quinta-feira, 24 de março de 2016

Alguns fatos para refletir sobre democracia e garantias constitucionais

.
1. Em 2011, os operários deflagraram greve na Usina Hidrelétrica de Jirau, em Rondônia, devido às condições degradantes de trabalho. A resposta do governo Dilma foi atender ao pedido das empreiteiras reprimindo a greve com a Força Nacional e indicando (junto com a burocracia sindical) que, por haver “gente demais” no canteiro de obras, alguns operários deveriam ser demitidos, o que acabou acontecendo com vários deles [1]. No ano seguinte os operários de Jirau voltaram a fazer greve, com a mesma pauta, no que foram acompanhados pelos operários de Santo Antônio. Considerados “vândalos” e “bandidos” pelo então Ministro-Chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho [2], os operários foram novamente reprimidos pela Força Nacional, 24 foram presos e 10 desapareceram! Os operários ainda tiveram que passar pelo constrangimento de trabalhar sob a mira do fuzil do Exército e da Força Nacional que ocuparam o canteiro de obras. [3]

2. Em 2012, Dilma aprovou uma proposta do General Enzo Peri que previa a militarização das lutas sociais. Com o irônico nome de “PROTEGER” o sistema visava “proteger” mais de 13.300 locais entre hidrelétricas, termelétricas, refinarias, estradas, telecomunicações, portos, aeroportos e o que mais for considerado “estratégico”, sendo que grande parte desses setores estão em mãos privadas e são palcos frequentes de conflitos sociais, como é o caso das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O site Defesanet justificativa nesses termos tal sistema:

"O Brasil terá um sistema completo de proteção das instalações estratégicas do País, que será capaz de evitar invasões como a que ocorreu na usina hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, em fevereiro de 2008 (...), quando integrantes do movimento dos atingidos por barragens chegaram à sala de operações e ameaçaram parar a distribuição de energia em grande parte do País." [4]

3. Em 2013 foi descoberto um esquema de infiltração montado pelo governo Dilma para espionar o Movimento Xingu Vivo, que defende a causa indígena [5]. Em uma das mobilizações indígenas na região o governo não se contentou apenas com a negativa em negociar [6], mas enviou a Força Nacional [7], censurou jornalistas por registrar a repressão [8] e abriu um inquérito, via Polícia Federal, para apurar quem eram os não indígenas que participaram do ato, em uma clara tentativa de quebrar a solidariedade de outros setores com os índios [9].

4. No mesmo ano foi descoberta outra operação de espionagem montada pelo governo federal do PT. Denominada “Gerenciamento de Risco”, a operação era coordenada pelo Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência da República e era executada pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Tinha como objetivo espionar a movimentação sindical dos trabalhadores do Porto de Suape, em Pernambuco, que lutavam contra a privatização do mesmo [10].

Na ocasião a GSI não só justificou a espionagem de Suape como deixou claro que a operação não se restringia ao porto pernambucano, afirmando que “acompanha, diuturnamente, em torno de 700 cenários institucionais, inclusas as estruturas estratégicas do País, para prestar assessoria, no momento oportuno, às autoridades governamentais sobre assuntos de interesse nacional.” [11]

O então Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, não se acanhou de apontar que o problema era o direito democrático de greve:

“Porto é uma coisa que não pode parar, vocês sabem (a importância) disso para a economia. Era mais que legítimo que a Abin passasse para nós informações dos riscos: 'Olha, pode paralisar o porto.' E a repercussão disso na economia, qual é?"” [12]

5. No mesmo ano de 2013 o governo Dilma aliou-se a governos tucanos e peemedebistas para reprimir as jornadas de junho, tendo sido emblemático o envio de tropas da Força Nacional a Belo Horizonte, a pedido do tucano Antonio Anastasia, parceiro e sucessor de Aécio Neves [13].

6. No final de 2013 ainda ocorreu a privatização da bacia petrolífera de Libra, cujo aparato repressivo contou com as presenças da Guarda Municipal, Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Federal, Força Nacional, Exército e Marinha [14], uma verdadeira operação de guerra que superou o Governo Fernando Henrique, que enviou o Exército contra os petroleiros em 1995.

7. Para fechar o referido ano o governo Dilma edita a Portaria Normativa 3.461 /MD, de 19 de dezembro de 2013, que dispõe sobre a "Garantia da Lei e da Ordem", que prevê a utilização das Forças Armadas para reprimir o povo. [15]

8. Em 2014, dois dias após vir a público um vídeo onde os deputado federais gaúchos, Luis Carlos Heinze (PP) e Alceu Moreira (PMDB), atacavam índios, quilombolas, gays e lésbicas, os Tupinambás, em Olivença, na Bahia, denunciavam ao país que o governo Dilma havia rompido seu compromisso de negociação com os mesmos e que havia enviado o Exército para garantir o estelionato. [16]

Dados divulgados pelo Conselho Indigenista Missionário (CIMI) evidenciam como a questão indígena vem sendo tratada pelos governos petistas: 560 índios foram assassinados durante suas gestões (452 nos anos Lula e 108 nos de Dilma – por enquanto), uma média de 56 por ano, um aumento de 269% em relação aos Governos de Fernando Henrique Cardoso, quando 167 índios foram assassinados, uma média de 20,8 ao ano. Os governos petistas também perdem para o de Fernando Henrique na homologação de terras indígenas: 84 contra 148, conforme informado pela Fundação Nacional do Índio (Funai). [17]

9. Nos Estados os governos do PT e seus aliados promoveram inúmeras ações repressoras como a infiltração de agentes da Brigada Militar no piquete de greve dos Correios, em Porto Alegre, em 2013 [18]; a descoberta de grampo telefônico dos advogados de defesa de ativistas no Rio de Janeiro, em 2014 [19]; a ação policial na favela da Maré, no Rio de Janeiro, em 2013, que vitimou pelo menos 13 pessoas [20]; os agentes policiais infiltrados aos montes nos atos das jornadas de junho de 2013 nos Estados; além da defesa da militarização das favelas através das Unidades de Polícias Pacificadoras (UPPs), que apesar da nomenclatura, não evitou o assassinato em suas barbas por forças policiais de inocentes como Amarildo, Cláudia e Douglas (DG) [21] e ainda facilitou as remoções forçadas daqueles que não têm onde morar para beneficiar as empreiteiras da Lava Jato e a especulação imobiliária [22].

