sábado, 15 de fevereiro de 2014

O Jogo dos “7 erros” do advogado do chefe da milícia

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Coletivo JUNTOS! - 13/02/2014 • 17h36min




1 – Como é do conhecimento de todos, o advogado que caluniou Marcelo Freixo – tentando ligá-lo aos rapazes que jogaram o rojão que matou o cinegrafista da Band – foi advogado de Natalino Guimarães, ex-deputado estadual no Rio de Janeiro e miliciano cuja prisão foi fruto da CPI das Milícias, comanda por Freixo. Hoje (13/02), o advogado novamente partiu para o ataque afirmando que partidos políticos pagam 150 reais para pessoas participarem de manifestações. Uma clara insinuação para comprometer partidos como o PSOL e, por consequência, o próprio Marcelo Freixo. A atuação desse advogado até o momento é muito suspeita.

2 – No sábado se apresentou na polícia Fábio Raposo, suspeito de ter repassado o rojão para a pessoa que o explodiu durante o protesto. Em depoimento ele afirmou que quem acendeu o explosivo foi Caio Souza. Ou seja, no linguajar popular, caguetou para aliviar a sua barra.

3 – Estranhamente o Jonas Tadeu, advogado do Fábio, assumiu também a defesa do Caio. Isso é algo completamente absurdo. É absurdo porque não existe na história do direito um sujeito dedurado contratar o mesmo defensor do sujeito que o dedurou. E isso ocorre não por razões pessoais, mas sim porque as teses de defesa são conflitantes. Um acusado, para reduzir a sua pena ou até para ser absolvido, vai tentar comprovar que a responsabilidade pelo ato criminoso é do outro. Por isso é absurdo que ambos sejam defendidos pelo mesmo profissional, pois, sendo a tarefa do advogado a de usar todos os meios para defender os interesses de seus clientes, isso se torna impossível se o interesse de um conflita com o interesse do outro.

4 – Hoje, durante entrevista para a Globo News, o Jonas Tadeu diz que o Caio estava planejando ir para o exterior e que ele o demoveu dessa ideia. Isso é outro ABSURDO. Um dos motivos que embasam as prisões preventivas é justamente o receio de que o acusado fuja. A função de um advogado que esteja realmente interessado em defender o seu cliente é tentar soltá-lo o mais rápido possível. Ao afirmar que o Caio pretendia fugir ele liquida com a possibilidade de um eventual habeas corpus ser concedido.

5 – O cúmulo do absurdos foi a forma como o Caio foi preso, o que mais uma vez joga suspeitas sobre o verdadeiro interesse do advogado. Os dois delegados afirmaram na coletiva de imprensa, e o próprio Jonas confirmou na Globo News, que foi ele quem avisou à polícia o local em que o Caio estava foragido. Palavras do delegado Fernando Veloso, “a intervenção do advogado, fazendo contato direto com o Caio, com o apoio da namorada dele, possibilitou que a equipe que era conduzida pelo Dr. Maurício chegasse ao local do paradeiro dele antes das equipes de busca”. O Dr. Maurício é o outro delegado que investiga o caso.

Perceberam o escândalo? É comum que um advogado oriente seu cliente, o qual possui mandado de prisão expedido contra si, a se entregar. Mas isso JAMAIS se faz dizendo para a polícia o endereço no qual ele está escondido. Isso se faz indo com ele, de tarde, até uma delegacia. Vocês devem ter visto o vídeo da prisão do Caio. Foi humilhante. Ocorreu de madrugada, enquanto ele dormia em uma pousada. Além do advogado, estava presente no momento da prisão, a polícia e uma repórter da Globo. Vejam o que disse o delegado Maurício Luciano na coletiva hoje, “o Caio, quando nós encontramos ele, estava extremamente acuado, assustado, com muita fome, disse que estava a dois dias sem se alimentar, também não dormiu, estava em um cômodo muito pequeno, em uma pensão no município de Feira de Santana (…)”. Não precisa ter conhecimento jurídico para saber que se a função do advogado é zelar pelo interesse do seu cliente, ele deveria primeiro ter ido ao encontro do Caio antes da polícia. Devria ter levado alimentos para ele, depois ter conversado e o orientado o que dizer e o que não dizer e enfim acompanhá-lo até a delegacia. Jamais ter ajudado a investigação e muito menos não fazer nada para impedir que a repórter tentasse entrevistá-lo no momento da prisão. Sequer houve pedido para que ele não fosse algemado. Todo advogado criminalista sério requer a polícia que não algeme o seu constituinte. Com um “defensor” desses ninguém precisa de inimigos!

