quarta-feira, 22 de outubro de 2014

RS: rejeitar todos os debochados!

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Na última segunda-feira (20/10) o candidato do PMDB ao governo do Estado do Rio Grande do Sul, José Ivo Sartori, concedeu uma entrevista ao Portal Terra, onde mencionou ter ido em uma reunião do CPERS (sindicato dos professores e servidores de escola) na qual rejeitou assinar qualquer compromisso com o piso dos professores e debochou do mesmo recomendando que os professores fossem buscá-lo no Tumelero (loja de materiais de construção).


https://www.youtube.com/watch?v=5szyxWuX5hg
http://noticias.terra.com.br/eleicoes/videos/sartori-reforca-apoio-a-aecio-e-critica-excesso-de-partidos,7654478.html


Diante da ampla e negativa repercussão, o candidato e seus apoiadores tentaram negar o sentido da fala e atribuir tudo a uma manipulação do concorrente Tarso Genro e do seu partido que teriam feito um recorte distorcido e tendencioso do vídeo. Evidente que tal desculpa não convence mesmo após ver o vídeo em sua íntegra.

A repudiável atitude de Sartori não surpreende uma vez que seu partido já governou o Estado em outras ocasiões e tratou os profissionais da educação com deboche e truculência.

O governismo, como era de se esperar, ficou assanhado com o episódio e aproveitou para ampliar a pressão pelo voto útil em Tarso Genro. No entanto, o seu governo passou quatro anos debochando dos educadores e tratando-os com truculência.

Tarso debochou da categoria quando aprovou um cronograma com parcelas que caloteava o piso depois de eleger-se com a promessa de pagá-lo.

Tarso debochou da categoria quando na mesma semana dizia não ter dinheiro para pagar o piso em um dia e no outro dizia que o Estado tinha dinheiro para os grandes latifundiários e empresários.

Tarso debochou da categoria quando disse que o projeto do Ensino Médio Politécnico (chamado de "Politreco" pelos estudantes) empurrado goela abaixo foi debatido com os educadores.

Tarso debochou das greves do magistério e foi truculento com os educadores tratando-os na base de bombas e prisões.

E Tarso continua debochando da categoria: faz isso quando exalta os 76% de "aumento" que não atingem o piso salarial dos professores, quando diz que melhorou a educação do Estado e quando vincula o pagamento do piso aos recursos do pré-sal - eximindo-se de responsabilidade e condicionando um suposto aumento de salário ao aumento da privatização do petróleo brasileiro, além de ocultar que tais recursos já estão indo parar nos bolsos dos rentistas.

Os profissionais da educação e a sociedade gaúcha não devem cair na armadilha do oportunismo eleitoral e devem rejeitar todos os debochados! Votar nulo no próximo dia 26 e fazer o piso dos debochados arder e tremer arrancando com luta a dignidade e os direitos negados e achincalhados pelo poderosos!


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quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Prezad@ amig@ governista:

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Aqui estamos em mais um processo eleitoral e após passar quatro anos me ignorando, achincalhando minhas ideias e táticas, censurando e defendendo repressão para minhas greves e protestos, eis que você aparece pedindo desesperadamente o meu voto para derrotar o seu concorrente. Para isso apela para o medo já que coragem de enfrentar os poderosos já não tens mais há muito tempo - aliás, muitos deles até se tornaram teus novos companheiros.

Você fala que deseja continuar com as mudanças. Mas a maior parte dos impostos que pagamos continuam indo parar religiosamente nos bolsos dos banqueiros e dos grandes empresários, garantidos com superávits primários e cortes de verbas na saúde e na educação. Até os recursos do pré-sal, que vendeste como panaceia para a nossa educação (o que nunca acreditei), já foram parar nos bolsos dos rentistas.

As privatizações nunca foram interrompidas. Desde o primeiro dos teus governos que bancos públicos, previdência, rodovias, aeroportos, portos, ferrovias e petróleo foram privatizados. Grandes hidrelétricas controladas por empresas privadas - estrangeiras inclusive - estão sendo construídas com fartos recursos públicos e passando por cima dos direitos indígenas, ambientais e trabalhistas. E, quando, de forma justa, índios e operários reclamam das condições degradantes que tais obras lhes impõem e exigem seus direitos são recebidos pela Polícia, pelo Exército e pela Força Nacional para “dialogar”.

Lembro que no ano passado quando a juventude e os trabalhadores foram às ruas teu governo federal atuou junto com os governos locais do partido que agora você apresenta como o “bicho papão” a ser derrotado de qualquer maneira, colocando à disposição dos mesmos o Exército e a Força Nacional para junto com as polícias locais reprimir o povo.

Quando te lembro de tudo isso você, não conseguindo negar, me fala que pelo menos teus governos representam um mal menor em comparação com o teu adversário. Não sou muito partidário da ideia do mal menor mas devo alertá-l@ que esse exercício pode encontrar o resultado inverso do pretendido. Procure vasculhar quem fechou mais rádios comunitárias, quem demarcou menos terras indígenas, quem privatizou mais a infraestrutura, quem promoveu a maior privatização no setor petrolífero, quem concedeu mais lucros aos bancos e às grandes empresas, quem está dando mais dinheiro do BNDES para as grandes corporações, quem aprovou mais leis repressivas contra os movimentos sociais, quem os reprimiu e os espionou mais e quem elevou em escala recorde a privatização das ações preferenciais do Banco do Brasil.

