sábado, 9 de junho de 2012

PCdoB busca aliança com PP em Porto Alegre

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Manuela encontra executiva municipal do PP e apresenta proposta Geancarla de Aguiar/Divulgação PP-RS


















Manuela D'Ávila, candidata do PCdoB a Prefeitura de Porto Alegre, está disputando com o atual Prefeito José Fortunati (PDT) o apoio do PP para as eleições municipais.

Mais de um encontro já foi realizado. Manuela e Fortunati já foram até "sabatinados" e participaram de um "debate" onde buscaram se mostrar de confiança para os membros da direção do PP.

Fortunati tem a vantagem de já contar com tal partido em seu governo. Tende a ser o escolhido. Mas a simples disputa do PCdoB por um partido direitista que apoiou os algozes de seus companheiros durante a ditadura militar mostra a que baixo nível chega o seu oportunismo político. Cabe salientar ainda que não seria a primeira vez de Manuela: em 2008 ela fez chapa com o "brittense" Berfran Rosado do PPS.

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Manuela encontra executiva municipal do PP e apresenta proposta (07/05/2012):

Disputa pelo apoio do PP esquenta pré-campanha em Porto Alegre (05/06/2012):
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As preocupações de Julian Assange são justificadas: não há devido processo legal na Suécia


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Per E. Samuelson, advogado sueco, da equipe de defesa de Julian Assange.


O caso de Julian Assange resultou em intensa crítica, internacional, da jurisprudência sueca. O professor de Direito Mårten Schults insiste que, sim, há devido processo legal na Suécia. Mas não diz que experiência tem do nosso sistema de detenção, restrições, impedimentos às visitas dos advogados etc. Schultz fala do que não sabe.

É mais que hora de alguém que conheça a realidade bater na mesa e dizer as coisas como as coisas são: não há devido processo legal na Suécia. Na Suécia, de rotina, a detenção é praticamente sempre mal usada. É usada quando não é necessária, é usada para humilhar e impede o acusado de preparar a própria defesa.

Iniciar um processo com prender o suspeito e isolá-lo do mundo é recurso a usar no caso de crime de sangue, e desde que não haja qualquer dúvida sobre a culpa do suspeito. Anders Breivik na Noruega e Mijailovic, assassino de Anna Lindh, são casos exemplares. Deixá-los em liberdade antes do julgamento é impensável e repugnante.

Mas em caso em que se trate de determinar quem diz a verdade e quem mente, entre dois cidadãos normais, membros adaptados da sociedade, dois indivíduos que jamais cometeram crime algum, nesse caso é, sim, indispensável, perguntar por que um deles teria de ser isolado e mantido preso antes de ser julgado. O caso de Assange inscreve-se nessa categoria.

O caso começou em agosto de 2010, com o primeiro interrogatório policial a que Assange respondeu. Até ali, era homem livre. A procuradora requereu outro interrogatório para o final de setembro e insistiu em que Assange respondesse como preso e fosse mantido em isolamento. Para tanto, requereu que Assange fosse preso; emitiu um Mandado Europeu de Prisão; e requreu a extradição de Assange. O Tribunal do Distrito de Estocolmo e a Corte de Apelação de Svea deram-lhe o direito de prender Assange in absentia.

Mas nem Julian Assange nem o mundo que nos cerca conseguem entender. Por que nem o interrogatório policial seria possível sem Assange estar preso? Assange não vive na Suécia. Trabalha em todo o planeta e seu trabalho exige que viaje livremente. Por que a Suécia não poderia aceitar isso, e mandar interrogá-lo, sem acrescentar as exigências de detenção e isolamento? Ele compareceria aos interrogatórios. O interrogatório aconteceria. E ele iria para onde precisasse ir, seguindo o rumo de sua própria vida. E se houvesse julgamento, ele voltaria para ser julgado. Se a Suécia tivesse encaminhado o processo desse modo, tudo já estaria julgado e decidido há muito tempo.