6 – A afirmação de que o Caio recebia 150 reais para participar de manifestações é um desastre para a defesa. Pode ser bom para a luta política contra o Freixo, contra as manifestações, etc. Mas para o acusado, e é dever do defensor defender o acusado, essa informação é catastrófica. Gera uma qualificadora caso ele venha a ser condenado. Homicídio já dá uma pena alta. Homicídio por motivo fútil (receber 150 reais) dá uma pena ainda maior.

7 – O advogado mora no Rio de Janeiro. O Caio estava foragido em Feira de Santana, na Bahia. O Caio é extremamente pobre. Questionado pela apresentadora da Globo News, o Jonas disse que estava advogando de graça e que estava bancando do seu bolso a passagem de ida e volta para a Bahia. Muitos advogados já defenderam pessoas sem lhes cobrar nada. Mas mesmo aqueles que são simpáticos a causas políticas e que têm relação com os militantes dos movimentos sociais, no mínimo iriam pedir para serem ressarcidos por seus gastos com passagens aéreas, por exemplo. Por que ele, que já deixou claro que não apoia as manifestações de rua, faria todo esse sacrifício para atuar no caso? Ele justificou que o Fábio Raposo é amigo dos estagiários do seu escritório. Mas e o Caio? De onde ele tem relação para que se sinta obrigado a atuar de forma tão abnegada?


Extraído de:


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As revelações de um editorial

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"A verdade é dura: a Rede Globo apoiou a ditadura!"
(Refrão cantado seguidamente pelos manifestantes nas ruas)


As lutas populares têm se intensificado no país, de forma cada vez mais frequente e, por vezes, espontânea. 2014 está apenas no seu segundo mês e diversas greves se espalham pelo país (com destaque para a dos rodoviários de Porto Alegre), além de protestos contra o aumento das passagens de ônibus e questionando a Copa do Mundo assim como de comunidades que se rebelam por falta de água, luz e assassinato de seus jovens pela polícia. 

Nesse contexto, a trágica e triste morte do cinegrafista da Bandeirantes, Santiago Andrade, tem sido explorada de forma sórdida pelas classes dominantes, e pelos políticos a seu serviço, com a clara intenção de acabar com os protestos populares - fruto das consequências dos seus próprios desmandos - e perseguir a oposição política mais organizada. O Editorial de O Globo, de 12 de fevereiro, não deixa a mínima dúvida quanto a isso. 

Com o título “Os inimigos da democracia” [1] a publicação da empresa midiática que apoiou e justificou a ditadura militar com editoriais similares [2], e que teve de fazer mea culpa por essa posição recentemente [3], mostra que não se satisfaz apenas com a apuração da morte do cinegrafista mas que busca uma verdadeira caçada política e ideológica, cujo filtro não poupa nem as universidades: 

“A morte de Santiago Andrade tem de servir, ao menos, para uma intensa e profunda reflexão sobre distorções escondidas nos subterrâneos de militâncias expostas em perfis falsos nas redes sociais que difamam pela internet, em sindicatos de jornalistas aparelhados e desconectados da profissão, em universidades transformadas em centro de doutrinação política, em funções desvirtuadas em assessorias de partidos políticos — para citar os pontos de intoxicação ideológica autoritária mais visíveis.”

O grupo que já praticou manipulação de imagens para incriminar manifestantes acusa-os agora do seu delito [4]. E, em que pese o fato de muitos juristas apontar que a legislação brasileira já dispõe de leis que dão conta de casos como o da morte do cinegrafista [5], o Globo não vacila em abraçar a autoritária proposta de Beltrame: 

“O secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, propõe alterações na legislação para melhor tipificar e, portanto, punir, manifestantes delinquentes. Boa sugestão. (...)”