Mas e a política externa soberana e progressista? - você me pergunta. Ora que política externa soberana é essa que vai ocupar um país irmão e pobre como o Haiti a pedido do imperialismo? Que progressismo há nisso? O que teve de soberano na crise do Irã onde o Brasil apresentou como alternativa o que o próprio Obama havia recomendado? O que há de progressista em financiar, com dinheiro público, os negócios da burguesia brasileira nos países da América Latina e da África?

E o desenvolvimento nacional? Aqui não posso conter as risadas afinal que desenvolvimento é este onde a desnacionalização da economia e as exportações de matérias primas se aprofundam cada vez mais?

Ah, mas e a distribuição de renda? Por acaso pensa que sou ingênuo e desinformado? Pensa que não sei que desses dados estatísticos foram excluídos os burgueses constando apenas os assalariados?

Então você me fala dos programas que chama de sociais. Vamos analisá-los mais de perto.

O Bolsa Família, anteriormente rejeitado pelo seu próprio partido mas que agora você chama de “revolucionário”, tem respaldo teórico nos liberais Friedrich Hayek e Milton Friedman, como admitiram os próprios liberais do Instituto Mises Brasil. Ele é indicado pelo Banco Mundial e aqui no Brasil teve seus créditos atribuídos ao tucano Marconi Perillo pelo próprio ex-presidente Lula. Qual a função desse tipo de programa? Por um lado inserir como consumidores setores excluídos pelo próprio capital, por outro permitir que as reformas sociais (tímidas no caso do nosso país) sejam desmontadas mais facilmente. Ou seja, com uma mão distribui-se um programa assistencial enquanto que com a outra tascam-se recursos da saúde, educação e previdência, às vezes privatizando-as. Não é por acaso que os mesmos organismos internacionais que pregam austeridade fiscal e cortes nas reformas sociais indiquem e celebrem programas como o Bolsa Família, como orgulhosamente você gosta de apontar os mimos do Bando Mundial.

O Prouni, que aprofunda a privatização da educação superior, é um típico programa defendido por setores da direita política pois trata-se de bolsas nas universidades privadas que assim têm garantidos os seus lucros. Não é por acaso que tucanos como Fernando Schuler elogiem tal programa e já defendam um Prouni para o ensino básico. O FIES, endivida os estudantes para manter essa lógica privatista. E o Pronatec é uma espécie de Prouni do ensino técnico que transfere recursos públicos para o Sistema S. Assim, em vez de priorizar um sistema público de ensino que garanta acesso e qualidade a todos, utilizam-se recursos públicos para aprofundar o caráter mercantil da educação no país, tudo para garantir os lucros dos tubarões, mas de forma oportunista tinge-se tal programa de “social” e “progressista” aproveitando-se dos problemas históricos de acesso das nossas classes populares, cujo benefício em tal programa não passa de efeito colateral, afinal um governo que realmente está preocupado com a sorte das mesmas não corta verbas da educação e da saúde públicas para entregar aos especuladores.

Já o Minha Casa Minha Vida é parte integrante das medidas “anticrise” adotadas pelo vosso governo após a eclosão da crise de 2008. Tal programa, longe de observar a necessidade social de moradia no país integra e aprofunda a especulação imobiliária, fazendo com que os pobres sejam muitas vezes despejados e empurrados para a periferia da periferia quando suas precárias moradias localizam-se em áreas de interesse do capital imobiliário.

Como se percebe tais programas são indicados, tolerados e atendem aos interesses do próprio capital. Dificilmente seriam extintos pelo seu concorrente. Despidos da sua aparência e revelada a sua essência, esses programas, que você chama de reformas, na verdade evidenciam que vosso governo não realizou uma única reforma social em doze anos! Devo lembrar-te de que o debate histórico na esquerda sempre foi reforma ou revolução. E, assim como o seu concorrente, vosso governo não se localiza em nenhum desses campos.

É um direito de vocês administrarem o capitalismo e acreditar que é possível atenuar seus males, embora essa opção não seja apenas ideológica já que muitos companheiros se tornaram empresários, consultores de empresas, gestores de fundos de pensão, sócios dos negócios das grandes corporações e assim ganhem muito com o sistema. Mas também estou no meu direito de rejeitar esse caminho e seguir levantando bem alto as bandeiras do materialismo histórico e dialético, ou seja, do socialismo.

Os pais do socialismo científico em jornadas duríssimas rejeitaram a ideia do mal menor, o rebaixamento do programa, as alianças com setores burgueses e defenderam a organização independente dos trabalhadores. Não se abstiveram, não ficaram em cima do muro, tiveram um lado claro.

E é baseado nos ensinamentos deles que me posicionarei neste segundo turno. Vossa candidata, assim como seu concorrente, se comprometeu com uma série de ajustes em favor do capital tão logo se encerrem as eleições, o que resultará em mais cortes de recursos das áreas sociais, mais ataques aos diretos dos trabalhadores, demissões, aumento de preços e mais privatizações.

Para mim o inimigo principal continua sendo o capitalismo e a oposição ao mesmo não pode ser abstrata, deve ser real e isso passa por rejeitar aqueles que trabalham para a sua manutenção e perpetuação. Em um processo eleitoral passa por rejeitar as candidaturas que estão comprometidas com ajustes em favor do mesmo. E, se as duas candidaturas já estão comprometidas com o sistema, é inútil, do ponto de vista de quem defende outro modelo de sociedade, votar em qualquer uma delas. Logo, se o voto útil é inútil o único voto útil para quem rejeita as candidaturas do sistema é o voto nulo!