Mas eles insistem em que o único modo de interrogar Assange é obrigá-lo a ir à Suécia. Na chegada, será imediatamente preso e posto sob custódia da polícia e será levado à prisão. Depois será levado à audiência algemado e será oficialmente preso. E permanecerá preso até o final do julgamento.

Por que Assange, o mundo que nos cerca e eu – um dos advogados encarregados de defendê-lo – criticamos tanto esses procedimentos?

Primeiro: porque não é necessário. A procurador pode suspender o Mandado de Prisão e a detenção, e o interrogatório pode ser marcado e feito muito rapidamente. Ou um interrogatório na Inglaterra, ou na Embaixada da Suécia em Londres. Segundo: essas condições são humilhantes. Por que o acusado está sendo tratado como culpado, antes, até, de ser interrogado? Não há acusação, não houve julgamento, não há condenação.

Países nos quais haja justo processo legal prendem os culpados, não os acusados, menos ainda os inocentes. Porque na Suécia prende-se gente antes de saber se são culpados ou não, efeito do mau uso, na Suécia, da detenção, há aqui tantos inocentes presos. É injusto, é revoltante, é repugnante.

Estão criando dificuldades insuperáveis, até, para que Assange prepare a própria defesa. O preso em cela de isolamento, só tem contato, no máximo, com o próprio advogado. Enquanto isso, a acusação e a outra parte podem tranquilamente conversar com testemunhas, discutir e preparar estratégias. Por que só a acusação? Por que se nega igual oportunidade ao acusado?

O caso de Julian Assange é exemplo eloquente do dano provocado pelo mal uso que se dá, na Suécia, à detenção e outras restrições. E a Suécia, evidentemente, está sendo muito criticada por essas práticas. A crítica não vem nem de Assange nem de seus apoiadores, mas de muitos cidadãos respeitáveis em todo o mundo. Nada disso parece ter chegado aos ouvidos do professor Mårten Schulz e de alguns outros suecos. Mantêm-se cegos e surdos a essas verdades, por razões que permanecem obscuras.

Não é fácil pensar fora da caixa. Dá-se por pressuposto que o que se faz está correto, apenas porque foi feito. Mais ainda, em alguns casos, dependendo de quem tenha feito. Muita gente, no sistema judicial, comete esse erro de lógica. E trata-se também de nacionalismo. A crítica internacional aos erros de alguns suecos é vista como ataque contra a Suécia. E os suecos correm para proteger os caixotes lacrados, cujo conteúdo desconhecem.

Fora da Suécia não se conhecem os antolhos que se usam na Suécia. Em outros países, a detenção é significativamente menos mal usada. Praticamente em nenhum caso o acusado é isolado antes, até, de ser interrogado. Há gente libertada sob fiança, que, mesmo acusada, pode voltar ao mundo para preparar a própria defesa – como propusemos à procuradora sueca.

Por tudo isso, aconselho Mårten Schulz e vários suecos: parem de agir como gangue contra Assange, abram os olhos, olhem a realidade em volta! O tratamento que o sistema judiciário sueco preparou para Assange é desnecessário, visa a humilhá-lo, sentencia-o culpado 'preventivamente' e o impede de preparar a própria defesa.

Tradução do coletivo Vila Vudu
Original em: http://rixstep.com/2/1/20120608,00.shtml

Extraído de:
https://www.diarioliberdade.org/mundo/comunicacom/28066-as-preocupa%C3%A7%C3%B5es-de-julian-assange-s%C3%A3o-justificadas-n%C3%A3o-h%C3%A1-devido-processo-legal-na-su%C3%A9cia.html
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Não é só a verdade, mas a justiça

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Joycemar Tejo - Publicado em Domingo, 03 Junho 2012 21:03


No mês de maio, finalmente, veio a lume a Comissão da Verdade, formalizada na grande cerimônia que contou com a presença dos ex-presidentes (1).