O Globo vê a morte de Santiago como uma “oportunidade” para perseguir e caçar os setores da esquerda que participam e apóiam os protestos e se mostra incomodada com aqueles que questionam a forma de funcionamento de veículos de mídia como o seu: 

“(...) Não se pode perder esta oportunidade, até mesmo em homenagem a ele. Entender e expor o que se passa é a única maneira de se começar a agir para prevenir outras tragédias. O crime jogou luz sobre a inaceitável atuação do gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) em defesa de vândalos. Ele e partido precisam explicar a função dupla de Thiago de Souza Melo, assessor do deputado, pago, portanto, pelo contribuinte, e, ao mesmo tempo, advogado de black-bloc e similares. Não pode, também, deixar de responsabilizar a campanha, sistemática, via internet, contra os veículos da imprensa profissional, chamados pejorativamente de "mídia corporativa", quando é a publicidade privada que garante a independência de fato deles, ao contrário de sites, blogs e publicações bancados por verba pública.

(...) 

Também são de praxe as declarações de pesar feitas por políticos, inclusive Freixo, já encontrado no passado em atos típicos de quem deseja mais "acirrar contradições" do que trabalhar pelo apaziguamento em conflitos sociais e políticos.”

Quanta coerência tem para falar de recebimento de verbas públicas o grupo que mais as recebe! [6] Mas as contradições não cessam aí. A luz dos dados divulgados pelos próprios representantes dos jornalistas, que mostram que a maior parte das agressões sofridas pelos mesmos partiram da polícia [7], O Globo não tem dúvida de quem são os seus algozes: 

“Criou-se um ambiente tal de hostilidade que repórteres viraram alvo de marginais travestidos de manifestantes, até chegarmos ao assassinato de Santiago. É óbvio que a punição tem de ser exemplar, para sinalizar os limites que têm de existir num país democrático em qualquer manifestação popular.”

E, por fim, termina defendendo a caçada daqueles que não se dobram ao status quo o qual O Globo faz parte e se beneficia: 

“Agora, é preciso ir muito além do declaratório. Tem-se de repudiar estes grupos e agir para que eles, garantidos todos os direitos estabelecidos em lei, sejam de fato contidos e punidos. Partidos, organizações sociais, sindicatos têm de, às claras, mostrar de que lado estão: da violência justificada pelos fins ou a favor do estado de direito democrático, no seu sentido mais amplo.”

A crise institucional e de credibilidade que assola o país também atinge a grande mídia até porque a internet fura o seu bloqueio, desmentindo suas matérias e mostrando o que ela esconde. 

Porta voz dos interesses das classes dominantes, da qual ela própria é parte, a grande mídia se sente incomodada com uma conjuntura em que o povo cria cada vez mais consciência e que luta por seus direitos e contra os descalabros do andar de cima. 

Sendo assim O Globo vê na morte de Santiago uma “oportunidade” para conter a elevação desse nível de consciência e acabar com as lutas populares através do recrudescimento autoritário do regime, o que não seria novidade para a empresa dos Marinho. 

Parece que os manifestantes terão que atualizar um certo refrão cantado nas ruas: “A verdade é dura: a Rede Globo quer outra ditadura!

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[1] Os inimigos da democracia. (12/02/2014):

[2] Ressurge a democracia. Editorial de O Globo de 2 de abril de 1964. Publicado no Conversa Afiada de 31/03/2011.

[3] Apoio editorial ao golpe de 64 foi um erro. O Globo, 31/08/2013.

[4] Apenas para citar um exemplo, em 30 de junho de 2013, na final da Copa das Confederações, a Rede Globo manipulou imagens e informações dos protestos ocorridos no Rio de Janeiro. Foram desmentidos pelas mídias sociais.

[5] “Segundo o professor de Direito Constitucional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Leonardo Vizeu, o país não precisa criar uma lei reunindo as demais, mas aplicar as existentes. “Já temos o crime de dano, de formação de quadrilha, de lesão corporal e apologia ao crime. Não precisamos de uma lei de forma casuística”, disse. Ele avalia que a proposta se aproveita da comoção em torno da morte do cinegrafista Santiago Andrade, durante protesto no Rio.” (Juristas condenam projeto de lei antiterrorismo. Brasil 247, 12/02/2014)

[6] Globo concentra verba publicitária federal (13/09/2012):

[7] “Um levantamento realizado pela Associação Brasileia de Jornalismo Investigativo (Abraji), mostrou que 75,5% das agressões contra jornalistas em eventos como manifestações e protestos, no Brasil, são de responsabilidade de agentes da Força Nacional e policiais.” (Policiais são responsáveis por mais de 75% das agressões a jornalistas, diz Abraji. Correio da Bahia, 12/02/2014)

