, compradores e financiadores convenceram-se de que os preços dos imóveis, embora já estivem muito elevados para os padrões históricos, continuariam a subir.

Segundo: houve um grande fluxo de dinheiro barato. No caso dos Estados Unidos, muito do dinheiro barato veio da China; no caso da Irlanda, veio principalmente do resto da zona do euro, onde a Alemanha se tornou um gigantesco exportador de capital.

Terceiro: protagonistas-chave da crise tinham um incentivo para assumir grandes riscos, porque era "cara" que sairiam ganhando, "coroa" que outros perderiam. Na Irlanda, essa jogatina moral era em grande parte de caráter pessoal: "os dirigentes dos bancos levianos saíram com suas enormes fortunas intactas". Também houve muito disso nos Estados Unidos: como Lucian Bebchuk, de Harvard, e outros ressaltaram, os altos executivos das instituições financeiras americanas falidas receberam bilhões em pagamentos "relacionados a desempenho" antes de suas companhias afundarem.

Mas a semelhança mais impressionante entre a Irlanda e os Estados Unidos foi a "imprudência regulatória": as pessoas encarregadas de manter os bancos seguros não fizeram seu trabalho. Na Irlanda, os reguladores evitaram essa tarefa, em parte, porque o país estava tentando atrair negócios estrangeiros e, em parte, por causa do favoritismo: banqueiros e incorporadoras de imóveis tinham laços estreitos com o partido dominante.

Aqui, também houve muito disso, mas a questão principal foi a ideologia. Na verdade, os autores do artigo irlandês interpretaram mal isso, enfatizando a forma como os políticos americanos celebravam o ideal de possuir um imóvel; sim, eles fizeram discursos nesse sentido, mas isso não teve muito efeito sobre os incentivos para as instituições que concediam empréstimos.

O que realmente teve importância foi o fundamentalismo do livre mercado. Foi isso que levou Ronald Reagan a declarar que a desregulação solucionaria os problemas das instituições de poupança - o resultado real foram prejuízos enormes, seguidos por um socorro financeiro gigantesco bancado pelo contribuinte - e Alan Greenspan a insistir que a proliferação de derivativos, na verdade, havia fortalecido o sistema financeiro. Foi em grande parte graças a essa ideologia que os reguladores ignoraram os riscos crescentes.

Então, o que podemos aprender a partir da forma como a Irlanda, com instituições tão diferentes, teve uma crise financeira semelhante à dos Estados Unidos? Principalmente, que temos de nos focar tanto nos reguladores quanto nas regulações. Sem dúvida, vamos limitar a alavancagem e o uso da securitização - que constituíram parte do que o Canadá fez de certo. Mas tais medidas não farão diferença a menos que sejam reforçadas pelas pessoas que entendem ser seu dever dizer não a banqueiros poderosos.

É por isso que precisamos de uma agência independente para proteger os consumidores de serviços financeiros - novamente, uma coisa certa que o Canadá fez -, em vez de deixar a tarefa para agências que têm outras prioridades. E, acima de tudo, precisamos de uma profunda mudança de atitudes, uma aceitação de que deixar os banqueiros fazerem o que querem é uma receita para o desastre. Se isso não acontecer, teremos fracassado em aprender com a história recente - e estaremos condenados a repeti-la.


- Paul Krugman é economista, professor da Universidade de Princeton e colunista do The New York Times. Ganhou o prêmio Nobel de economia de 2008. Artigo distribuído pelo New York Times News Service.

O original encontra-se em:
http://www.nytimes.com/2010/03/08/opinion/08krugman.html

Publicado em português por:
http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI4307891-EI12928,00-Um+espelho+irlandes.html
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[1] A crise na Irlanda e o silêncio neoliberal (09/02/2010):
http://blogdomonjn.blogspot.com/2010/02/crise-na-irlanda-e-o-silencio.html

[2] De Quem é a Culpa? (22/09/2008):
http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2008/09/de-quem-culpa.html
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terça-feira, 9 de março de 2010

As instituições do regime e a corrupção

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"O capital privado tende a se concentrar em poucas mãos, em parte devido à competência entre os capitalistas, e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho alentam a formação de unidades maiores de produção em detrimento das menores. O resultado destes desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado cujo enorme poder não pode ser controlado efetivamente nem sequer por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é assim porque os membros dos corpos legislativos são selecionados pelos partidos políticos, em grande medida financiados ou de alguma maneira influenciados por capitalistas privados que, por todos efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A conseqüência é que os representantes do povo não protegem suficientemente os interesses dos grupos não privilegiados da população. Por outra parte, nas condições atuais os capitalistas privados controlam, direta ou indiretamente, as principais fontes de informação (imprensa escrita, rádio, educação). É então extremamente difícil, e por certo impossível na maioria dos casos, que cada cidadão possa chegar às conclusões objetivas e fazer uso inteligente de seus direitos políticos."