Esse detalhe, se parece ser meramente protocolar, na verdade é sintoma do amplo "acordão" que envolveu a criação da Comissão, contemplando os diversos setores conservadores da sociedade. O mesmo espírito de conciliação esteve por trás da Lei da Anistia de 1979 -afinal, o retorno à democracia burguesa foi negociado e costurado com os generais- e do julgado do Supremo Tribunal Federal, estendendo aos torturadores os beneplácitos da anistia, como se tortura -violação crassa e cabal dos direitos humanos mais elementares- pudesse ser considerada "crime político" (2).

Não podemos, contudo, diminuir o processo que levou à criação da Comissão. Se por um lado é parte da necessidade do governo burguês lulodilmista de "prestar contas" à sociedade, "para inglês ver", por outro foi fruto da pressão concreta e direta dos movimentos sociais e das forças progressistas. Também o Estado burguês, diante da pressão das massas -e de sua vanguarda, a "mola vital" do processo revolucionário, como diz Trotsky (3)- tende a capitular, ainda que em questões pontuais. Não fosse a luta nesse sentido, portanto, mesmo uma iniciativa recuada como a Comissão estaria longe de se concretizar.

Porém, a luta não se exaure com a instauração da Comissão da Verdade. É preciso que ela cumpra a tarefa pendente: a de não apenas "apurar" os crimes cometidos pela ditadura empresarial-militar, mas também -e principalmente- de levar a punição aos culpados. Gilson Dipp, ministro do STJ e um dos membros da Comissão, já avisou que a mesma não terá "poder de polícia" e tampouco estará imbuída de "revanchismo" (sic). Uma Comissão meramente formal, inócua, portanto, muito aquém daquilo que a sociedade reclama. Muito aquém, diga-se, das iniciativas similares nos demais países da América do Sul que, ao contrário do Brasil, têm punido seus ditadores. É preciso que a pressão não cesse.

Não é demais lembrar que o regime empresarial-militar ainda possui suas viúvas que, anualmente, têm a desfaçatez de comemorar o Golpe (e jamais "revolução") de 1964 (4). Não interessa a esses setores, dos mais atrasados e reacionários do país, que haja apuração de seus crimes e, muito menos, que os responsáveis sejam punidos. Assim, no campo oposto às forças progressistas, tais setores se empenham em fazer soçobrar a Comissão, mesmo rebaixada que seja. A luta não acaba com a instauração da Comissão, portanto- ao contrário, está por começar.


Extraído de:
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quinta-feira, 7 de junho de 2012

Após isentar os grandes Governo Tarso taxa os pequenos

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Menos de um mês após ter ido à Europa ofecerer inúmeras benesses fiscais às multinacionais, aprofundando uma política praticada desde o início de sua gestão, o Governo Tarso conseguiu aprovar na Assembléia Legislativa gaúcha projetos que aumentam a taxação para o andar de baixo.

Assim como outras a promessa de diálogo foi esquecida e mais uma vez projetos impopulares foram enviados em regime de urgência para serem votados apressadamente com o objetivo de reduzir o desgaste político. Foi o que ocorreu na última terça-feira (05/06). 

A base aliada do governo (PT, PCdoB, PDT, PTB, PSB e PRB) aprovou, sob fortes vaias das galerias, o aumento da contribuição previdenciária dos servidores estaduais e o aumento das tarifas cobradas pelo Detran-RS. 

O desconto previdenciário dos servidores passou de 11% para 13,25%. Já as tarifas do Detran terão os seguintes aumentos:
Licenciamento anual (CRLV): passaria dos atuais R$ 40,95 para R$ 58,14 (elevação de 42%);
2ª via do CRLV: de R$ 40,95 para R$ 72,06 (76%);
Emissão do Certificado de Registro de Veículo (CRV): de R$ 40,95 para R$ 98,34 (140%). [1] 

A velha direita, que em anos anteriores também atacou os servidores e elevou as tarifas do Detran, votou contra na tentativa de capitalizar política e eleitoralmente. 