Peço que me respeite e que não fique inconformado vociferando impropérios contra a minha posição. E não ouse tentar me responsabilizar por uma eventual derrota da tua candidatura, afinal não era você que vivia zombando do meu peso irrelevante no processo eleitoral?

Sem mais, passe bem!



Atenciosamente,


Um amigo socialista!


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domingo, 12 de outubro de 2014

O PT conservador

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Diante da composição do Congresso Nacional advinda dos resultados eleitorais não faltam acadêmicos e governistas para resmungar contra o “avanço conservador” e há até quem tente responsabilizar as jornadas de junho por tal resultado, tentando censurar a sua existência.

Omitem que muitos empresários, latifundiários e religiosos se elegeram em aliança com o PT e até que muitos deles se elegeram na própria sigla do partido.

Como venho mencionando há tempos, os governos do PT, tendo em vista a mudança social de muitos de seus integrantes, representam mais do que simples colaboração de classes. Tendo se tornado empresários, consultores de grandes empresas, gestores de fundos de pensão, etc eles ganham com a especulação, com as privatizações e com os cortes de direitos dos trabalhadores.

Não é por acaso que os governos do PT se recusem a auditar a dívida pública, que privatizem a previdência pública e outros setores, que apóiem leis que precarizam as relações de trabalho e que despejem bilhões de recursos públicos para as grandes empresas - muitas das quais os fundos de pensão dirigidos pelos companheiros são sócios nos negócios. Também não é casual que, para garantir a implementação desse projeto, os governos petistas reprimam duramente a classe trabalhadora e os movimentos sociais que o rejeitam.

Os levantamentos preliminares do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP) mostram que, dos 70 deputados eleitos pelo PT, 8 deles possuem algum vínculo empresarial e 4 são evangélicos. Como comparativo, o PSDB elegeu 6 evangélicos; o PMDB, 5; o PPS e o PP, 3 e o DEM, 2. Na bancada empresarial o PT ganha do PPS, que fez 4 deputados; perde por pouco para o DEM, que fez 11; fica bem atrás do PSDB, que fez 20; do PP, que fez 22 e do PMDB, que fez 23. No entanto, vale lembrar que os dois últimos partidos fazem parte da base aliada petista no Congresso Nacional.

Veja no quadro abaixo, baseado no DIAP, as bancadas empresarial e evangélica do PT:

Parlamentar
UF
Profissão
Rubens Otoni
GO
Professor Universitário, Consultor Jurídico e Consultor de Empresas
Gabriel Guimarães
MG
Empresário e Advogado
Miguel Correa
MG
Professor, Comunicador e Empresário
Toninho Wandscheer
PR
Empresário - Imobiliário
Zeca Dirceu
PR
Empresário
Paulo Pimenta
RS
Empresário, Técnico Agrícola e Jornalista
Andres Sanchez
SP
Empresário
Vicente Candido
SP
Empresário, Advogado e Comerciante





Parlamentar
UF
Denominação
Weliton Prado
MG
Assembleia de Deus
Rejane Dias
PI
Batista
Toninho Wandscheer
PR
Assembleia de Deus
Benedita da Silva
RJ
Assembleia de Deus



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Referências:

Câmara dos Deputados: conheça os reeleitos e os novatos. DIAP, 06/10/2014.

Bancada empresarial: levantamento preliminar do DIAP identifica 190 deputados. DIAP, 07/10/2014.

Atualização da bancada evangélica: DIAP já identificou 82 deputados**. DIAP, 06/10/2014.



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domingo, 5 de outubro de 2014

Marx e Engels contra a pressão eleitoral

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Com muita frequência a esquerda socialista se depara com o assédio e a pressão eleitoral do reformismo, da socialdemocracia e demais gestores de “esquerda” do capital. Sempre que se encontram ameaçados pela concorrência da direita tradicional apelam para que a esquerda socialista esqueça as diferenças e forme uma unidade para derrotar a direita, que seria a tarefa principal. Criam um ambiente de terrorismo em torno do programa e da repressão terríveis que viriam com a vitória da direita, mencionam que não haveria nada melhor e que ao menos representam um “mal menor” em comparação com seus adversários. Uma vez eleitos governam com o programa da direita que deveria ser derrotada, muitas vezes aprofundando-o em uma escala superior a da própria, sem vacilar em empreender uma repressão superior a mesma quando a esquerda socialista, os trabalhadores e os movimentos sociais contestam e resistem às medidas do referido programa.

Quando o assédio e a pressão eleitoral não surtem efeito e são rejeitados pela esquerda socialista, esta logo é acusada de sectarismo e de facilitar o caminho para a vitória eleitoral da direita. Tal polêmica não é nova na história do movimento dos trabalhadores e já foi enfrentada pelos pais do socialismo científico.

Como é possível constatar no Manifesto Comunista, Marx e Engels defenderam, em 1848, na Alemanha, unidade com o partido democrático contra os defensores do feudalismo. Dado que os vacilos desse partido contribuíram para a derrota do movimento revolucionário, Marx e Engels fizeram um duro balanço em 1850, onde defenderam a independência política e de organização dos trabalhadores, denunciaram implacavelmente o partido democrático, rejeitaram aliança eleitoral com o mesmo e criticaram a ideia do “mal menor” apesar deste partido se encontrar na oposição.