Abraji diz que maioria de agressões no país contra jornalistas desde junho foi intencional” (14/02/2014):

No mesmo dia em que o cinegrafista da Bandeirantes foi atingido, um repórter alemão, da Deutsche Welle, que cobria o protesto, foi agredido pela polícia, o que gerou indignação do veículo e carta na Embaixada do Brasil em Berlim:

O jornalista alemão Philipp Barth cobria o protesto contra o aumento do preço da passagem de ônibus no Rio. A manifestação, que no início era pacífica, transformou a região da Central do Brasil num palco de violência. O correspondente da DW recebeu golpes de cassetete na barriga e nas costas de um policial. Alguns dos golpes atingiram também sua câmera, que ficou danificada.” (Deutsche Welle protesta por agressão policial a correspondente no Rio. Deutsche Welle, 12/02/2014)




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domingo, 2 de fevereiro de 2014

Greve dos Rodoviários de Porto Alegre: uma autêntica rebelião de base

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O primeiro mês do ano de 2014 começa com uma série de movimentos sociais e sindicais que apontam para a continuidade e o aprofundamento das lutas no país, que já vinham se avolumando antes de 2013 mas que tiveram o ápice nas famosas jornadas de junho do referido ano e que podem superar tais jornadas no ano que se inicia.

Além dos já esperados protestos que questionam a Copa do Mundo, que ocorreram em várias cidades do país, greves e paralisações ocorrem nesse momento nos Correios, na educação estadual do Rio Grande do Norte, municipal de Belém e Jacundá no Pará e na saúde de Porto Alegre. Em Curitiba professores municipais e rodoviários também podem declarar greve nos próximos dias.

Mas os olhos do país inteiro têm se voltado para a greve dos rodoviários de Porto Alegre. O próprio Governo Dilma pediu um relatório da mesma [1] possivelmente temendo que um “efeito Porto Alegre” se alastre novamente a exemplo do que ocorreu na questão das passagens de ônibus no ano passado.

E não é para menos: a greve que já dura uma semana tem enfrentado corajosamente empresários, governo, justiça, grande mídia e a direção pelega e traidora do seu próprio sindicato.

A rebelião de base protagonizada pela categoria deixou o andar de cima atordoado, conforme atestam as declarações do Prefeito José Fortunati (PDT), e escancarou que os poderes constituídos – como o Judiciário – atuam na defesa dos lucros dos empresários, não dos trabalhadores.

O movimento dos rodoviários - que busca melhorias salariais, de condições de trabalho e manutenção de benefícios que os empresários querem retirar - começou no final do ano passado com as chamadas “operações tartarugas” até a deflagração da atual greve devido a intransigência das empresas.

No primeiro dia da greve, segunda-feira (27/01), 30% da frota de ônibus circulou. Em uma tentativa de jogar a população contra os rodoviários o Prefeito chegou a dizer que havia uma “lua de mel” [2] entre empresários e trabalhadores com o objetivo de aumentar o preço das passagens de ônibus. Logo em seguida tentou um acordo com os ônibus da região metropolitana para atender a população da capital, medida a qual teve de recuar, após a ameaça de recolhimento dos 30% que estavam operando por parte dos trabalhadores.

A Prefeitura ingressou então na justiça para pedir que 70% da frota circulasse nos horários de pico e 50% nos demais horários. A justiça determinou 70% nos horários de pico, 30% nos demais horários e multa de R$ 50 mil por dia ao sindicato em caso de descumprimento. [3] Como no verão já circula 70% da frota tal sentença acabaria por tornar a greve impotente.

Assim, na manhã de quarta-feira, pressionados pelas empresas, vários ônibus voltaram a circular, principalmente do consórcio Unibus, mas logo tiveram de ser recolhidos após serem apedrejados. A partir daí nenhum ônibus mais circulou nas ruas de Porto Alegre!

Foi o momento da grande mídia, a RBS principalmente, que já tinha endossado a tese do Prefeito Fortunati de que havia uma “lua de mel” entre trabalhadores e empregados [4], demonstrar claramente de que lado estava.