O cinismo da direita, porém, não anula e nem minimiza o cinismo do PT, PCdoB, PSB e aliados. O PT embalou como sendo positiva e inovadora a velha lógica de jogar o fardo pesado para o andar de baixo carregar:
"Assembleia aprova projetos que reestruturam ação do Estado". [2] 

O referido fardo tem ficado cada vez mais pesado dentro do projeto de "desenvolvimento" do Governo Tarso que alivia impostos para as grandes empresas e aumenta o endividamento público para subsidiá-las. 

Os efeitos dessa política, cujo discurso lembra o triste Governo Britto, já estão sendo sentidos e o próprio governo não os têm adiado. Para aliviar para os grandes aperta os cintos dos pequenos e ainda ataca-lhes os bolsos. É uma espécie de "taxação regressiva" onde quem tem mais paga cada vez menos e quem tem menos paga cada vez mais.


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[1] Assembleia aprova projeto que reajusta taxas do Detran (05/06/2012):
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/politica/noticia/2012/06/assembleia-aprova-projeto-que-reajusta-taxas-do-detran-3781319.html 

Reajuste de taxas do Detran começa a valer em janeiro de 2013 (06/06/2012):
http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/politica/noticia/2012/06/reajuste-de-taxas-do-detran-comeca-a-valer-em-janeiro-de-2013-3781834.html

[2] Assembleia aprova projetos que reestruturam ação do Estado (06/06/2012):
http://www.ptsul.com.br/t.php?id_txt=38064
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domingo, 3 de junho de 2012

Lula, Gilmar Mendes e a mídia

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O que Lula fazia reunido, a portas fechadas, com Gilmar Mendes e Nelson Jobim?

Por que Gilmar Mendes só se pronunciou sobre o encontro um mês depois? E por que suas declarações sobre o mesmo tem sido contraditórias?

Os intrigantes questionamentos acima fizeram parte da cena política do país na última semana e ainda suscitam debates e trocas de acusações.

Os governistas se limitam a enxovalhar Gilmar Mendes, que sabe-se, desde há muito, não possuir auréola nem asinhas. Mas não se dignam a explicar o que Lula fazia com um sujeito desses. Não podem alegar governabilidade - como fazem para justificar alianças com Collor, Sarney, Renan Calheiros, etc - pois Lula não é mais presidente e Gilmar Mendes não é líder de nenhum partido.

Já a velha direita não consegue explicar o silêncio mensal de Mendes e tampouco suas afirmações contraditórias em relação a própria reportagem da Revista Veja. Esta, por sua vez, encontra-se desesperada pela publicização de sua relação com a quadrilha de Carlinhos Cachoeira. [1]

O tsunami do escândalo Cachoeira tem arrastado as principais instituições do regime incluindo o chamado quarto poder. Nos últimos dias novas escutas da operação da Polícia Federal mostraram que Eumano Silva, diretor da sucursal de Brasília da Revista Época que é uma publicação das Organizações Globo, operava a favor dos interesses de Cachoeira. [2]

Ficava claro porque a Globo, em vez de triturar seu concorrente quando foram divulgadas as escutas da Polícia Federal que comprometiam a Revista Veja, saiu em sua defesa e solidariedade em editorial de "O Globo" de 8 de maio. [3]

Os governistas lembram, com razão, o fato acima mas omitem que no referido editorial Lula e Dilma são saudados pelo veículo dos Marinho como comprometidos "com a liberdade de expressão". Esta estaria sendo atacada por "radicais do PT" (tsc!) como se ainda houvessem radicais com força dentro daquele partido.

Para os tubarões da grande mídia atacar as mídias alternativas não se constitui um ataque à livre expressão já que os fechamentos em número recorde de rádios comunitárias ocorridos durante o Governo Lula nunca mereceram uma única nota de protesto em seus veículos.

Cabe salientar ainda que a Veja celebrou o editorial de "O Globo" que saúda Lula e Dilma. [4] Isso não significa que sua reportagem com Gilmar Mendes não possa ter sido manipulada. Seria uma forma de pressão para que tudo termine em pizza.

