quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

A suprema justiça do espetáculo: o mensalão, o circo e nenhum pão

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12.12.12_Mauro Iasi_A suprema justiça do espetáculo

Sem dúvida o nosso tempo… prefere a imagem à coisa (…)
Ele considera que a ilusão é sagrada, e a verdade é profana.
Guy Debord

Desde tempos imemoriais os seres humanos representam, isto é, transpõem a vida ao ritual, ao símbolo, à imagem, para olhá-la como num espelho e tentar reconhecer-se. No entanto, como nos explica Bakhtin, o signo não é uma simples reapresentação do real, ele reflete e refrata o real representado. No caso do ritual da justiça, o espetáculo não é mera expiação social do dano causado, ela é mais que isso, é catarse.

Os meios de comunicação transmitiram o espetáculo do julgamento do mensalão com o rigor do rito jurídico e com as sutilezas da performance circense, com direito a mágicos e suas capas e uma profusão de coelhos que saltavam de cartolas/pastas, equilibristas navegando de maneira instável em uma tênue linha que separa a verdade da ficção. Malabaristas jogavam suas palavras, termos jurídicos, citações filosóficas, tipificações do ato delituoso, atenuantes, impropérios e, lógico, os palhaços, esses artistas incompreendidos e adorados, com suas roupas extravagantes e enormes sapatos que distraem a atenção do público enquanto os funcionários trocam os cenários.

Inútil procurar os fatos, a sagrada verdade, sobre os entulhos de processos e recursos. Ela é o que menos importa, pois no espetáculo “tudo que era vivido diretamente tornou-se uma representação”, nos diz Debord (A sociedade do Espetáculo, Rio de Janeiro, Contraponto: 1997, 13).

O espetáculo é a afirmação da aparência, mas aparência não é falsidade que encobre um real, é a forma necessária de expressão deste real, nos termos de Marx a expressão invertida de um mundo invertido. O fato que origina a ação jurídica tem que se tornar abstrato para ser julgado, ele deixa de ser um ato que fere uma ou outra pessoa, ou as pessoas em seu conjunto como sociedade, mas deve ser tipificado como ação contrária a determinado preceito legal. Na abstração da norma positivada, o fato se vê e se reconhece, ou não, mas não pelo que é em si mesmo, mas pela habilidade dos advogados em reconstruí-lo para que se encontre nos termos abstratos da lei, ou dela destoe.

Desta maneira, o espetáculo jurídico, assim como todo espetáculo, assume uma forma tautológica, uma vez que “seus meios (são), ao mesmo tempo, seu fim” (idem, 17). Quando se chega ao fim do julgamento, a sentença proferida, a justiça é feita. Realiza-se lá, no espaço jurídico, o que deixou de se realizar no campo social onde se deu o fato. Este é o mecanismo primordial da catarse. Na vida tudo é muito complicado, as contas não fecham, nossos amores viram desamores, nossos carros não sobem montanhas, ficam presos no engarrafamento, nosso cigarro vira câncer de laringe; mas, na novela os casais se encontram, normalmente no último capítulo, e, no que nos interessa, os culpados são punidos e a justiça é feita.

É, no entanto, inegável que ao projetarmos a realização do desejo no outro sentimos em nós uma realização indireta. Pulamos de aviões, enfrentamos batalhas, vivemos grandes e avassaladoras paixões, voltamos no tempo e desvendamos os rincões mais distantes do espaço. Talvez, seja esse um elemento do ser social que em si mesmo não é um problema. Nossa projeção nos outros e mesmo a realização de nossos desejos na realização do outro, é próprio da sociabilidade humana, mas não é disso que se trata, mas de uma projeção na qual uma relação entre seres humanos assume a forma de uma relação entre coisas.