10. Enquanto alguns gritavam nas ruas “não vai ter golpe”, uns de forma honesta, outros malandramente, a Presidente Dilma respondia sancionando um Projeto de Lei de terrorismo de sua própria autoria, cuja definição de terrorismo é tão ampla que criminalizará greves, ocupações e manifestações de qualquer tipo [23]; envia ao Congresso Nacional um plano de acordo de ajuste fiscal brutal com os Estados no melhor estilo FMI [24] e consegue a aprovação de uma Medida Provisória (MP 699) que poderá punir manifestações que bloqueiem vias públicas [25].

11. E como se já não bastasse toda essa repressão governamental antidemocrática e que viola garantias constitucionais básicas a esquerda tem se deparado com a hostilidade dos próprios militantes governistas. A sede do PSOL, em Porto Alegre, amanheceu pichada com calúnias no dia 7 de março, após ato governista no dia anterior [26] e no 8 de março, militantes de esquerda foram agredidas por governistas em São Paulo, em ato do Dia Internacional das Mulheres [27].

Os fatos mostram o perigo de se defender a democracia no abstrato e mais ainda quando tal defesa se ampara no medo. As garantias democráticas já são sistematicamente violadas com métodos que lembram a ditadura civil-militar e não precisou chegar um governo de direita para “sobrar para toda a esquerda”.

Como se pode perceber a esquerda e os movimentos sociais e sindicais já estão no sufoco há um bom tempo e pelas mãos de ferro do próprio PT e da “democracia” que agora ele convoca para ser defendida.



____________________________________________________________________

[1] Trabalhadores da Hidrelétrica de Jirau serão demitidos. 15/04/2011.

[2] Gilberto Carvalho taxou operários de bandidos e ordenou repressão a greve. 28/01/2013.

[3] Operários mortos e desaparecidos em obras das usinas de Jirau e Santo Antônio. Julio Cesar de Castro. Correio da Cidadania, 26/09/2014.

[4] PROTEGER - Governo terá plano de proteção de R$ 9,6 bi. Defesanet, 29/07/2012.

[5] Funcionário de Belo Monte é flagrado espionando Xingu Vivo para informar ABIN. Xingu Vivo, 25/02/2013.

[6] Governo não irá negociar com índios que ocuparam Belo Monte. Sul21, 07/05/2013.

[7] "O governo perdeu o juízo", afirmam indígenas. Xingu Vivo, 07/05/2013.

[8] Dois jornalistas são expulsos e um é multado por cobrirem ocupação de Belo Monte. Xingu Vivo, 05/05/2013.

Deputado é impedido pela polícia de conversar com indígenas; imprensa é barrada; militares 'negociam' em nome do governo. Xingu Vivo, 05/05/2013.

[9] Polícia Federal vai investigar participação de não índios em ocupação de Belo Monte. Sul21, 06/05/2013.

[10] Abin monitora movimento sindical no Porto de Suape. Estadão, 04/04/2013.

[11] Gerenciar crises é obrigação, afirma gabinete. Estadão, 04/04/2013.

[12] Carvalho: Abin monitorou Suape por razões econômicas. 10/04/2013.

[13] Governo de MG pede, e Dilma envia 150 homens da Força de Segurança. UOL Notícias, 18/06/2013.

[14] Mais de 1.100 agentes de segurança atuarão no leilão do Campo de Libra. Sul21, 18/10/2013.

Exército já ocupa frente de hotel onde ocorrerá leilão do pré-sal. Sul21, 20/10/2013.

[15] Portaria Normativa 3.461 /MD, de 19 de dezembro de 2013.

[16] O Exército Brasileiro em Território Tupinambá de Olivença – O uso sistemático do terror para oprimir ou impor a vontade. Indios Online, 14/02/2014.

[17] Assassinatos de indígenas no Brasil crescem 269% nos governos Dilma e Lula. Último Segundo, 07/06/2013.

[18] Agentes da Brigada Militar infiltrados (P2) no Piquete da Greve dos Correios. 30/08/2013.

[19] Grampo de celulares da defesa de ativistas alarma OAB. 23/07/2014.

[20] As jornadas de junho a outubro. Uma invenção potentíssima da paz. Eduardo Baker, Bruno Cava e Giuseppe Cocco. IHU Unisinos, 25/11/2013.

RJ: Após manifestação, operação do Bope em favela deixa 13 mortos. 25/06/2013.

[21] A UPP matou a Claudia, o Amarildo e o DG. 09/04/2015.

[22] Domínio Público. Documentário 2011-2014.

[23] Dilma sanciona lei sobre terrorismo em meio à grande crise política. Esquerda Diário, 18/03/2016.

[24] Governo apresenta medidas de reforma fiscal. 21/03/2016.

[25] Câmara aprova MP que pode punir bloqueio de via em manifestação. 22/03/2016.

[26] NÃO ACEITAMOS PROVOCAÇÕES: O PSOL É OPOSIÇÃO DE ESQUERDA! Israel Dutra e Bernardo Correa Correa. 08/03/2016.

[27] Ato do 8 de março em SP | Defensores de Dilma e Lula agridem mulheres que criticam o governo, mas não calam a primavera feminista. 09/03/2016.


.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

A esquerda "olavete"


.
Alguns setores da esquerda são “olavetes” mas com uma postura diametralmente oposta. Explico: assim como o astrólogo direitista enxergam germens de esquerda, progressismo e até socialismo em qualquer porcaria, porém, ao contrário dele, apóiam essas porcarias de forma apaixonada.

Alegam acúmulo de forças mas só empilham derrotas, desmoralizações e geram desmobilização da classe. Alguns são arrivistas que se escondem atrás de teorias supostamente táticas, outros são baratas tontas despreparadas teoricamente. Depois dos governos “progressistas” sul-americanos a porcaria do momento se chama Bernie Sanders!

A esquerda “olavete” não aprende com seus próprios erros. Alguns se dizem marxistas mas sua prática política oportunista e desorientada nega os princípios elementares defendidos por Marx e Engels. Ainda chamam de sectários aqueles que se baseiam nos clássicos!


.

domingo, 17 de janeiro de 2016

CUT rouba assembleias para enterrar greves

.
O aprofundamento da crise econômica aliado ao compromisso com a governabilidade do governo Dilma, cuja estabilidade aos olhos das classes dominantes depende da aplicação do ajuste fiscal, tem feito com que os dirigentes sindicais governistas, principalmente os cutistas, não consigam mais dissimular suas reais intenções.

Se já não bastava colaborarem com o governo petista através de medidas de ajuste fiscal como a fórmula 85/95 para adiar a aposentadoria e o mal chamado PPE (Plano de Proteção ao Emprego) que na verdade visa garantir os lucros das empresas e abandonarem as lutas das suas bases mas ir para as ruas defender o governo, agora as burocracias sindicais governistas têm apelado para o roubo descarado de assembleias para encerrar greves e facilitar o trabalho dos governos e patrões.