É fato que muitos não desejam o julgamento do mensalão. É fato também que muitos querem parar as investigações do caso Cachoeira. Em ambos os casos há poderosas forças envolvidas. Muitas vezes elas se entrecruzam e isso favorece o fechamento de mais um acordão. Somente uma forte pressão popular pode evitá-lo.

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[1] Integrantes da CPI querem investigar as relações de Cachoeira com a revista Veja -07/05/2012
http://www.youtube.com/watch?v=Hx6lAu1YYqc

[2] Cachoeira plantou notícias na revista Época (25/05/2012):
http://www.cartacapital.com.br/politica/cachoeira-plantou-noticias-na-revista-epoca/

[3] Roberto Civita não é Rupert Murdoch (Editorial). 08/05/2012:
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2012/05/08/roberto-civita-nao-rupert-murdoch-editorial-443966.asp

[4] Editorial de 'O Globo' em defesa da imprensa livre entra para a história das lutas democráticas no Brasil (12/05/2012):
http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/em-editorial-o-globo-denuncia-campanha-organizada-contra-imprensa-livre-e-acusa-tosco-exercicio-de-ma-fe-vejanarede
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sexta-feira, 1 de junho de 2012

A Delinqüência Acadêmica


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Maurício Tragtenberg


A universidade está em crise. Isto ocorre porque a sociedade está em crise; através da crise da universidade é que os jovens funcionam detectando as contradições profundas do social, refletidas na universidade. A universidade não é algo tão essencial como a linguagem; ela é simplesmente uma instituição dominante ligada à dominação. Não é uma instituição neutra; é uma instituição de classe, onde as contradições de classe aparecem. Para obscurecer esses fatores ela desenvolve uma ideologia do saber neutro, científico, a neutralidade cultural e o mito de um saber “objetivo”, acima das contradições sociais. 

No século passado, período do capitalismo liberal, ela procurava formar um tipo de “homem” que se caracterizava por um comportamento autônomo, exigido por suas funções sociais: era a universidade liberal humanista e mandarinesca. Hoje, ela forma a mão-de-obra destinada a manter nas fábricas o despotismo do capital; nos institutos de pesquisa, cria aqueles que deformam os dados econômicos em detrimento dos assalariados; nas suas escolas de direito forma os aplicadores da legislação de exceção; nas escolas de medicina, aqueles que irão convertê-la numa medicina do capital ou utilizá-la repressivamente contra os deserdados do sistema. Em suma, trata-se de “um complô de belas almas” recheadas de títulos acadêmicos, de um doutorismo substituindo o bacharelismo, de uma nova pedantocracia, da produção de um saber a serviço do poder, seja ele de que espécie for. 

A universidade dominante reproduz-se mesmo através dos “cursos críticos”, em que o juízo professoral aparece hegemônico ante os dominados: os estudantes. Isso se realiza através de um processo que chamarei de “contaminação”. O curso catedrático e dogmático transforma-se num curso magisterial e crítico; a crítica ideológica é feita nos chamados “cursos críticos”, que desempenham a função de um tranqüilizante no meio universitário. Essa apropriação da crítica pelo mandarinato universitário, mantido o sistema de exames, a conformidade ao programa e o controle da docilidade do estudante como alvos básicos, constitui-se numa farsa, numa fábrica de boa consciência e delinqüência acadêmica, daqueles que trocam o poder da razão pela razão do poder. Por isso é necessário realizar a crítica da crítica-crítica, destruir a apropriação da crítica pelo mandarinato acadêmico. Watson demonstrou como, nas ciências humanas, as pesquisas em química molecular estão impregnadas de ideologia. Não se trata de discutir a apropriação burguesa do saber ou não-burguesa do saber, mas sim a destruição do “saber institucionalizado”, do “saber burocratizado” como único “legítimo”. A apropriação universitária (atual) do conhecimento é a concepção capitalista de saber, onde ele se constitui em capital e toma a forma nos hábitos universitários. 