- Albert Einstein, 1949.
http://www.marxists.org/portugues/einstein/1949/05/socialismo.htm
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segunda-feira, 8 de março de 2010

A origem do Dia das Mulheres

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"A opressão do homem pelo homem iniciou-se com a opressão da mulher pelo homem"
Marx

Não se pode pensar nas conquistas políticas e sociais de hoje sem levar em conta as verdadeiras batalhas travadas pelos setores sociais excluídos e discriminados contra as classes dominantes - que exitaram muito em reconhecer tais direitos.
Discriminação social, racial e sexual só foram parcialmente superadas com muita movimentação dos setores sociais excluídos sempre combatidos com muita força e empenho pelas classes privilegiadas. É nesse contexto que se insere a luta que deu origem ao Dia das Mulheres. [*]

Em 1857, 129 trabalhadoras da empresa têxtil Cotton, em Nova Iorque, teriam se mobilizado por melhores condições salariais (receberiam aproximadamente 1/3 do salário dos homens) e de trabalho (redução da jornada para 12 horas), e dessa forma teriam ocupado a fábrica e declarado greve, no que foram duramente reprimidas, tendo sido trancafiadas e incenaradas.

Há, porém, divergências entre os historiadores sobre a veridicidade desse fato. Alguns afirmam que ele existiu, outros que nenhum indício da ocorrência dele foi encontrado.
No entanto, não há dúvidas quanto a existência de luta por parte das mulheres nesse período. E elas se agudizaram entre o final do século XIX e início do século XX.

Em 1908, 15 mil mulheres tomaram as ruas de Nova Iorque exigindo direitos políticos e sociais. Na Inglaterra também houveram atos com as mesmas demandas.
No mesmo ano o Partido Socialista dos Estados Unidos declarou o último domingo de fevereiro como o “Dia Nacional das Mulheres” data que se manteve até 1913.

Em 1910, a socialista alemã Clara Zetkin, histórica militante do movimento feminista, propôs na II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, um "Dia Internacional das Mulheres", data que acabou ganhando força devido a dois fatos: o incêndio na Triangle Waist Company, em 1911, na cidade de Nova Iorque, que vitimou fatalmente 141 mulheres; e principalmente à ousada greve das mulheres russas de Petrogrado na revolução que derrubou o Czar Nicolau II, em 23 de fevereiro de 1917 (calendário Juliano) - 8 de março (calendário gregoriano) -, que ainda lhes assegurou o direito de voto.


A propositura de 1910 não fixou um dia específico deixando a cargo do movimento organizado de cada país escolher uma data. E assim procedeu até 1921 quando a Conferência das Mulheres Comunistas, reunida em Moscou, fixou o 8 de março como o Dia Internacional da Mulher. A partir de 1922 a data foi consagrada e passou-se a comemorar a participação das mulheres nas tranformações sociais.

No entanto, a Organização das Nações Unidas (ONU) só foi reconhecer o 8 de março em 1975, após um novo período de grandes mobilizações femininas entre os anos 60 e 70.

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[*] A "Contra-História do Liberalismo"
http://blogdomonjn.blogspot.com/2009/09/contra-historia-do-liberalismo.html

Dia da mulher tornou-se internacional após revolução, violência e mortes (08/03/09 - 07h24):
http://g1.globo.com/Sites/Especiais/Noticias/0,,MUL1031728-16107,00.html

Clara Zetkin (1857-1933) - 05/03/2010
http://www.esquerda.net/content/view/15531/121/

O Dia da Mulher nasceu das mulheres socialistas, Vito Giannotti (08/03/2004):
http://www.piratininga.org.br/memoria/mulheres-vito.html

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sexta-feira, 5 de março de 2010

A liberdade na mídia privada é a que o patrão permite

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Quem confirma o título desse post é Paulo Uebel, conhecidíssimo e festejado nos círculos liberais brasileiros e ferrenho defensor da mídia "livre" dos proprietários privados.