Em 11 de setembro de 2015, em assembleia da categoria, a direção do sindicato dos trabalhadores em educação do Estado do Rio Grande do Sul (CPERS) encerrou na marra uma greve cuja maioria dos presentes votou pela sua continuidade e cujo movimento vinha conseguindo evitar a aprovação das medidas de ajustes fiscais do governador José Ivo Sartori (PMDB). Na ocasião a direção do sindicato rejeitou realizar a contagem dos votos solicitada pelos presentes.

Pouco mais de um mês depois do ocorrido no sul do país foi a vez do Sindicato dos Bancários aplicar o mesmo golpe em São Paulo, como pode ser visto no vídeo abaixo.

O papel cada vez mais reacionário desses dirigentes sindicais governistas mostra a necessidade de se fortalecer as lutas desde a base das categorias e a formação e fortalecimento de um frente política independente e classista para poder lutar de forma consequente contra o ajuste fiscal dos governos e dos patrões.

Foi se organizando desde a base e com independência dos governistas degenerados que os jovens estudantes de São Paulo derrotaram o fechamento de escolas desejado pelo governador tucano Geraldo Alckmin e apoiado pelo petista Aloizio Mercadante, Ministro da Educação de Dilma. Na ocasião tiveram que expulsar os governistas da UNE de seu movimento.




_________________________________________________________

Sindicato de bancários da CUT dá golpe em assembleia para enterrar a greve. Esquerda Diário, 27/10/2015.


.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Giro à esquerda? Dilma acaba com as ilusões!

.
Na última quinta-feira (07/01), durante café da manhã com jornalistas que cobrem o Palácio do Planalto, a Presidente Dilma Rousseff respondeu a uma série de perguntas, mas chamou a atenção a sua declaração negando uma possível guinada à esquerda nos rumos da economia do país.

A afirmação da própria Dilma é um duro golpe nos últimos vestígios de ilusões de que seu governo pudesse dar um giro à esquerda. E para não deixar dúvidas a Presidente defendeu um ajuste fiscal com mudanças na Previdência, em regras trabalhistas, mais privatizações de infraestrutura, volta da CPMF e renovação da DRU (Desvinculação de Receitas da União) – medida que permite ao governo cortar até 20% das áreas sociais, como saúde e educação, para fazer superávit primário e encher os bolsos dos banqueiros e especuladores, que continuam batendo recordes de lucros mesmo com a crise econômica. [1]

Como já havia deixado claro a própria Dilma [2] e o ex-presidente Lula [3], o ajuste fiscal não era de Joaquim Levy mas do governo petista. Logo, a sua saída e a entrada de Nelson Barbosa não poderia alterar esse panorama, como chegaram a acreditar alguns.

Desmanchadas as ilusões e antecipado que 2016 será um ano de duros ataques cresce a necessidade de que a esquerda brasileira forme um terceiro campo - independente de governistas, demotucanos e direitistas – para enfrentar o duro ajuste fiscal que Dilma e as classes dominantes querem impor aos trabalhadores e às classes populares. Um terceiro campo classista, vinculado às lutas reais do povo e não baseado em meros acordos de cúpulas e aparatos.

O levante dos jovens estudantes de São Paulo, que derrotou o fechamento de escolas do tucano Geraldo Alckmin apoiado pelo petista Aloizio Mercadante [4], mostrou que é em aliança com as classes populares e trabalhadoras que se pode levar a luta contra os planos de ajustes até as últimas consequências e não compondo frentes políticas com governistas degenerados como a CUT, a CTB e a UNE – organizações que colaboram com o ajuste fiscal e que abandonam as lutas de suas próprias bases para defender o governo do ajuste fiscal.

A seguir trechos importantes da coletiva de Dilma.


Medidas de ajuste

Jornalista: Catarina Alencastro, d’O Globo. O ministro Jaques Wagner ontem disse que não tem um coelho na cartola para salvar a economia. Eu queria saber qual é a estratégia econômica que o governo está programando para esses próximos tempos. Obrigada.

Presidenta: (…) A curto prazo nós temos, nos próximos três meses, ações que nós vamos perseguir. Primeira ação - eu vou tentar sintetizar em três -, mas a primeira ação: nós temos que aprovar as medidas provisórias, tributárias que estão no Congresso. Uma que além… que a gente pode sintetizar chamando de juros sobre capital próprio, ou seja, uma alteração nas condições de tributação dos juros sobre capital próprio; e a outra, sobre ganhos de capital. Além dessas duas medidas tributárias, é fundamental - depois a gente pode fazer uma fala só sobre essa questão - a aprovação da DRU e da CPMF. Essas são as medidas de curto prazo na esfera tributária.

Além disso, nós temos como segunda medida, também nesse período, nós vamos ter, maturando, vários projetos nossos que foram construídos ao longo do ano passado e que vão desaguar em concessões de aeroportos, de portos, de ferrovias. E já começou no setor de energia elétrica e a gente pretende continuar. No setor de energia elétrica, nós tivemos R$ 17 bilhões de recursos provenientes da licitação das concessões, dando R$ 11 bilhões agora no início do ano e R$ 6 bilhões na metade do ano.

(…)

Nessa área, também, nós vamos começar a encaminhar uma série de questões que são fundamentais, que eu chamaria de grandes reformas. Primeira grande reforma: nós vamos encarar a reforma da Previdência, sempre considerando que a reforma da Previdência ela tem a ver com uma modificação, primeiro, na idade e no comportamento etário da população brasileira. Nós estamos envelhecendo mais e morrendo menos. Então, nossa expectativa de vida, nos últimos anos, aumentou talvez de forma bastante significativa, em torno de 4,6 anos. Isso implica que é muito difícil você equacionar um problema. Não é possível que a idade média de aposentadoria no Brasil seja 55 anos, para mulher um pouco menos. Não é possível, não por nenhuma avaliação qualitativa, mas por uma questão quantitativa. Vai ter menos gente trabalhando no futuro para sustentar mais gente sem trabalhar, quais sejam, os mais velhos, que vão ter uma longevidade maior, eu aí inclusa, e os mais novos, que estão nascendo.