A universidade reproduz o modo de produção capitalista dominante não apenas pela ideologia que transmite, mas pelos servos que ela forma. Esse modo de produção determina o tipo de formação através das transformações introduzidas na escola, que coloca em relação mestres e estudantes. O mestre possui um saber inacabado e o aluno uma ignorância transitória, não há saber absoluto nem ignorância absoluta. A relação de saber não institui a diferença entre aluno e professor, a separação entre aluno e professor opera-se através de uma relação de poder simbolizada pelo sistema de exames – “esse batismo burocrático do saber”. O exame é a parte visível da seleção; a invisível é a entrevista, que cumpre as mesmas funções de “exclusão” que possui a empresa em relação ao futuro empregado. Informalmente, docilmente, ela “exclui” o candidato. Para o professor, há o currículo visível, publicações, conferências, traduções e atividade didática, e há o currículo invisível – esse de posse da chamada “informação” que possui espaço na universidade, onde o destino está em aberto e tudo é possível acontecer. É através da nomeação, da cooptação dos mais conformistas (nem sempre os mais produtivos) que a burocracia universitária reproduz o canil de professores. Os valores de submissão e conformismo, a cada instante exibidos pelos comportamentos dos professores, já constituem um sistema ideológico. Mas, em que consiste a delinqüência acadêmica? 

A “delinqüência acadêmica” aparece em nossa época longe de seguir os ditames de Kant: “Ouse conhecer.” Se os estudantes procuram conhecer os espíritos audazes de nossa época é fora da universidade que irão encontrá-los. A bem da verdade, raramente a audácia caracterizou a profissão acadêmica. Os filósofos da revolução francesa se autodenominavam de “intelectuais” e não de “acadêmicos”. Isso ocorria porque a universidade mostrara-se hostil ao pensamento crítico avançado. Pela mesma razão, o projeto de Jefferson para a Universidade de Virgínia, concebida para produção de um pensamento independente da Igreja e do Estado (de caráter crítico), fora substituído por uma “universidade que mascarava a usurpação e monopólio da riqueza, do poder”. Isso levou os estudantes da época a realizarem programas extracurriculares, onde Emerson fazia-se ouvir, já que o obscurantismo da época impedia a entrada nos prédios universitários, pois contrariavam a Igreja, o Estado e as grandes “corporações”, a que alguns intelectuais cooptados pretendem que tenham uma “alma”. [1] 

O problema significativo a ser colocado é o nível de responsabilidade social dos professores e pesquisadores universitários. A não preocupação com as finalidades sociais do conhecimento produzido se constitui em fator de “delinqüência acadêmica” ou da “traição do intelectual”. Em nome do “serviço à comunidade”, a intelectualidade universitária se tornou cúmplice do genocídio, espionagem, engano e todo tipo de corrupção dominante, quando domina a “razão do Estado” em detrimento do povo. Isso vale para aqueles que aperfeiçoam secretamente armas nucleares (M.I.T.), armas químico-biológicas (Universidade da Califórnia, Berkeley), pensadores inseridos na Rand Corporation, como aqueles que, na qualidade de intelectuais com diploma acreditativo, funcionam na censura, na aplicação da computação com fins repressivos em nosso país. Uma universidade que produz pesquisas ou cursos a quem é apto a pagá-los perde o senso da discriminação ética e da finalidade social de sua produção – é uma multiversidade que se vende no mercado ao primeiro comprador, sem averiguar o fim da encomenda, isso coberto pela ideologia da neutralidade do conhecimento e seu produto. 

Já na década de 30, Frederic Lilge [2] acusava a tradição universitária alemã da neutralidade acadêmica de permitir aos universitários alemães a felicidade de um emprego permanente, escondendo a si próprios a futilidade de suas vidas e seu trabalho. Em nome da “segurança nacional”, o intelectual acadêmico despe-se de qualquer responsabilidade social quanto ao seu papel profissional, a política de “panelas” acadêmicas de corredor universitário e a publicação a qualquer preço de um texto qualquer se constituem no metro para medir o sucesso universitário. Nesse universo não cabe uma simples pergunta: o conhecimento a quem e para que serve? Enquanto este encontro de educadores, sob o signo de Paulo Freire, enfatiza a responsabilidade social do educador, da educação não confundida com inculcação, a maioria dos congressos acadêmicos serve de “mercado humano”, onde entram em contato pessoas e cargos acadêmicos a serem preenchidos, parecidos aos encontros entre gerentes de hotel, em que se trocam informações sobre inovações técnicas, revê-se velhos amigos e se estabelecem contatos comerciais. 