As palavras contidas no trecho abaixo e extraídas da Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas, texto no qual os pais do socialismo científico fazem o referido balanço e formulam táticas eleitorais e políticas, são de uma atualidade impressionante:

“Por toda a parte, ao lado dos candidatos democráticos burgueses, sejam propostos candidatos operários, na medida do possível de entre os membros da Liga e para cuja eleição se devem accionar todos os meios possíveis. Mesmo onde não existe esperança de sucesso, devem os operários apresentar os seus próprios candidatos, para manterem a sua democracia, para manterem a sua autonomia, contarem as suas forças, trazerem a público a sua posição revolucionária e os pontos de vista do partido. Não devem, neste processo, deixar-se subornar pelas frases dos democratas, como por exemplo que assim se divide o partido democrático e se dá à reacção a possibilidade da vitória. Com todas essas frases, o que se visa é que o proletariado seja mistificado. Os progressos que o partido proletário tem de fazer, surgindo assim como força independente, são infinitamente mais importantes do que o prejuízo que poderia trazer a presença de alguns reaccionários na Representação. Surja a democracia, desde o princípio, decidida e terrorista contra a reacção, e a influência desta nas eleições será antecipadamente aniquilada.” [1]

Será que os nossos amigos reformistas, sociaisdemocratas e demais gestores de “esquerda” do capital teriam a ousadia de impingir a pecha de “sectários” aos pais do socialismo científico?

Essa trupe reclama quando questionada de suas medidas burguesas, do rebaixamento e abandono das demandas históricas dos trabalhadores e movimentos sociais e de suas alianças com setores de direita. Justificam reclamando da correlação de forças - que para eles é eternamente desfavorável - e enaltecem suas alianças como tática política inovadora e sofisticada que serviria para fazer “alguma coisa” pelo povo, embora esse “alguma coisa” não passe de programas assistenciais indicados e tolerados pelas próprias classes dominantes.

Mais uma vez não estamos diante de nenhuma novidade. Em 1879, Marx e Engels criticaram duramente a proposta de três dirigentes do Partido Social-Democrata alemão que, diante da repressão e perseguição desencadeadas contra os socialistas através de uma lei de exceção, defenderam o rebaixamento do programa do partido e alianças com setores da burguesia:

“Têm aqui vocês o programa dos três censores de Zurique. Em clareza, nada deixa a desejar. Pelo menos, para nós, que ainda conhecemos bem estas maneiras de falar todas desde 1848 para cá. São os representantes da pequena burguesia [Kleinburgertum] que se anunciam, cheios de medo de que o proletariado, compelido pela sua situação revolucionária, possa «ir demasiado longe». Em vez de oposição política decidida — mediação [Vermittlung] geral; em vez de luta contra o governo e a burguesia — a tentativa de os ganhar e de os persuadir; em vez de resistência obstinada contra os maus tratos de cima — submissão humilde e admissão de que se tinha merecido o castigo. Todos os conflitos historicamente necessários são interpretados deturpadamente como mal-entendidos e toda a discussão termina com o protesto: no principal, estamos afinal todos unidos. As pessoas que em 1848 apareceram como democratas burguesas, podem agora do mesmo modo chamar-se a si próprias sociais-democratas. Tal como, para aquelas, a república democrática, também, para estas, o derrube da ordem capitalista fica na lonjura inalcançável [e] não tem, portanto, absolutamente nenhuma significação para a prática política do presente; pode-se mediar, fazer compromissos, praticar a filantropia, quanto se quiser. É o mesmo para a luta de classes entre proletariado e burguesia. É reconhecida no papel, porque já não se pode negá-la; na prática, porém, é mascarada, apagada, amortecida. O Partido Social-Democrata não deve ser nenhum Partido operário, não deve atrair sobre si o ódio da burguesia ou, em geral, de quem quer que seja; deve, antes de tudo, fazer uma propaganda enérgica entre a burguesia; em vez de dar peso a objectivos [Ziele] que vão longe, que assustam a burguesia e que, contudo, são inalcançáveis na nossa geração, ele deve antes empregar toda a sua força e energia naquelas reformas remendonas pequeno-burguesas que conferem à velha ordem da sociedade novos apoios e que, por esse facto, poderiam talvez transformar a catástrofe final num processo gradual, parcelar e o mais possível pacífico de dissolução. São as mesmas pessoas que, sob a aparência da incansável ocupação, não só não fazem nada elas próprias, como também tentam impedir que, em geral, aconteça algo — a não ser conversa; as mesmas pessoas, cujo medo de qualquer acção, em 1848 e em 1849, entravou o movimento a cada passo e finalmente o levou à derrota; as mesmas pessoas que nunca vêem a reacção e, depois, ficam totalmente admiradas de se encontrarem finalmente num beco sem saída, onde nem resistência nem fuga são possíveis; as mesmas pessoas que querem confinar a história ao seu horizonte pequeno-burguês [Spiessburgerhorizont] e por cima das quais, de cada vez, a história transita para a ordem do dia.” [2]

A conjuntura era muito mais dura do que a que atualmente os reformistas, sociaisdemocratas e gestores de “esquerda” do capital praticam a sua política de traição e de conciliação de classes. Mesmo assim os pais do socialismo científico mantiveram firmes suas convicções:

“Se o novo órgão do Partido tomar uma atitude que corresponde às opiniões daqueles senhores, for burguês e não proletário, não nos resta senão, por muita pena que isso nos faça, declarar-nos abertamente contra e romper a solidariedade com que, até aqui, face ao estrangeiro, temos representado o Partido alemão. Esperemos, contudo, que não se chegue até ai. [...]” [idem]

Longe de sectária ou aventureira a crítica de Marx e Engels ajudou o Partido Social-Democrata a corrigir alguns equívocos e oportunismos e principalmente resistir de forma habilidosa à perseguição política, de onde saiu fortalecido como organização política, tendo aumentado o seu número de integrantes e apoiadores.