Esta é uma equação que atinge todos os países desenvolvidos e emergentes: quando aumenta a renda, isso começa a ocorrer. Então, o Brasil vai ter que encarar a questão da Previdência. Você tem várias formas para encarar a questão da Previdência. Os países desenvolvidos, e não falo os emergentes, que os grandes emergentes não têm nem assim nenhuma política clara de aposentadoria comparável com a nossa, mas todos eles buscaram aumentar a idade de acesso, a idade mínima para acessar a aposentadoria. Tem esse caminho. Tem um outro caminho também, que é o 85/95 móvel, progressivo, que resultará na mesma convergência. Em todos os dois casos, uma coisa vai ter que ser considerada, que é a seguinte: não se pode achar que se afeta direitos adquiridos. A estabilidade, a segurança jurídica consiste em você garantir que as coisas nunca afetem daqui para trás, mas daqui para frente. No caso da Previdência, além disso tem um outro problema. Que nós vamos ter de encarar com muita seriedade e tranquilidade, que é problema do tempo de transição. Ninguém vai fazer um programa desses, uma reforma dessas, porque ela implica em razões técnicas e também em consenso político. Sem que você considere que o período de transição que leva em conta tanto direitos adquiridos quanto expectativas de direitos daqueles que já estão no mercado de trabalho, e que você deve considerar esta questão de forma sustentável, ou seja, não é em qualquer caso, mas de forma sustentável, é o que definirá um período de transição.

Então, tem algumas questões que são fundamentais nesta questão da Previdência. Nós pretendemos abrir esse debate chamando o Fórum de Trabalho e Previdência, que é um fórum quadripartite - que é trabalhadores, empresários, governo e Congresso. Nós também vamos levar essa discussão dentro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social [CDES]. Nós vamos levar essa discussão com todos os setores. Por que isso? Porque a base para que uma reforma de Previdência seja sustentável no Brasil é o diálogo. É perceber que se terá de escutar os diferentes segmentos. Tendo clareza que há um problema real, que a solução para ele não pode passar por você se esconder dele. Mas para você enfrentá-lo e procurar construir os caminhos mais adequados para que todos tenham um consenso básico sobre essa questão.”


Sem guinada à esquerda

Jornalista: Presidente, Marina Dias, da Folha de São Paulo. O PT tem exigido algumas mudanças na condução da política econômica e fala até numa guinada à esquerda, para que a base social continue defendendo o mandato da senhora. Eu queria saber se a senhora pretende fazer uma guinada à esquerda ou se vai fazer algum aceno para alguma reivindicação do PT, que critica propostas defendidas pelo governo, inclusive, a reforma da Previdência que a senhora está defendendo.

Presidenta: Olha, a discussão nem começou. Então, eu não acho que há de forma clara propostas na mesa. Eu não acho que nós aqui estamos num país que que será assim integrado só por pessoas que pensam tudo igualzinho. Pelo contrário, acho que a complexidade da nossa democracia está no fato da gente ser capaz de construir os consensos que levarão a bom termo os desafios que nós temos. Nesse sentido, eu acho muito bom que o PT tenha as suas posições. Agora, o governo não responde só ao PT, só ao PMDB, só a qualquer um dos partidos da base aliada.

Responde a todos, mas também responde à sociedade e às necessidades da sociedade. Eu acho que a participação dos partidos numa democracia é essencial, ela dá estabilidade, ela permite que você dialogue com diferentes segmentos da população. Então, as propostas do PT o governo vai tratar com muita consideração como fará com as demais propostas; as do PMDB, as do… nenhum partido dentro dos partidos que integram a base pode superar outro partido, nós vamos tratar de todos, de todas as posições.

Jornalista: … dar uma guinada à esquerda a senhora…

Presidenta: Olha, para mim eles nunca falaram isso. Se falaram para você, você responda. Mas para mim…

Jornalista: (incompreensível)

Presidenta: … isso eles podem fazer não é, gente? Eu também solto nota e não consulto ninguém. Todo mundo pode soltar nota. O que eu estou falando é o seguinte: não houve esta discussão entre nós.”


Não se manifesta sobre juros

Jornalista: Presidenta, por gentileza, Bruno Peres, do Valor Econômico. Eu queria saber se a senhora tem alguma restrição à elevação de juros pelo Copom na próxima reunião? Porque, até então, a sinalização era de uma alta e agora, em função da atividade econômica fraca, pode ser que seja mantida a expectativa pela manutenção.

Presidenta: Eu, há muito tempo não me manifesto sobre juros…

Jornalista: A avaliação da senhora…

Presidenta: Eu não me manifestar inclui não analisar, não falar e não tecer qualquer consideração. Por um motivo muito simples: esta é uma área muito delicada para alguém ficar dando palpite. Eu sei que todo mundo dá palpite nessa área. Agora, os palpites são diferentes, não é adequado para que alguém do governo que não seja o presidente do Banco Central, trate disso. Não acho adequado. E nem terá autorização do governo para fazer.”


Apelo à oposição

Jornalista: Pois não, está na lista também, presidenta. Está anotado. Eu pergunto à senhora: nós estamos iniciando um ano eleitoral, em que a questão da popularidade da senhora vai influir muito na competitividade dos candidatos petistas, assim como dificilmente o Congresso votará medidas que considere impopulares. Eu lhe pergunto: a oposição, ainda ontem, eu entrevistei um líder importante da oposição que, de certa forma, festejou o fato da senhora querer mudar regras da Previdência numa altura dessas do campeonato. Disse que isso é “um suicídio político”, que a senhora estaria brigando com parte importante das bases de apoio, tanto do PT quanto do governo. A senhora acha que, realmente, há viabilidade política de aprovar no Congresso regras, mudanças profundas, estruturais, tanto na Previdência quanto na área trabalhista, segundo a gente tem informação, tem notícia de que é intenção da área econômica?

Presidenta: Olha, nessa questão das alterações da Previdência, eu acho que a oposição no Brasil, ela tem que ter, um certo, pelo menos um mínimo, de compromisso com o País. Se não tiver, se os partidos políticos de oposição não tiverem um mínimo de compromisso com o País, eu acho que a sociedade brasileira tem maturidade suficiente também para lhes fazer a crítica. Por quê? Porque estariam tendo um comportamento que coloca os seus interesses eleitorais na frente dos interesses do País.

Acho que a discussão sobre a questão da Previdência tem que ser respeitosa em relação aos trabalhadores, aos empresários, aos parlamentares e aos diferentes partidos. Agora, esse respeito é no sentido de se procurar criar um melhor consenso possível. Acho que as responsabilidades são do governo, em propor. Mas também a responsabilidade é da oposição em encaminhar ou de um jeito do “quanto pior, melhor”, que tem sido a característica no último ano, ou ter uma atitude construtiva com o País. Você pode fazer oposição, sim, você deve fazer oposição.