Estritamente, o mundo da realidade concreta e sempre muito generoso com o acadêmico, pois o título acadêmico torna-se o passaporte que permite o ingresso nos escalões superiores da sociedade: a grande empresa, o grupo militar e a burocracia estatal. O problema da responsabilidade social é escamoteado, a ideologia do acadêmico é não ter nenhuma ideologia, faz fé de apolítico, isto é, serve à política do poder. 

O pensamento está fundamentalmente ligado à ação. Bergson sublinhava no início do século a necessidade do homem agir como homem de pensamento e pensar como homem de ação. A separação entre “fazer” e “pensar” se constitui numa das doenças que caracterizam a delinqüência acadêmica – a análise e discussão dos problemas relevantes do país constitui um ato político, constitui uma forma de ação, inerente à responsabilidade social do intelectual. A valorização do que seja um homem culto está estritamente vinculada ao seu valor na defesa de valores essenciais de cidadania, ao seu exemplo revelado não pelo seu discurso, mas por sua existência, por sua ação. 

Ao analisar a “crise de consciência” dos intelectuais norte-americanos que deram o aval da “escalada” no Vietnã, Horowitz notara que a disposição que eles revelaram no planejamento do genocídio estava vinculada à sua formação, à sua capacidade de discutir meios sem nunca questionar os fins, a transformar os problemas políticos em problemas técnicos, a desprezar a consulta política, preferindo as soluções de gabinete, consumando o que definiríamos como a traição dos intelectuais. É aqui onde a indignidade do intelectual substitui a dignidade da inteligência. 

Nenhum preceito ético pode substituir a prática social, a prática pedagógica. 

A delinqüência acadêmica se caracteriza pela existência de estruturas de ensino onde os meios (técnicas) se tornam os fins, os fins formativos são esquecidos; a criação do conhecimento e sua reprodução cede lugar ao controle burocrático de sua produção como suprema virtude, onde “administrar” aparece como sinônimo de vigiar e punir – o professor é controlado mediante os critérios visíveis e invisíveis de nomeação; o aluno, mediante os critérios visíveis e invisíveis de exame. Isso resulta em escolas que se constituem em depósitos de alunos, como diria Lima Barreto em “Cemitério de Vivos”. 

A alternativa é a criação de canais de participação real de professores, estudantes e funcionários no meio universitário, que oponham-se à esclerose burocrática da instituição.


Trecho de texto apresentado no I Seminário de Educação Brasileira, realizado em 1978, em Campinas-SP. 

Ler na íntegra em:
http://www.espacoacademico.com.br/014/14mtrag1990.htm

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[1] Kaysen pretende atribuir uma “alma” à corporação multinacional; esta parece não preocupar-se com tal esforço construtivo do intelectual. 

[2] Frederic LILGE, The Abuse of Learning: The Failure of German University. Macmillan, New York, 1948
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domingo, 27 de maio de 2012

Aldo Rebelo é alvo de ovos em Bauru e ainda usa vaga de idoso


Aldo Rebelo (PCdoB), Ministro dos Esportes do Governo Dilma e grande aliado dos ruralistas no projeto do Código Florestal, enfrentou protestos na noite do último sábado (26/05) na saída de um evento em que participou na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), na cidade de Bauru. 

Foram arremessados ovos contra o Ministro, mas nenhum o atingiu. O carro oficial que o levou embora ocupava uma vaga destinada a idosos.

  http://www.youtube.com/watch?v=HC-KRhTNr_8
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