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[1] Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas. Março de 1850.

[2] Carta Circular a A. Bebel, W. Liebknecht, W. Bracke e Outros. 17-18 de Setembro de 1879.



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sábado, 6 de setembro de 2014

Racismo, futebol e o livre mercado do ódio

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14.09.01_Silvio_Raciosmo Futebol 

Por Silvio Luiz de Almeida.

Os gritos de “macaco” e “preto fedido” dirigidos ao goleiro Aranha, do Santos – um dos poucos goleiros negros nos times de ponta do futebol mundial – colocaram, mais uma vez, o racismo no esporte no centro do debate público. Vítima de ofensas racistas por parte da reincidente torcida do Grêmio, Aranha contou em entrevista concedida após o fim da partida que tentou alertar o árbitro, mas foi ignorado. Na súmula do jogo não foi feita menção ao episódio e o assistente, por sua vez, relatou que “nada houve de anormal”.

Assim que o caso ganhou repercussão nacional, as reações do público, da imprensa e das entidades esportivas seguiram o script usual: declarações de dirigentes, treinadores e jogadores condenando a atitude racista da torcida do time gaúcho; o árbitro emendando posteriormente a súmula para incluir o ato racista, com o intuito de se precaver de críticas e de eventual responsabilização jurídica; o linchamento moral de uma torcedora em particular que, para seu azar, foi flagrada pelas câmaras de TV enquanto gritava na direção do goleiro santista. A isso se seguiram reportagens mostrando o quanto a atitude da jovem torcedora gremista surpreendeu seus “amigos negros” (nestes casos, quase sempre aparecem amigos negros para relativizar o racismo), além, é claro, de especulações sobre como a justiça desportiva trataria “esse” caso, como se casos de racismo fossem ocorrências inusitadas.

Para se entender a dinâmica macabra com que estes eventos vêm se repetindo, é necessário entender que o racismo é um processo e não um ato ou conjunto de atos isolados.  Assim, os atos racistas são apenas o modo como o racismo, enquanto processo que reafirma a inferioridade de negros e negras, manifesta-se na vida social. Por isso, é possível identificar determinados atos de violência, ainda que isolados, como manifestações de um tipo específico de relação de dominação a que chamamos de racismo.

Mesmo ocorrendo cotidianamente, é curioso que atos de racismo sejam tratados como atos isolados. É com freqüência que a imprensa nacional e internacional noticia casos de jogadores de futebol negros que são agredidos por torcedores. E apesar do relato de diversos atletas de que nas partidas ofensas raciais são corriqueiras, as entidades organizadoras, as autoridades governamentais, a imprensa e até os próprios jogadores tratam os sucessivos episódios como “casos isolados”, que jamais “refletem a postura dos clubes e da maioria da torcida”. Todavia, a ideia de excepcionalidade das agressões racistas não resiste a uma simples olhadela no noticiário: o caso do goleiro santista é mais um dos inúmeros “atos isolados” de agressão racial no futebol ocorrido somente este ano.

Tratar atos racistas como isolados revela-nos um dos efeitos mais nefastos do racismo: a ocultação e a negação de seu caráter processual e sistêmico. Com isso, o racismo aparece enganadoramente como tendo origem no sujeito que pratica o ato racista e não como um elemento estruturante das relações sociais. Surge então a tendência a fulanizar o racismo, a atribuir culpa individual, a julgar o problema como inerente à natureza humana ou creditá-lo a um desequilíbrio momentâneo do sujeito racista, sem que se cuide da forma como as relações sociais são permeáveis ao racismo. Esse tipo de abordagem do racismo equivale a tratar apenas o sintoma sem pensar na doença. E o sujeito racista é um sintoma do racismo. Portanto, não é simplesmente o racista que dá origem ao racismo, mas é o racismo que cria o racista.

Com isso quero dizer que o racismo se reproduz porque encontra condições favoráveis para isso. Não é só a violência de quem chama negros e negras de macacos que configura a processualidade do racismo, mas, igualmente, a omissão de quem nada faz para interromper o andamento desse processo. O racismo está principalmente nos silêncios, nas ausências e nos “não-ditos”. Diante da ofensa racista, o rosto que se vira covardemente para o lado contrário, a cabeça que se abaixa na vergonha conveniente e o sorriso de cumplicidade formam o “vazio” por onde escorre o sangue da vítima que irá nutrir o monstro do racismo. É a hesitação diante do pedido de socorro e é o calar-se diante da ofensa que permite ao racismo se enraizar nas relações, normalizando a destruição do corpo e o tormento da alma.

Nesse sentido, pode-se dizer que o futebol profissional se alimenta do racismo e da violência. O estímulo à competitividade sem limites e a busca de lucros extraordinários são parte da realidade do esporte contemporâneo, romantizada pela falácia do “amor à camisa”, do fair play e pelas pífias declarações de “diga não ao racismo”, como se racismo fosse uma questão moral e não uma questão de poder. As inúmeras denúncias de corrupção nas principais entidades organizadoras, assim como a persistência do racismo, demonstram que se está diante de um problema que deita suas raízes mais profundas nas grandes disputas políticas e econômicas do nosso tempo.