Aliás, se não tiver oposição a democracia não tem sentido. Mas há que ter também consideração pelos interesses gerais que regem a vida econômica e social do País. Então, eu te digo uma coisa: acho que a crise de representatividade que muita gente fala que há em relação à democracia, uma das razões dela é essa: é que os interesses são filtrados por interesses menores. Os maiores são filtrados pelos menores. Ou seja, se é importante para o País e não é uma coisa que você vai resolver amanhã ou depois de amanhã, é algo que você vai resolver num horizonte de 20, de 15 de 10 anos. Se isso não pode ser feito e sinalizar uma situação de instabilidade para o País, então o que é possível fazer? Eu devolvo a pergunta.”


Migalhas para a agricultura familiar (aproximadamente 15,5% dos recursos)

Presidenta: (…) Nós demos R$ 186 bilhões do setor da agricultura comercial, quase R$ 28,9, para o setor de agricultura familiar.”


Na íntegra:
Entrevista coletiva concedida pela Presidenta da República, Dilma Rousseff, durante café da manhã com jornalistas - Palácio do Planalto. Portal Planalto — publicado 07/01/2016 19h35, última modificação 07/01/2016 19h35.

_______________________________________________________

[1] Lucro dos bancos 2015. Tabelas mostram até o 3° trimestre. Acessado em 10/01/2016.

[2] Dilma defende Levy e ajuste fiscal. 24/05/2015.

[3] Para quem o governismo apontará o dedo agora? 01/11/2015.

[4] Mercadante do PT defende fechamentos de escolas pelo PSDB em SP. 28/10/2015.


.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Sartori aprofunda os ataques no final do ano

.
O governador Sartori (PMDB) convocou os deputados estaduais para sessão extraordinária no dia 28 de dezembro para apreciação de 31 projetos dos quais 27 foram aprovados - entre eles a extinção da Fundação de Esporte e Lazer do Rio Grande do Sul (Fundergs), extinção ou privatização da Companhia Estadual de Silos e Armazéns (Cesa) sem realização de plebiscito como previa a Constituição Estadual e uma Lei de “Responsabilidade” Fiscal Estadual que considera apenas os gastos com os serviços públicos que atendem a população excluindo os gastos com a dívida pública e as isenções fiscais. [1] Os outros 4 projetos restantes serão apreciados em 2016.

A sessão extraordinária durou das 15h30 até às 04h06 [ibidem] garantindo um dinheirinho extra nada modesto para os deputados enquanto os servidores têm seus salários parcelados e precisam fazer empréstimo do próprio 13º salário [2] se não quiserem esperar até o segundo semestre de 2016 para começar a receber o mesmo em 6 parcelas!

Não bastasse a covardia de enviar uma série de projetos no final do ano, apostando na distração popular, o governo Sartori mostrou todo o seu autoritarismo ao sitiar mais uma vez a Assembleia Legislativa com pelo menos 7 batalhões da Brigada Militar (incluindo o Batalhão de Operações Especiais), em um total de 160 homens [3], e ainda restringiu com parcas senhas a entrada no parlamento deixando as galerias vazias.

O fato, que lembra períodos obscuros da história política brasileira, evidencia a essência das instituições do regime da democracia burguesa que não vacila em adotar medidas repressivas para garantir a aprovação daquilo que desejam as classes dominantes, reais representadas no parlamento burguês. Nada é mais falso do que chamar esse antro de “casa do povo”.

Aliás, nada mais previsível do que o fechamento cada vez maior do regime político em um momento em que as classes dominantes necessitam atacar, através de suas instituições “democráticas”, os direitos da maioria do povo. Tem sido assim na maioria dos países que aplicam o chamado ajuste fiscal, por que seria diferente por aqui?

Parte integrante das classes dominantes locais, o jornal Zero Hora de Porto Alegre, do Grupo RBS (afiliada da Globo), celebrou os ataques do governo Sartori:

a maioria da Assembleia Legislativa deu uma demonstração firme de compromisso com a sociedade gaúcha como um todo ao aprovar as propostas do governo Sartori (...)” [4]

Como sempre a burguesia apresenta seus interesses de classe como universais de toda a sociedade. Mas a farsa é insustentável, afinal como conciliar a atuação comprometida de um parlamento com a “sociedade como um todo” e esse mesmo parlamento ter que ser sitiado para se proteger dessa mesma sociedade? A contradição não tarda a se revelar:

Faz tempo que o Rio Grande agoniza na UTI da negligência histórica, do corporativismo egoísta e do desgoverno. Só sairá dessa crise com tratamento de choque e remédios amargos, como a Lei de Responsabilidade Fiscal Estadual, aprovada na madrugada desta terça-feira.” [ibidem]

Para o problema estrutural do Estado “tratamento de choque” e “remédios amargos” que obviamente não serão provados pela RBS mas pelos servidores e pelas classes populares, ou seja, a maioria da “sociedade como um todo” será penalizada para garantir os privilégios da minoria de sempre. Depois um veículo de mídia desses, que já celebrou a “liquidação” da dívida estadual no governo Britto [5], reclama quando hostilizada pelo povo nas ruas como nas jornadas de junho de 2013.


O papel das burocracias sindicais

Em seus discursos a burocracia sindical denunciava que Sartori havia escolhido o final do ano para a sequência de ataques pelo fato da data favorecer a distração popular e, principalmente, a desmobilização da categoria, já que muitos estariam se preparando para as férias e festas de final de ano.

É verdade que muitos governantes aproveitam as datas festivas e de final de ano para aprovar suas maldades. A própria Dilma fez isso no dia 29 de dezembro de 2014 quando anunciou, em Medidas Provisórias (MP), ataques ao seguro desemprego, abono salarial, auxílio doença, pensão por morte e seguro defeso. [6]

Mas no caso do Rio Grande do Sul, e tendo saído da boca dos burocratas, tal explicação é não apenas incompleta mas na verdade trata-se de uma desculpa esfarrapada que visa encobrir o papel nefasto desempenhado por esses burocratas que não mobilizaram as categorias de servidores para o dia 28 de dezembro – tendo por exemplo a direção do CPERS se limitado a gravar um vídeo para o site e o Facebook – e ainda destruíram o poderoso levante dos servidores quando, em agosto e setembro, estes estavam mobilizados e evitando a aprovação das medidas de ajustes do governo Sartori.