O jornalista Paulo Sant'ana tem se destacado como um verdadeiro pitbull dos empresários de ônibus. Desde o primeiro dia da greve ele não só não tem abordado outro assunto como vem pedindo pela prisão dos rodoviários: “(…) Vão chantagear na cadeia!” [5]

Em um desses apelos pelo encarceramento dos grevistas, Sant'Ana emite uma preocupação que deve estar rondando as cabeças das classes dominantes:

Eu mandaria prender estes falsos sindicalistas que detonaram esta greve imfame.
Porque se nada for feito contra eles haverá com certeza outros exemplos de desacato e desobediência que imitarão estes. E Porto Alegre e o Brasil virarão num império da desordem. [ibidem*]

Na quinta-feira, ocorreu uma reunião, mediada pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT), entre o sindicato dos rodoviários, as empresas, a Prefeitura e o Ministério do Trabalho. Nela a direção pelega do sindicato filiado à Força Sindical assinou um acordo, por cima da base, para desmontar a greve. O acordo previa o retorno ao trabalho já no dia seguinte, com metade da frota, que já seria de 100% no segundo dia, cancelando a greve por 12 dias. [6] Ao ler os termos do acordo para os trabalhadores que estavam concentrados na frente do TRT, indicando a sua aprovação na assembleia do dia seguinte, os sindicalistas foram vaiados.

O fato deixava claro que a greve deflagrada e sustentada não era uma “lua de mel” entre patrões e empregados mas uma autêntica rebelião da base. E foi essa base que garantiu no dia seguinte que nenhum ônibus saísse da garagem, embora a grande mídia, irresponsável ou maliciosamente, tivesse alardeado que haveriam ônibus circulando na cidade.

Com mais um dia sem ônibus, o Prefeito Fortunati externou todo o seu desespero e despreparo, pedindo a repressão da Brigada Militar - e que alguns de seus membros dirigissem os ônibus [7] – tendo chegado ao ponto de ameaçar com o pedido de intervenção da Força Nacional [8] ao passo que fugia de responder sobre a possibilidade de uma nova licitação para o transporte coletivo [9], o que não ocorre há 25 anos.

Os jornalistas da RBS, por sua vez, deixavam claro mais uma vez de que lado estavam. Se Paulo Sant'Ana pedia pela prisão dos grevistas, Rosane de Oliveira, mais cautelosa, reclamava que a “Greve dos ônibus passou dos limites”. [10]

Representando outra instituição pró status quo que vem atuando para desmontar a greve, a desembargadora Ana Luiza Heineck Kruze, do TRT, que declarou a ilegalidade da greve e que na reunião de mediação defendeu que a direção do sindicato atropelasse a sua base, externou preocupação com um possível efeito do “mau exemplo” da rebeldia dos rodoviários:

É preocupante em todos os sentidos. Se chegarmos a um sistema onde nada é respeitado, estamos diante de um sistema anárquico. Isso não é bom para ninguém, nem para o próprio sindicato. É um risco para toda a sociedade. [11]

Nessa sexta-feira agitada e preocupante para o andar de cima teve ainda um numeroso ato estudantil em solidariedade à greve dos rodoviários que começou na frente da Prefeitura, se encontrou com os grevistas na saída da assembleia que definiu pela continuidade da greve e passou na sede do Jornal Zero Hora, do Grupo RBS, que foi apedrejada. Estava selada de vez a aliança dos rodoviários com o movimento estudantil - que já vinha participando da greve.

No sábado nove ônibus da empresa VAP, que saíram da garagem, foram apedrejados e tiveram de ser recolhidos. De acordo com a Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) 45 ônibus foram atacados desde o início da greve [12]. No mesmo dia o Prefeito Fortunati anunciou que deve sair em até 30 dias um edital para nova licitação no transporte coletivo, conforme havia ordenado a justiça [13] – prazo curto que tem tudo para beneficiar as 12 empresas que controlam o setor na capital gaúcha.


Mais do que uma pauta sindical

A rebeldia dos rodoviários portoalegrenses, que conta com o apoio da maioria da população [14], ocorre em um contexto de aprofundamento das contradições sociais e das lutas populares no país. Seu bravo enfrentamento com as velhas direções sindicais pelegas, os empresários do transporte, a prefeitura, a justiça e a grande mídia servem de lição e inspiração para outros trabalhadores e explorados que, insatisfeitos, podem perceber cada vez mais que a unidade, a organização e a mobilização podem resistir e derrotar forças poderosas. Essa lição já é a grande vitória da greve e a grande preocupação do andar de cima como constatado nas declarações da desembargadora, do jornalista da grande mídia e pelo interesse do Governo Dilma em um relatório da greve.