Nas análises da relação entre o racismo e as práticas esportivas tem-se frequentemente desconsiderado as relações com a ordem econômica.  Há que se observar que a mercantilização do futebol empurrou a disputa esportiva para além dos campos. O torcedor-consumidor é mobilizado pelo clima de disputa e não pela beleza do futebol. A rivalidade entre torcidas que, em última instância, é a extensão da concorrência mercantil entre clubes e empresas patrocinadoras, faz com que acima da vitória de seu time, o torcedor busque seu maior regozijo na derrota e no lamento adversário, transformado em inimigo por narrativas que, repetidas à exaustão, criam rivalidades aparentemente irracionais e insuperáveis: corintianos x palmeirenses, brasileiros x argentinos, flamenguistas x vascaínos, atleticanos x cruzeirenses, colorados x gremistas etc. Muitas destas rivalidades, tão úteis para aumentar a audiência de jogos e “mesas redondas”, além, é claro, dos lucros, são ideologicamente sustentadas por antagonismos de classe, de raça e de origem social, surgidos fora dos campos de futebol. É desse modo que nacionalismos, regionalismos e racismos ajudam a demarcar a diferença entre torcidas, cujos integrantes pagarão ingressos caríssimos para adentrar as “arenas” cada vez mais exclusivas e elitizadas, com suas camisetas e acessórios e com seus hinos e cânticos, para eventualmente fazer de modo livre o que não seria visto com bons olhos na vida cotidiana, como, por exemplo, chamar de “macaco” um desconhecido que nunca lhe fez mal e que, provavelmente, nunca mais encontrará na vida.

Também é interessante notar que nos países do capitalismo central, sofisticados aparatos de vigilância e repressão conseguem limitar a externalização de impulsos mais extremos por parte da torcida; mas ao mesmo tempo em que parte da violência física entre torcidas está contida, o racismo se torna um problema cada dia mais presente.

O futebol deu ao racismo um tom “recreativo”, na feliz expressão do professor Adilson Moreira, ao se referir a um tipo de violência racial vista como natural e aceitável em momentos de descontração. Assim, o xingamento da torcida passa a fazer parte do jogo. O futebol cria, assim, um espaço próprio, uma espécie de livre mercado do ódio em que a ofensa racial se torna a expressão do torcedor apaixonado, que pagou o ingresso justamente para ter o “direito” de extravasar seus piores sentimentos. Já o jogador negro que se cale, pois está sendo pago para jogar (bem) e para suportar os insultos de ambas as torcidas (o que entender quando o árbitro ignorou a reclamação do goleiro Aranha?). E a fim de evitar que esse processo de catarse seja interrompido por quem desconhece a lógica desse consenso às avessas que impera no futebol, até o julgamento dos conflitos é tratado de modo distinto: cabe aos tribunais desportivos resolver conflitos conforme as regras do mundo encantado e “livre” do futebol. Por esse motivo é muito raro que atos de racismo ocorridos no campo, salvo os de enorme repercussão, sejam tratados pelas leis penais. E mesmo quando alcançados pelas leis penais, restringem-se ao tipo da injúria racial, que faz parecer que o racismo, mais uma vez, é tão somente uma questão moral. Tratar os casos de racismo no âmbito desportivo é uma forma sutil de dizer que no futebol o racismo é permitido, mas desde que com certos limites.

Porém, muitos daqueles que agora demonstram indignação com as atitudes de parte dos gremistas, em particular da infeliz torcedora enxovalhada até com ofensas machistas, estão com ela e com os demais torcedores racistas acumpliciados. São igualmente racistas porque sustentam-se, servem-se e garantem seu modo de vida com o sofrimento de negros e negras, dentro e fora dos gramados, seja por ação, seja por omissão.

São cúmplices e, portanto, racistas, a FIFA, as federações de futebol, os clubes, as comissões de arbitragem e as comissões técnicas que com sua leniência, incentivam a violência racista nos estádios e fora deles. Não custa lembrar que os dirigentes destas entidades são na sua maioria homens brancos, o que ajuda a explicar em parte a total insensibilidade para com o racismo no futebol.  

São cúmplices do racismo, dentro e fora dos campos,  as autoridades do Estado, com destaque especial para membros do Judiciário e do Ministério Público, que quando não são omissos, mostram-se, muitas vezes, condescendentes com atos racistas, ajudando a legitimar, legalizar e a propagar a violência racial travestida de “liberdade de expressão”.

São cúmplices do racismo as redes de comunicação, bem como seus jornalistas, cronistas esportivos e apresentadores que ajudam a reforçar a visão individualista e idealista do racismo como “ação isolada” e problema moral, fabricando falsas rivalidades geradoras de violência e concorrendo para a interdição do debate político tanto em relação à importância social do esporte, quanto em relação ao racismo.

São cúmplices do racismo os treinadores – quase todos brancos, o que reforça a imagem do negro como comandado e subalterno –, além dos jogadores de futebol, em especial, os grandes astros, negros e brancos, que poderiam e deveriam interromper as partidas e até mesmo abandonar o campo diante de casos de racismo. Isso teria um forte impacto, muito mais do que comer bananas lançadas no campo por torcedores racistas, ato que só reafirmou o caráter recreativo do racismo no futebol e propicia algum lucro e momentos de fama nas redes sociais aos mesmos racistas e oportunistas de plantão. Mas que jogadores terão a coragem necessária de dar esse passo e entrar para história depois de enfrentar os clubes, as entidades, parte da imprensa e, principalmente, os interesses políticos e econômicos que se formam em torno do racismo?