A burocracia sindical, notadamente a CUT e a CTB, está mais preocupada com o compromisso de defender Dilma do que representar a base de suas categorias. Se essas centrais e seus dirigentes não mobilizaram os servidores estaduais contra os últimos parcelamentos de salários e o calote no décimo terceiro [7], por outro lado, foram para as ruas defender Dilma, outro governo do ajuste fiscal, de um golpe imaginário. [8]

Enquanto isso o verdadeiro golpe já havia sido pactuado, quando, no dia 30 de julho de 2015 a Presidente Dilma se reuniu com todos os governadores, inclusive Sartori, para acordar a defesa recíproca do ajuste fiscal:

“Conto com vocês. Quero dizer, do fundo do coração, que vocês podem contar comigo. Há muito que nós sabemos que o Brasil se passa nos estados e nos municípios. Se nós não tivermos um projeto de cooperação federativa, em que nos articulemos e façamos com que ela dê frutos e resultados, não estaremos trilhando o bom caminho. O bom caminho é aquele da cooperação.” [9]

As palavras que Dilma dirigiu aos governadores deixou um recado claro: o meu ajuste depende do de vocês, logo, precisamos nos ajudar.

A burocracia sindical governista captou muito bem a mensagem. E, se já colaboravam diretamente com medidas de ajustes (como a defesa da fórmula 85/95 para aposentadoria e flexibilização de direitos trabalhistas mascarados de defesa dos empregos), passaram a atuar de forma mais aberta para amortecer, estancar e derrotar as revoltas populares e das bases das categorias de trabalhadores em greve. Por isso, a direção do CPERS não teve o mínimo pudor de encerrar na marra a greve dos trabalhadores em educação, apesar da maioria presente na assembleia do dia 11 de setembro de 2015 optar pela continuidade da greve.

O aprofundamento da crise econômica aliado ao compromisso com a governabilidade do governo federal escancara ainda mais o caráter governista e reacionário de centrais como a CUT e a CTB que abandonam as suas bases para defender o governo e tentam implodir as revoltas de suas categorias para não prejudicar a aplicação do ajuste fiscal, seja de Dilma, seja de governadores como Sartori.

2016 não será um ano fácil. O governo Sartori já anunciou que não garante o pagamento em dia dos salários [10] e ainda por cima vai buscar aplicar as medidas aprovadas no final do ano e tentará aprovar novos projetos e medidas de ajustes. Será necessário um novo levante da base dos servidores estaduais e da população gaúcha que derrote a burocracia sindical e os planos de Sartori. Ainda há tempo! Ainda é possível!

________________________________________________

[1] Veja como ficou o placar da votação dos projetos da sessão extraordinária da Assembleia. 29/12/2015.

Confira como os deputados votaram em projetos polêmicos aprovados na Assembleia. 29/12/2015.

[2] Segundo Feltes, o empréstimo e o juro são uma relação entre Banrisul e clientes. 16/12/2015.

[3] Mais de cem BMs cercam Assembleia para impedir entrada de servidores durante a sessão. 28/12/2015.

[4] Amargo, mas necessário. 29/12/2015.

[5] “Rio Grande liquida a dívida” era a manchete de capa do Jornal Zero Hora em 21 de setembro de 1996. (Bloqueio de contas é regra do acordo da dívida firmado pelo governo Britto. Marco Weissheimer. Publicado no Portal Sul21 em 12/08/2015:

O acordo da “liquidação” acabou por elevar em 122% a dívida estadual como constatado ao final do governo Britto.

[6] Governo aperta o cerco contra abusos na concessão de seguro-desemprego e outros benefícios. 29/12/2014.

[7] A ação mais ousada da direção do CPERS diante do calote do 13º salário foi a publicação de uma “Moção de Repúdio” em 22 de dezembro de 2015.


[8] Direção do CPERS participa do Dia Nacional de Luta. 16/12/2015.

[9] Dilma diz a governadores que país passa por transição e o ‘bom caminho’ é o da cooperação. 30/07/2015.

[10] Governo do Estado não garante pagamento de salários em dia em 2016. 30/12/2015.


Leia também:
A crise do Rio Grande do Sul e os seus responsáveis.

.

domingo, 8 de novembro de 2015

"Jogo da direita" e "linha auxiliar": duas faces do mesmo discurso

.

Babá, membro da Corrente Socialista dos Trabalhadores (CST) e vereador pelo PSOL-RJ
 

04/11/2015


Vou começar tratando o tema da impopularidade recorde do governo do PT e de algumas figuras tais como Bolsonaro, Danilo Gentili, Rachel Sheherazade, Silas Malafaia, Marcos Feliciano, Alexandre Frota, Wanderlei Silva e outras figuras deploráveis que tentam ganhar audiência em cima disso.

É fato que o povo brasileiro não aguenta mais o governo do PT. Contudo, a indignação popular nada tem a ver com o que propagam estas "personalidades". A população está insatisfeita com o governo porque os salários estão defasados diante da inflação; estão mais caros os alimentos, as contas de luz e as tarifas de transporte; as verbas da saúde e educação sofrem cortes brutais; direitos trabalhistas históricos foram retirados e restringidos; as empreiteiras faturam com a corrupção e os bancos faturam ainda mais com ajuste fiscal.

O desgaste do governo da Dilma não tem qualquer relação com implantação do comunismo, da revolução bolivariana, com haitianos vivendo no país, com Cuba ou Bolívia. Isso tudo é bobagem desqualificada de quinta categoria para tentar ludibriar a população, como tentam fazer crer estas "celebridades" efêmeras, algumas delas decadentes tentando reaparecer a todo custo.

O governo da Dilma tem um ministro da Economia ultra-liberal, agente direto do sistema financeiro, uma ministra da Agricultura representante do agronegócio (não gente, não é um sem-terra que é ministro), velhos corruptos e filhotes da ditadura, como Maluf e Collor, na base aliada.

As pesquisas mostram que a impopularidade do governo é bastante uniforme, independente de faixa de renda, idade, região e escolaridade. Ou seja, a insatisfação com o governo não é algo restrito a setores ditos abastados, como sugerem os petistas. As mesmas pesquisas mostram que as pessoas de baixa renda, mais jovens e da classe trabalhadora não se identificam com as manifestações pelo impeachment convocadas pela velha direita. E certamente, não é porque elas gostem do governo. Simplesmente, essas pessoas não veem suas pautas representadas nessas manifestações e desconfiam das alternativas de poder propostas nestes atos.

Não por acaso, as pesquisas também mostram que milhões de pessoas não votariam em Lula para presidente, assim como não votariam em Aécio, Marina e José Serra, por exemplo. Os que defendem a volta do regime militar (a tal da intervenção militar constitucional, prevista em lugar nenhum), promovem atos que reúnem meia dúzia de gatos pingados, em geral lunáticos raivosos, histéricos e desinformados que compartilham diariamente toneladas de informações falsas sem qualquer credibilidade. As pesquisas dizem que mesmo nas manifestações convocadas pela direita por impeachment, a esmagadora maioria não defende retorno ao regime militar e quer serviços públicos, gratuitos e de qualidade (nada de "Estado Mínimo", antes que os liberais se animem).