Abaixo segue o artigo na íntegra. Em negrito alguns pontos que comentarei na sequência:


Liberdade de escolha
Paulo Uebel ("O Dia", 02/03/2010)

Muitas pessoas confundem liberdade de expressão com garantia de divulgação. Ou seja, entendem que, para que exista, de fato, liberdade de expressão, suas ideias, preferências e credos devem ser propagados por todos os meios, inclusive os que são de propriedade privada. Se não forem largamente difundidos, na opinião dessas pessoas, haverá censura e, portanto, não estaremos respeitando a liberdade de expressão que deve vigorar em países democráticos.

Ocorre que esse entendimento não é viável nem desejável. Dois conceitos devem ser esclarecidos. Em primeiro lugar, a liberdade de expressão não garante que todas ideias, todas as preferências e todos os credos estejam presentes em todos os jornais, rádios, emissoras de televisão, livros e músicas.

Cada proprietário de veículo de comunicação, de editora ou de gravadora deve ter liberdade para escolher os conteúdos que estejam mais bem alinhados com os seus propósitos, desde que, evidentemente, sejam respeitadas as leis locais.

Em segundo lugar, ocorre censura quando o Estado, para impedir ou controlar a liberdade de expressão, criminaliza certas ações, impõe certas restrições ou inicia perseguições contra pessoas, associações ou empresas que estejam criticando o governo.

É evidente que não ocorre censura quando um editor não publica um artigo ou não faz uma matéria porque, na opinião dele, o conteúdo não está adequado a linha editorial do jornal. Se o entendimento de que tudo deve ser publicado e de que todos os pontos de vista devem ser incluídos prevalecesse, não estaríamos diante de um ambiente com liberdade de expressão, mas de um ambiente com obrigação de expressão, o que é completamente diferente.

http://www.imil.org.br/artigos/liberdade-de-escolha/
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Comentário:

O artigo de Paulo Uebel é interessante na medida em que confirma muito do que têm dito há tempos os críticos do modelo de mídia privada. Mais uma vez, tergiversações e relativizações à parte de setores mais vacilantes, é o outro lado quem confirma o que alguns do "lado de cá" chegaram a negar.

Segundo ele, quem define o que será publicado pelos veículos de comunicação é o dono do mesmo tendo em vista "os seus propósitos". Nada de novidade nisso! Porém, estamos lidando com ferramentas de interesse público por influenciar no modo de pensar e de agir de milhões de pessoas, que não podem, ou não deveriam, ficar à mercê dos "propósitos" e dos interesses particulares de meia dúzia de indivíduos.

Durante o golpe de Estado na Venezuela em 2002, por exemplo, a mídia privada, defendendo os seus "propósitos" manipulou imagens na tentativa de ganhar a opinião pública para o seu intento golpista.

Uebel troveja contra uma suposta "obrigação de expressão" que seria advinda da defesa da expressão de todos os pontos de vista. No entanto defende a "obrigação de expressão" que meia dúzia de particulares impõem a milhões de pessoas, criando uma visão de mundo que atende aos seus "propósitos" e não à qualidade da informação e compromisso com a verdade, que acabam ficando ainda mais comprometidos quando "não é viável nem desejável" que seja ouvido os setores sociais e posições divergentes.
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quarta-feira, 3 de março de 2010

Chile: a tragédia da exceção

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No último sábado o Chile foi assolado por um terremoto que até o momento já contabilizou 795 mortos. Foi, sem dúvida, uma grande tragédia natural.

As regiões mais atingidas, em especial a cidade de Concepción, estão um verdadeiro caos e sua população se vira como pode para garantir a sua sobrevivência.

Comovido com a agrura da população desesperada que sensibiliza o mundo inteiro, o Estado mínimo chileno não tardou em se agigantar e enviou, já no domingo, uma generosa ajuda aos necessitados: "policiais usaram bombas de gás lacrimogêneo para tentar dispersar as cerca de mil pessoas que, levadas pelo desespero, foram ao supermercado na busca de água e alimentos", são as palavras do Estadão na manhã seguinte à tragédia.[1]
O supermercado em questão é controlado pela americana Wal-Mart.