Nesse momento, seria interessante saber dos líderes dos movimentos Bom Senso Futebol Clube e Atletas pelo Brasil se há propostas para coibir o racismo. Persistindo o silêncio, já se poderá concluir que a lógica racista do futebol profissional interdita qualquer espécie de bom senso.


Extraído de:
http://blogdaboitempo.com.br/2014/09/01/racismo-futebol-e-o-livre-mercado-do-odio/


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domingo, 17 de agosto de 2014

Joel e Tiago, Presentes!

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http://www.omorroenosso.com.br/sindicaixa/wp-content/uploads/2014/08/fim.jpg


Esta semana nossas fileiras ficaram menores e menos qualificadas. Os lutadores sociais Joel Orestes Brasil Soares, conhecido como Joelzinho (na foto à esquerda) e Tiago Batista (na foto à direita) faleceram, respectivamente, na sexta-feira (15) e na quinta-feira (14).

Joelzinho era servidor da saúde, diretor do SINDSPREV-RS e da FENASPS, além de membro da Secretaria Executiva Estadual da CSP Conlutas.

Tiago Batista era professor estadual na escola Alcides Cunha e havia sido eleito recentemente diretor do 38° núcleo do CPERS sindicato. Ele foi vítima de um atropelamento no final de semana passado, no Rio de Janeiro, cidade a qual foi participar do Encontro Nacional da Educação.

O MonBlog presta suas mais sinceras condolências aos amigos e familiares de Joel e Tiago e seguirá os homenageando travando o bom combate que ambos travavam por uma sociedade mais justa e igualitária.


Joel e Tiago, Presentes!




Com informações do Sindicaixa:
http://www.sindicaixars.com.br/?p=949


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domingo, 10 de agosto de 2014

Como Israel ‘noticia’ os próprios crimes de guerra

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Patrick Cockburn – Sul21 - 31/jul/2014, 5h59min

Do Counterpunch

Os porta-vozes israelenses já têm muito trabalho tentando explicar como os israelenses assassinaram mais de 1.000 palestinos em Gaza, a maioria dos quais civis, em comparação com apenas 3 civis mortos em Israel por foguetes e fogo de morteiro do Hamás. Mas pela televisão e pelo rádio e pelos jornais, porta-vozes do governo israelense hoje, como Mark Regev, parecem menos enroladores e menos agressivos que predecessores, que eram muito mais visivelmente indiferentes ao número de palestinos mortos.

Há pelo menos uma boa razão para esse ‘aprimoramento’ das capacidades de Relações Públicas dos porta-vozes de Israel. A julgar pelo que se os veem dizer, já estão trabalhando conforme um estudo feito por profissionais, bem pesquisado e confidencial, sobre como influenciar a mídia e a opinião pública nos EUA e na Europa.

Redigido pelo especialista em pesquisas e estrategista político dos Republicanos, Dr. Frank Luntz, aquele estudo foi encomendado há cinco anos por um grupo chamado “The Israel Project” [Projeto Israel], que mantém escritórios nos EUA e em Israel, para ser usado “por todos que estão na linha de frente da guerra midiática a favor de Israel”.

Cada uma das 112 páginas do folheto é marcada com “proibido distribuir ou publicar” [orig.“not for distribution or publication”], e é fácil entender por quê. O relatório Luntz – oficialmente intitulado “Dicionário de Linguagem Global do Projeto Israel 2009” [orig. “The Israel project’s 2009 Global Language Dictionary[1]] vazou quase imediatamente para Newsweek Online, mas até hoje só muito raramente mereceu atenção, e sua verdadeira importância ainda mão foi devidamente considerada.

Deveria ser leitura obrigatória para todos, sobretudo para jornalistas interessados em conhecer a política de Israel, por causa da lista de “Faça/diga X” e “Nunca faça/diga Y” dirigida aos porta-vozes de Israel.

Aquelas duas listas são altamente iluminadoras para que se compreenda a distância imensa que separa o que funcionários e políticos israelenses pensam e creem, e o que eles dizem; o que eles dizem é modelado por pesquisa mantida ativa minuto a minuto, para detalhar o que os norte-americanos desejam ouvir. Com certeza, nenhum jornalista deveria arriscar-se a entrevistar qualquer porta-voz de Israel sem conhecer muito bem aquele manual e ter-se preparado para contra-perguntar sobre os muitos temas – e sempre com as mesmas palavras e frases – que se ouvem hoje da boca do Sr. Regev e seus colegas.

O panfleto é cheio de saborosos conselhos sobre como eles devem modelar suas respostas, para diferentes audiências. Por exemplo, o estudo diz que

“os norte-americanos aceitam que ‘Israel tem direito a ter fronteiras defensáveis’. Mas Israel não tem vantagem alguma em definir com precisão que fronteiras são essas. Evitem falar em fronteiras em termos de pré- ou pós-1967, porque isso só faz relembrar aos norte-americanos o passado militar de Israel. Essa expressão prejudica os israelenses, sobretudo no campo da esquerda. Por exemplo, o apoio da direita israelense a fronteiras defensáveis cai de 89% para menos de 60% sempre que vocês falam em termos de 1967.”