Essa gente, que fala em volta dos militares ao poder, faz o jogo do governo inclusive. Eles facilitam a vida para o governismo se dizer perseguido pelas "elites", falar em ameaça de "golpe" e tentar posar de esquerda, mesmo governando com medidas reacionárias, umas após outras, e não havendo qualquer setor importante das elites tentando derrubar o governo. A política econômica ultra-conservadora de Dilma e Levy tem apoio da Globo, da FIESP, da FIRJAN, do sistema financeiro e do agronegócio, com todos estes agentes já havendo se manifestado pela governabilidade.

Trata-se aqui de um caso de "inimigos" que se ajudam, que complementam o falso discurso um do outro. Os caricatos representantes do extremo conservadorismo, ao levantar, por exemplo, a bandeira da "intervenção militar" e outras consignas ultra-reacionárias, ajudam o governismo a propagar o medo de uma suposta "onda conservadora" e da instalação de um regime ditatorial fascista de direita. Por outro lado, o apoio ao governo das velhas burocracias da UNE, da CUT e de outros movimentos sociais, adotando de forma oportunista esse discurso do medo, da defesa da democracia e da legalidade (burguesas e que não estão sob qualquer ameaça real), cria o ambiente simbólico (o chamado "verniz de esquerda") para os reacionários propagarem que se trata de um governo "comunista", com velhos chavões do tipo "vai pra Cuba".

Por um lado, os governistas acusam qualquer pessoa que lhes critique de "fazer o jogo da direita". Por outro, a velha direita diz que quem não marcha com eles é "linha auxiliar" do PT. Basicamente, "jogo da direita" e "linha auxiliar" são dois mantras repetidos a exaustão para impedir que surja qualquer outra alternativa aos mesmos de sempre, ainda mais com tanta rejeição a todos os tradicionais atores da política brasileira.

Pois bem, existem inúmeros motivos para a Dilma cair. Há insatisfação popular generalizada e as medidas do governo são um estelionato eleitoral. Dilma aplica tudo aquilo que acusava Aécio e Marina de pretenderem fazer. Dilma dizia que Marina governaria para os banqueiros, que agora somam lucros recordes, em plena recessão. E acusava que Aécio iria privatizar e o governo petista anuncia pacotes e mais pacotes de privatizações.

Os motivos reais para a queda de Dilma não são pauta de qualquer destas manifestações pelo impeachment, seja nas ruas, seja nas redes sociais. É irônico ver estes setores reacionários manifestarem indignação, plausível, com a corrupção do governo petista, mas defenderem com unhas e dentes o corrupto Eduardo Cunha, por óbvia afinidade ideológica e na ilusão de que ele encaminhará o impeachment de Dilma. Na (in)coerência deles, para derrubar um governo corrupto vale se aliar a um corrupto que ganhou dinheiro nos mesmos esquemas de corrupção do governo que eles querem derrubar. Vai entender.

Há razões para Dilma cair, mas isso não tem serventia se em seu lugar retomarem o poder os tucanos e o PMDB, que quando governam praticam a mesma política econômica conservadora e a mesma corrupção (inclusive com as mesmas empreiteiras e os mesmos sistemas de compra de votos). Mais ridícula e anacrônica ainda é a ideia de volta da ditadura militar, mas essa não tem qualquer sustentação na realidade, a não ser na mente de lunáticos (e também de governistas que tentam se aproveitar da surreal situação para fingir que estão sob iminente ameaça do fascismo).

Qualquer saída para a crise está em mobilizar a classe trabalhadora, a juventude e o povo pobre contra o governo, para defender as demandas reais da população. Longe tanto do governismo, que tenta se apropriar da simbologia de esquerda para defender um governo de direita, quanto do velho conservadorismo, que tenta usurpar a insatisfação popular em prol de suas pautas mesquinhas, reacionárias e preconceituosas, incapazes de produzir qualquer melhoria na vida do povo (ao contrário, só servem ao retrocesso). A saída é pela esquerda, com a construção nas ruas, nas lutas e nas greves, de uma alternativa dos trabalhadores para governar o país.


Extraído do Facebook do referido vereador:
https://www.facebook.com/babapsol/posts/867020910034349

.

domingo, 1 de novembro de 2015

Para quem o governismo apontará o dedo agora?

.
O aprofundamento da crise econômica e política no país levou o PT a reunir o seu Diretório Nacional na última quinta-feira (29/10) para definir a atuação do partido que tem o poder central diante da conjuntura.

Evidentemente que a sua principal figura pública não poderia ficar de fora e o discurso de Lula foi revelador (para alguns), deu a linha para os petistas e aliados e como a dinâmica da crise acaba por expor as contradições tal linha acabou por aniquilar a principal argumentação distracionista dos governistas: a responsabilização de Eduardo Cunha e Joaquim Levy.

A seguir trechos importantes do discuro de Lula. Os grifos são meus.


Dilma mentiu na campanha eleitoral

“Nós tivemos um grande problema político, sobretudo com a nossa base, quando nós tomamos a atitude de fazer o ajuste, que era necessário fazer e estávamos discutindo com os trabalhadores quando foram anunciadas as mudanças dia 29 de dezembro, deixando muita gente nervosa e irritada.. Nós ganhamos as eleições com um discurso e, depois das eleições, nós tivemos que mudar o nosso discurso e fazer aquilo que a gente dizia que não ia fazer. Esse é um fato, esse é um fato conhecido de 204 milhões de habitantes e é um fato conhecido da nossa querida presidenta Dilma Rousseff” [1]

As crises econômicas do modo de produção capitalista sempre foram superadas aumentando o sofrimento e as privações das classes populares e trabalhadoras. Atualmente o ajuste fiscal é a fórmula utilizada pelas classes dominantes para tentar superar mais esta crise que, diferente das outras, é uma crise estrutural e não apenas cíclica.

O ajuste fiscal tem devastado a vida da base da pirâmide onde tem sido aplicado e era criticado há poucos anos atrás por Lula e Dilma, que gabavam-se de enfrentar a crise de forma diferente (o que nem era verdade).

O que teria mudado então? Em primeiro lugar, as crises capitalistas não resultam de uma má gestão do sistema mas do seu próprio funcionamento. Em segundo lugar, como o PT se limitou a administrar o modo de produção capitalista e, a fórmula anterior do consumo via crédito esgotou-se (como reconheceu a própria Dilma), restou aplicar o ajuste fiscal para manter o sistema funcionando. O ajuste fiscal só é “necessário” porque o PT se propôs a gerir o sistema em sua crise estrutural e não porque não exista outra alternativa.