Ainda no domingo a presidenta Michelle Bachelet anunciou mais ajuda para às vítimas: "(...) Assinamos com o ministro do Interior e da Defesa o decreto de exceção nacional de catástrofe para as regiões de Maule e Bío Bío"[2]


A mandatária chilena acabava de criminalizar os necessitados e suspender garantias constitucionais:
"Esta decisão implica que as autoridades poderão restringir certos direitos constitucionais, como o de circulação ou transporte de mercadorias, para evitar incidentes ou maiores danos."[3]

O toque de recolher, que "permite ao presidente restringir a circulação de pessoas, o transporte de mercadorias e a liberdade de trabalho, de informação, de opinião e de reunião"[4], cobria a faixa horária das 21 às 6 horas e durante ele "160 pessoas foram detidas e uma foi morta a tiros". "Nós temos uma pessoa morta, mas não houve saques de prédios comerciais ou residenciais", comemorou o vice-ministro do Interior, Patricio Rosende. Ele sequer informou "onde estão os 160 detidos por violar o toque de recolher."[5]

Havia sido o primeiro toque de recolher desde a queda de Pinochet. Mas a presidenta, que foi perseguida política pelo ex-ditador chileno, não se deu por satisfeita e resolveu ampliar o mesmo:
"Chile amplia toque de recolher e soldados nas ruas." "O toque de recolher passou a vigorar por 18 horas, das 18h ao meio-dia (...) Outras três cidades (...) também passaram a ter toque de recolher."[6]

Concepción, a cidade mais atingida pela tragédia, foi "militarizada" e "lembra uma zona de guerra" afirma a AFP.[7]
De fato tanques de guerra e 14 mil soldados fortemente armados adentraram na cidade.

No Chile à tragédia natural se somou a tragédia da exceção. Um governo cuja principal dirigente foi perseguida pela ditadura militar agora impõe um duro regime de exceção contra pessoas simples que lutam para sobreviver em meio ao caos.
"A delinquência não é aceitável"[8], é o recado de Bachellet a essas pessoas, frase que somada às ações de seu governo diante da tragédia lembram tempos obscuros da História do Chile.

Olhando para o Chile também não há como não lembrar do Haiti e de Nova Orleans, onde a defesa da propriedade privada teve prioridade ante a defesa da vida dos atingidos pelas catástrofes.

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[1] Após tremor, polícia tenta reprimir saqueadores no Chile (28/02/2010):
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,apos-tremor-policia-tenta-reprimir-saqueadores-no-chile,517335,0.htm

[2,3] Chile impõe toque de recolher em áreas mais atingidas por terremoto (28/02/2010):
http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2010/02/28/chile-impoe-toque-de-recolher-em-areas-mais-atingidas-por-terremoto-915958970.asp

[4] Chile decreta toque de recolher nas regiões afetadas pelo sismo (28/02/2010):
http://g1.globo.com/Noticias/Mundo/0,,MUL1509499-5602,00-CHILE+DECRETA+TOQUE+DE+RECOLHER+NAS+REGIOES+AFETADAS+PELO+SISMO.html

[5] Ação contra saques no Chile deixa 1 morto e 160 presos (01/03/2010):
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,acao-contra-saques-no-chile-deixa-1-morto-e-160-presos,517727,0.htm

[6,8] Chile amplia toque de recolher e soldados nas ruas (02/03/2010):
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,chile-amplia-toque-de-recolher-e-soldados-nas-ruas,518455,0.htm

[7] Chile: militarizada por causa de saques, Concepción lembra uma zona de guerra (02/03/2010):
http://www.google.com/hostednews/afp/article/ALeqM5hhvsc4qIw05aiSlcEg0Ir7MXumvg
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segunda-feira, 1 de março de 2010

Um liberal salvo pelo Estado

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Benjamin Constant foi um liberal franco-suíço que viveu durante os séculos XVIII e XIX. Ainda hoje é celebrado nos círculos liberais chegando a ser aclamado por alguns como "o mais eloqüente entre todos os defensores da liberdade (...)"[1], incluindo-se a política, apesar dele ter defendido a exclusão das classes subalternas do processo político:
"Observem que o escopo necessário dos não-proprietários é chegar à propriedade: eles empregarão para este escopo todos os meios que lhes forem dados. Se à liberdade de ofício e de trabalho (...), que lhes é devida, acrescentarem-se os direitos políticos, que não lhes são devidos, estes direitos nas mãos da maioria servirão infalivelmente para invadir a propriedade (...)."