E quanto ao direito de retorno dos refugiados palestinos que foram expulsos ou fugiram em 1948 e nos anos seguintes, e que nunca mais puderam retornar às próprias casas e terras? Aqui, o Dr. Luntz é muito sutil nos conselhos que dá aos porta-vozes israelenses; diz que

“o direito de retorno é questão difícil para que os israelenses falem dela com eficácia, porque praticamente toda a linguagem israelense soa muito semelhante à fala de ‘separados, mas iguais’ dos racistas segregacionistas dos anos 1950s e dos defensores do Apartheid nos anos 1980s. De fato, os norte-americanos não gostam, não acreditam nisso e não aceitam o conceito de ‘separados, mas iguais’.”

Assim sendo, como devem os porta-vozes enfrentar questões que até o manual considera ‘difíceis’? Recomendam que a coisa seja chamada de “demanda” – porque os norte-americanos detestam gente que faz demandas. O manual ensina:

“Digam portanto: ‘os palestinos não estão satisfeitos com o estado que têm. Agora, estão demandando mais territórios dentro de Israel.”

Outras sugestões para resposta israelense efetiva incluem dizer que o direito de retorno deve ser item de um acordo final “algum dia, no futuro”.

O Dr Luntz observa que os norte-americanos em geral temem qualquer imigração em massa para dentro dos EUA, “portanto falem sempre de ‘imigração palestina em massa para dentro de Israel’ –, e os norte-americanos sempre rejeitarão a ideia. Se mais nada funcionar, digam que a volta dos palestinos faria ‘descarrilhar o esforço para alcançar a paz’”.

O relatório Luntz foi redigido logo depois da Operação Chumbo Derretido em dezembro de 2008 e Janeiro de 2009, quando morreram 1.387 palestinos e nove israelenses.

Um capítulo inteiro é dedicado a “isolar o Hamás, apoiado pelo Irã, como obstáculo à paz.” Infelizmente, agora, quando está em curso a Operação Fio Protetor, iniciada dia 6 de junho de 2014, e nova matança de palestinos, há um problema grave para a propaganda de Israel, porque o Hamás está rompido com o Irã por causa da guerra na Síria e está completamente sem contato com Teerã. Só reataram relações amistosas há poucos dias – e por causa da invasão israelense.

Muitos dos conselhos do Dr Luntz tratam do tom e do modo de expor o pensamento de Israe0l. Diz que é absolutamente crucial mostrar vastíssima simpatia pelos palestinos:

“Os persuasíveis [sic] não dão importância ao que você saiba, até que se convençam de que você lamenta muito, do fundo do coração, toda a situação. Mostre empatia PELOS DOIS LADOS!”

Isso provavelmente explica por que tantos porta-vozes israelenses vão praticamente às lágrimas quando falam do sofrimento dos palestinos bombardeados por bombas e mísseis israelenses.

Em frase escrita em negrito, sublinhada e toda em maiúsculas, o Dr Luntz diz que os porta-vozes ou líderes políticos israelenses NÃO DEVEM, NÃO PODEM, nunca, de modo algum, justificar “o massacre deliberado de mulheres e crianças inocentes”, e devem reagir agressivamente contra qualquer voz que acuse Israel por tal crime. Vários porta-vozes israelenses esforçaram-se muito para seguir esse conselho na 5ª-feira passada, quando 16 palestinos foram mortos num abrigo da ONU em Gaza.

Há uma lista de palavras e frases a serem usadas e uma lista de palavras e frases a serem evitadas. Há de tudo: “O melhor meio, o único meio, para alcançar paz duradoura, é alcançar respeito mútuo.” O mais importante é que o desejo de paz de Israel com os palestinos tem de ser sempre enfatizado, porque é o que os norte-americanos mais querem que aconteça. Mas se se observarem pressões para que Israel realmente faça alguma paz, a pressão deve ser imediatamente reduzida; nesse caso, os israelenses devem dizer:

“um passo de cada vez, um dia depois do outro” – expressões que serão facilmente aceitas como “abordagem de bom senso, para a equação ‘deem-nos A terra, que lhes damos a paz’.”

O Dr Luntz cita como exemplo de “pegada israelense muito eficaz” a seguinte frase: “Quero muito particularmente falar às mães palestinas que perderam seus filhos. Nenhum pai ou mãe deveria ter de enterrar suas crianças.”

O estudo admite que o governo israelense não quer, de fato, qualquer solução de dois estados, mas diz que isso não pode ser declarado publicamente, porque 78% dos norte-americanos são favoráveis àquela solução. Devem-se enfatizar sempre as muitas esperanças de que os palestinos progridam economicamente.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é citado com elogios, por ter dito que “já é hora de alguém perguntar ao Hamás: o que, afinal, estão fazendo para melhorar a vida de seu povo?!” A hipocrisia, aí, é inacreditável: é Israel, com os sete anos de bloqueio econômico que impõe a Gaza, quem reduziu Gaza ao estado de pobreza e miséria em que vive hoje.

Em todos os casos e ocasiões, o modo como porta-vozes israelenses apresentam os fatos é planejado para dar a norte-americanos e a europeus a impressão de que Israel desejaria muito a paz com os palestinos e estaria disposta a ceder para chegar à paz. Todas as evidências, e também o Manual do Dr. Luntz, sugerem que tudo aí, são mentiras. Embora não tenha sido requisitado ou produzido com essa finalidade, poucos estudos mais reveladores foram jamais escritos sobre a Israel contemporânea, em tempos de guerra e paz. *****


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Patrick Oliver Cockburn é um jornalista irlandês, correspondente no Oriente Médio desde 1979.


Extraído de:


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