terça-feira, 20 de julho de 2010

A praga da batata e a praga do liberalismo

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Um dos episódios mais trágicos da História moderna, e muito pouco comentado, foi a fome que assolou a Irlanda no século XIX, mais precisamente de 1845 à 1849. As estimavas mais modestas apontam que 1 milhão de pessoas teriam morrido e outras 1,5 milhão teriam deixado o país que tinha aproximadamente 8 milhões de habitantes. A crença na auto-regulação do mercado foi um dos grandes responsáveis pelo sofrimento e ceifamento de tantas vidas.

Em 1845 a plantação de batatas na Irlanda foi atacada pelo oomiceto "Phytophthora infestans", parasita que devastou quase toda a lavoura. O episódio, que espalhou a fome e a ruína para inúmeras famílias, acabou ficando conhecido como "a praga da batata". O cenário caótico foi descrito dessa forma por Voltaire Schilling:
"Os repórteres do London News enviados para os campos da Irlanda em 1849 não podiam acreditar no que viam. Eles foram para lá cobrir a Grande Fome que grassava na ilha pelo terceiro ano consecutivo, mas não imaginavam ver o que os aguardava. Onde esperavam ver a celebrada cor esmeralda das terras irlandesas, depararam-se com uma assustadora paisagem lunar. Espalhados nela, uma gente famélica, reduzida aos ossos, homens, mulheres e crianças, removia a terra como um bando de doidos. O que conseguiam catar do chão levavam logo à boca ou jogavam para os filhos, encovados e exaustos, sentados ao redor."[1]

Mas se estamos diante de uma tragédia natural então qual seria a responsabilidade do liberalismo no caso? Vejamos:

Os proprietários arrendavam lotes de terras para vários camponeses que neles plantavam batatas. Os ganhos com a atividade eram tão modestos que era comum se deparar com as mulheres dos camponeses mendingando. Além do mais havia uma série de intermediários entre ambos e caso um dos camponeses não pagasse o proprietário, este poderia expulsar os camponeses. Foi exatamente o que os proprietários fizeram quando estourou a praga da batata.

O quadro de miséria desesperadora comoveu até o político direitista conservador Robert Peel que implementou uma série de medidas para tentar atenuar a situação, mas não as autoridades inglesas que administravam a Irlanda, que viam nessas medidas um odioso intervencionismo e acreditavam que bastaria deixar por conta da auto-regulação do mercado que a situação se contornaria por si. Assim, Peel acabou caindo em 1846 após perder o apoio dos políticos ingleses. Em seu lugar assumiu John Russel mais alinhado com as políticas do laissez-faire.

Coerentes com esses ideais Russel e seus seguidores permitiram que outros alimentos produzidos na Irlanda continuassem a ser exportados ao passo que impediam que alimentos subsidiados (mais baratos) enviados de fora entrassem e fossem distribuidos à população. Tudo para não atentar contra a liberdade do mercado. Afinal era preciso "impedir o povo de se habituar a depender do governo", como disse o líder liberal inglês Charles Trevelyan.[2] Além da praga da batata o povo irlandês foi vitimado pela praga do liberalismo.

Diante de tamanho fundamentalismo insano muitos irlandeses que mantiveram alguma força trataram de embarcar em navios precários (os "navios-caixões") e deixar o país. Gente como o bisavô de John F. Kennedy que imigrou para a América. Mesmo assim muitos não resistiram e morreram durante a viagem. Outros perambularam internamente e foram castigados pelo tempo e pelo desamparo como na tragédia de Doolough.

A tragédia causada pela praga da batata não abalou os pressupostos da praga do liberalismo. Ludwig von Mises, o intelectual liberal mais festejado da atualidade, comemorou da seguinte maneira a atitude que teve um ex-presidente dos Estados Unidos diante de outra tragédia natural:
(...) foi um presidente democrata dos Estados Unidos, o presidente Cleveland que, em fins da década de 1880, vetou uma decisão do Congresso de conceder uma pequena soma de auxílio - cerca de dez mil dólares - a uma comunidade que sofrera uma catástrofe. Esse presidente justificou seu veto escrevendo as seguintes palavras: "É dever do cidadão manter o governo, mas não é dever do governo manter os cidadãos." Estas são palavras que todo estadista deveria escrever numa parede de seu gabinete, para mostrar aos que viessem pedir dinheiro. [3]

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[1] SCHILLING, Voltaire. Irlanda: A Grande Fome da Batata.
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/irlanda_fome.htm
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/irlanda_fome2.htm

[2] JOANNON, Pierre. A grande diáspora irlandesa.
http://www2.uol.com.br/historiaviva/reportagens/a_grande_diaspora_irlandesa_imprimir.html

[3] MISES, Ludwig von. As Seis Lições.

Outras referências consultadas
SCHILLING, Voltaire. Irlanda - Católicos e Protestantes - A Grande Fome: a tragédia do século.
http://educaterra.terra.com.br/voltaire/atualidade/irlanda7.htm
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