Embora claramente contraditória com a agitação da liberdade, a exclusão das classes subalternas do processo político é perfeitamente coerente com a História do Liberalismo, tendo-se alterado tal situação devido à luta das próprias classes excluídas contra os próprios ícones do liberalismo de sua época.[2]
A democracia censitária adentrou o século XX e encontrou apoiadores na Escola Austríaca, como Hayek, e ainda hoje há nos círculos liberais quem aprove a idéia.[3]

Na atual crise financeira alguns liberais têm condenado a intervenção do Estado para salvar o capitalismo. No entanto, esses mesmos liberais, festejam sem ressalvas um pensador que foi acudido pelo Estado.

Benjamin Constant era viciado em jogos de azar e devido a isso enfrentou constantes dificuldades financeiras devido as dívidas acumuladas com a jogatina. Em 1810, por exemplo, não podendo contar com a ajuda financeira de Madame de Staël, teve de vender a sua propriedade de Les Herbages para pagar dívidas.[4]

Vinte anos mais tarde Benjamin Constant receberia 200 mil francos do Rei Luís Filipe I para pagar suas dívidas oriundas dos jogos.
O comportamento do político e pensador era "um alvo fácil para as críticas" diz Jim Powell[5]. Porém não se encontra nos escritos dos liberais laissez-faire críticas a postura de Constant. Muito pelo contrário.

O próprio Jim Powell vai se regozijar com a seguinte citação de Constant:
"O comércio satisfaz suas necessidades, satisfaz seus desejos, sem a intervenção das autoridades. Essa intervenção é quase sempre – e eu não sei porque eu digo quase – essa intervenção é, na verdade, sempre um problema e um embaraço. Toda vez que um poder coletivo deseja interferir em especulações privadas, ele causa dano aos especuladores. Toda vez que o governo finge fazer o que nós deveríamos fazer sozinhos, ele o faz com menos competência e com mais gastos do que faríamos."

Rodrigo Constantino, o laissez-faire que afirma que "as impressões digitais do governo" estão "em todos os locais da cena do crime", ou seja, que é o "intervencionismo" do Estado o culpado pela atual crise financeira[6], também celebra o pensador liberal:
Constant entendia também que é a livre iniciativa que cria a riqueza. Ele lembrou que "quanto mais se deixam meios à disposição da indústria dos particulares, mais próspero o Estado". O imposto, por reduzir essa quantia disponível aos indivíduos livres, é "infalivelmente nocivo". Além disso, parece que Constant já compreendia bem os riscos que ficaram posteriormente conhecidos como "falhas de governo". Faltam os incentivos corretos para um uso adequado dos impostos, pela própria natureza do Estado. Constant afirma categoricamente que "o povo não é miserável apenas por pagar além dos seus meios, mas é miserável também pelo uso que fazem do que paga". Seus sacrifícios se voltam contra ele. Conclui Benjamin Constant: "O povo não paga para que a boa ordem seja mantida no interior, mas, ao contrário, para que os favoritos enriquecidos com seus despojos perturbem a ordem pública com vexações impunes." [7]

O contraste entre as citações acima e as ações de Benjamin Constant são gritantes. Mesmo assim ele é celebrado como um grande e coerente defensor do "laissez-faire" e autor "anti-intervencionismo", ignorando-se sem "embaraço" as "impressões digitais" do Estado que evitaram a sua falência.

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[1,5] Biografia: Benjamin Constant, por Jim Powell (22/08/2008):
http://www.ordemlivre.org/node/320

[2] A "Contra-História do Liberalismo"
http://blogdomonjn.blogspot.com/2009/09/contra-historia-do-liberalismo.html

[3] O Culto à Democracia, por Rodrigo Constantino (19/05/2009):
http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2009/05/o-culto-democracia.html

A democracia não é a solução; é o problema, por Hans-Hermann Hoppe (25/9/2009):
http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=398

[4] Benjamin Constant, por Rubem Queiroz Cobra (Doutor em Geologia e bacharel em Filosofia - 17/12/2005):
http://www.cobra.pages.nom.br/fcp-constant.html

[6] De Quem é a Culpa? por Rodrigo Constantino (22/09/2008):
http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2008/09/de-quem-culpa.html

[7] Um Mal Necessário, por Rodrigo Constantino (19/06/2006):
http://rodrigoconstantino.blogspot.com/2006/06/um-mal-necessrio.html

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