Ela coloca mais uma vez a questão do transporte coletivo no centro do debate. Mostra que as medidas anunciadas no ano passado pelos governos não resolveu o problema pois seu compromisso era com os empresários do setor e não com o povo e os trabalhadores. Evidencia a perversidade de um modelo onde uma minoria privilegiada e protegida pelos governos e a justiça lucra às custas dos baixos salários, dos cortes de benefícios e das péssimas condições de trabalho de seus empregados e cobrando caro da população pobre por um transporte sem qualidade.

É preciso ter cuidado com certas armadilhas apresentadas como panacéias. Novas licitações não vão resolver o problema. Elas podem ser vencidas pelos mesmos grupos que já se beneficiam do atual modelo. E mesmo que outros grupos privados vençam ocorrerá apenas a troca de seis por meia dúzia.

O problema é o modelo: está na hora de tratar o transporte coletivo, chamado de público, como um direito e não uma mercadoria. Já está mais do que evidente que essa não é a intenção dos empresários e dos governos que os protegem. Somente a luta popular poderá reverter essa situação.


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[1] Carolina Bahia: Planalto monitora greve em Porto Alegre (29/01/2014):

[2] Sindicato dos Rodoviários descarta greve combinada com empresários (28/01/2014):

Tenho na minha bagagem inúmeras greves e não vi nenhuma tão estranha quanto essa. Hoje, na frente da s garagens, só há piquetes na Carris, não tem ninguém nas outras empresas. Os trabalhadores normalmente vão para frente das garagens e o que estamos vendo é uma lua de mel. Isso é muito estranho”. José Fortunati, Prefeito de Porto Alegre.


[3] Justiça determina manutenção de 70% da frota de ônibus nos horários de pico (28/01/2014):

[4] A capa do Jornal Zero Hora de 28 de janeiro tinha como principal manchete: “Greve cordial”:

[5] O caos nos ônibus. Paulo Sant'Ana, 27/01/2014.

70% da frota! Paulo Sant'Ana, 28/01/2014.

* Nas barbas da Justiça. Paulo Sant'Ana, 29/01/2014.

Enfim, acordo parcial. Paulo Sant'Ana, 30/01/2014.

Bagunça nos ônibus. Paulo Sant'Ana, 31/01/2014.

[6] Greve dos rodoviários é suspensa temporariamente após acordo na Justiça (30/01/2014):

[7] Prefeitura pedirá apoio a PMs para atuarem como motoristas de ônibus em Porto Alegre (31/01/2014):

[8] Greve dos rodoviários: prefeito ameaça recorrer à Força Nacional (31/01/2014):

[9] “Ao ser abordado sobre questões relacionadas à licitação do transporte coletivo, o prefeito respondeu às primeiras questões, abandonanado a entrevista após a terceira pergunta sobre o tema, deixando os jornalistas sem respostas.” (ZH, 31/01/2014)

[10] Greve dos ônibus passou dos limites (31/01/2014):

[11] "Se nada é respeitado, estamos diante de um sistema anárquico", diz desembargadora que mediou acordo (31/01/2014):

[12] No sexto dia de greve, nove ônibus são depredados em Porto Alegre (01/02/2014):

[13] Prefeitura tem 30 dias para iniciar licitação de transporte em Porto Alegre (30/01/2014):

[14]No programa Polêmica, da Rádio Gaúcha, geralmente bastante afinado com as posições gerais demonstradas pela empresa, há sempre uma pergunta para os ouvintes, muitas vezes construída de forma bastante capciosa. Nesta quinta, a questão foi: “Rodoviários de Porto Alegre contrariam decisão da Justiça e fazem greve geral. Eles tem razão?”. Mesmo com o questionamento direcionado pela ênfase no ponto da contrariedade à decisão da Justiça, e mesmo com o recorte de público de um espaço midiático conservador, o resultado mostrou a maior parte dos votantes apoiando a greve.” (COBERTURA DA GREVE DOS RODOVIÁRIOS: CRIMINALIZAÇÃO, NOVAS LEMBRANÇAS E VELHOS ESQUECIMENTOS. Alexandre Haubrich. Jornalismo B, 31/01/2014.


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