A direita e os conservadores estão no governo

“Então, o ideal seria que a gente disputasse uma eleição e fizesse maioria, senão, o segundo ponto ideal seria ganhar as eleições só com os partidos de esquerda, só com os companheiros que pensam igual a gente. Mas não é possível também. Então, nós temos que ganhar as eleições com quem participa da coalizão conosco. E nós construímos uma coalizão muito ampla. É uma coalizão que tem vários partidos políticos, que o espectro ideológico escrito por qualquer cientista político seria considerado partido conservador ou partido de direita, mas se comportaram porque assumiram compromissos programáticos conosco e nos apoiaram e é com essa gente que nós temos que governar. São com esses companheiros que têm que participar do governo, para a gente construir não apenas a nossa governança, mas para a gente construir a maioria dentro do Congresso Nacional.” [ibidem]

Faltou informar que os partidos de esquerda não têm como compor com um governo que abraçou o programa das classes dominantes e os seus métodos políticos e corruptos. A primeira contra-reforma do governo Lula foi a privatização de parte da previdência pública, em 2003. Na ocasião os que cobraram um programa de esquerda e coerência do governo e do partido terminaram sendo expulsos.


O ajuste fiscal é anterior à nomeação de Joaquim Levy

“Não podemos jogar em cima do Levy os efeitos da crise, temos que jogar em cima de nós mesmos. Tem companheiro que fala ‘Fora Levy’ com a mesma facilidade com que falávamos ‘Fora FMI’. Não é a mesma coisa. O programa de ajuste estava feito antes de Levy chegar ao governo

A própria Dilma já havia deixado claro que o ajuste fiscal era do governo petista e não apenas do Ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Mas como Lula tem mais autoridade política a sua fala derruba definitivamente um dos pilares do distracionismo governista.


Fica Cunha!

“Nós não podemos ficar mais seis meses esperando discutir CPMF. Nós temos que começar a votar amanhã, se fosse o caso, porque tudo o que interessa à oposição é que a gente arrume 500 pretextos para discutir qualquer assunto e depois a gente não discutir o que interessa de verdade que é aprovar as coisas que a Dilma mandou para o Congresso Nacional. Primeiro vamos tentar derrubar o Eduardo Cunha, depois derrubar o impeachment e depois, se as coisas darem certo, a gente vota as coisas que a Dilma quer. Acho que é importante a gente medir, porque o tempo do governo é um tempo que urge. Vocês sabem que nossa situação é uma situação que precisamos urgentemente começar a recuperar o potencial que a presidenta já teve, ou será que vocês não acompanham pesquisa de opinião pública?” [ibidem]

O que inicialmente foi desdenhado pelos governistas como fofoca da grande mídia terminou por se confirmar: o PT está empenhado na defesa de Eduardo Cunha e costura um acordão junto com o PSDB para livrar o presidente da Câmara dos Deputados de qualquer tentativa de cassação após a descoberta de contas na Suíça e outras atitudes suspeitas.

A prioridade no ajuste fiscal e não em “derrubar Eduardo Cunha” pode ter parecido, em um primeiro momento, uma forma oculta de defesa do deputado que foi confirmada em um segundo momento quando o Diretório Nacional do PT aprovou por não representar contra Cunha no Conselho de Ética. Ruía, assim, outro pilar do distracionismo governista.


Velhinha de Taubaté? Chupa Cabra? ET de Varginha? Quem será o novo culpado?

Se em anos anteriores os governistas defendiam os governos petistas por seus “programas sociais” (sic) sem deixar de apelar para o medo do fantasmagórico “golpe das elites”, desde o ano passado este último tem sido inflado com o adendo da “onda conservadora”. Esta estaria comprovada pela composição do Congresso Nacional cujo presidente, deputado Eduardo Cunha, seria a expressão máxima do reacionarismo dominante.

Não é o ponto aqui fazer a análise histórica e social das instituições políticas da democracia burguesa e do Congresso brasileiro, tampouco dissertar sobre os limites da chamada tática da governabilidade. Quem quiser ler as minhas considerações a respeito desses dois assuntos clique aqui [2] e aqui [3]. A questão é como se comportarão os governistas agora que suas manobras distracionistas foram derrubadas pelo próprio Lula?

A Resolução Política sobre Conjuntura [4] do Diretório Nacional do PT emitida no dia 29 chega a falar das “forças mais reacionárias”, de “conservadorismo” e de “expedientes golpistas”. É um discurso que perde fôlego uma vez que o partido e o seu governo estão empenhados em manter Eduardo Cunha.

Os próprios governistas nos movimentos sociais já estão modificando a sua linha e abandonando o “Fora Cunha”. A presidente da UNE, Carina Vitral, declarou: “Fazemos oposição política ao Cunha mas não vamos entrar nessa de ‘fora’ porque senão é fora muita gente. Não queremos causar instabilidade política no país”. Já na UEE-SP, a UJS/PCdoB votou contra uma resolução política pelo “Fora Cunha” com o argumento de “defesa da legalidade e da democracia”. [5]

Se o ajuste é “necessário”, se Cunha e o Congresso conservador não devem ser importunados de quem se queixarão agora os governistas? Quem irão culpar? A Velhinha de Taubaté? O Chupa Cabra? O ET de Varginha?

Não se sabe ainda qual será a próxima distração governista para tentar desviar o foco e blindar o governo Dilma mas uma coisa é certa: o seu empenho será mantido e o próprio Lula não deixou de agradecer os pelegos pelo seu esforço:

“É importante o PT não esquecer que a base de sustentação do nosso partido nesse momento difícil está na lealdade, no compromisso e no comportamento do movimento social. Vários movimentos. (…) E o movimento tem defendido o governo na rua, defendendo o governo no trabalho e isso tem sido uma base extraordinária de sustentação que dá oxigênio e motivação para a nossa presidenta.
(...)
Fico imaginando que se o movimento social estivesse carrancudo e falando mal do governo como é que a gente estaria nisso.” [idem 1]

_______________________________________________________

[1] Lula na reunião do diretório nacional do PT — assista na íntegra

[2] Congresso conservador e reforma política. 16/11/2014.

[3] O fracasso da governabilidade. 20/04/2015.

[4] Resolução Política sobre Conjuntura. Reunião do Diretório Nacional do PT. Brasília, 29 de outubro de 2015.

Conheça as novas resoluções do Diretório Nacional do PT. 29/10/2015.

[5] Acordão para salvar corrupto, machista e LGBTfóbico? Tô #FORACunha



.