O fundamento da catarse é que projetamos para outro a realização de algo que por esse meio deixa de se realizar em nós, assim se aproxima do fenômeno da alienação e do estranhamento. No campo da política tal fenômeno está presente no mito fundador do Estado, tal como descrito pelas mãos de seus precursores contratualistas. Dizia Hobbes:
“Diz-se que um Estado foi instituído quando uma multidão de homens concordam e pactuam, cada um com cada um dos outros, que qualquer homem ou assembleia de homens a que sejam atribuídos pela maioria o direito de representar a pessoa de todos eles (ou seja, de ser seus representante), todos, sem exceção (…) deverão autorizar todos os atos e decisões desse homem ou assembleia de homens, tal como se fossem seus atos e decisões” (Hobbes, Leviatã, cap.XVIII).

Vejam, aqueles que “representam” decidem por nós, em nosso lugar. Os mais otimistas diriam: sim, mas e daí? É um ato legítimo de representação, em nosso nome, portanto, salvaguardando nossos interesses. O que os otimistas (ou ingênuos) não percebem é que a transposição para o universo simbólico e espetacular onde se dá a representação não é apenas a expressão refletida de nossa vontade como vontade geral, a refração que distorce toda representação é que os interesses particulares se apresentam como se fossem universais.

Vamos aos fatos. Vivemos em um presidencialismo de coalizão, isto é, o presidente governa construindo uma sustentação no Congresso (Senado e Câmara de Deputados). A sistemática política funciona no sentido de impor a necessidade de formar bancadas de sustentação entre forças distintas que ocupam, supostamente de maneira proporcional, os postos no legislativo. O meio consagrado de manter estas bancadas, condição essencial à governabilidade, é a troca de favores entre o executivo e o legislativo que pode se dar na divisão de cargos no governo, na aprovação de emendas ao orçamento, no direcionamento das ações públicas para áreas de interesse dos lobbies que os parlamentares representam.

Até aqui, a consciência condescendente de nossa época e a legislação considera legitimo e legal. O ato do espetáculo exige não apenas que os atores que representam atuem como se aquilo fosse o real, mas há a exigência de outra atuação complementar, aquela que impõe ao público que suponha real a atuação dos atores (a menos que estivéssemos diante do distanciamento brechitiano, que não cabe aqui). Assim, os governantes atuam desta forma como se fosse pelo interesse geral e o bom público finge acreditar.

O que os governantes sabem e o bom público também, é que este campo restrito de legalidade é constantemente subvertido por iniciativas que vão além do legal e do legítimo e a troca de favores inclui práticas diretas ou indiretas de corrupção. Longe de ser um desvio ou mau funcionamento de um sistema em si virtuoso, a corrupção é parte integrante e incontornável da forma de governo estabelecida. Mas para o bom andamento do espetáculo, todos temos que fingir que não sabíamos e, público e governantes, se mostrar surpresos (normalmente como mau atores) quando as práticas ilícitas se tornam visíveis.

As campanhas eleitorais, que são o ritual espetaculoso pelo qual se montam as representações governamentais e parlamentares, são fundamentalmente um ato explícito de corrupção e chantagem. Não importa que fira os mais elementares princípios da própria jurídicialidade burguesa. Vejam a distribuição do tempo de televisão (meio que, hoje, se tornou decisivo). Pela lei, ele é distribuído pelo tamanho das bancadas existentes, o que é absurdo uma vez que define uma proporção fundada nas eleições anteriores para um pleito aberto ao futuro e quebra a igualdade como condição da disputa. Tal procedimento abre a negociação pelo tempo em um verdadeiro balcão de negócios onde o que menos vale são programas e compromissos políticos fundados em interesses reais em disputa na sociedade (leia-se “de classes”).

Não se proíbe a mercantilização da política, mas a consciência piedosa de nossa época parece se espantar na hora de pagar pela compra realizada, como o desavisado no bordel se mostrando surpreso por não ter sido por amor. Não é menos corrupção, no exato sentido da palavra, um governo que mantêm as taxas de juros em patamares exorbitantes para atender as promessas de campanha ao setor bancário, ou que dirige as obras públicas em favor das grandes empreiteiras. Ele está pagando favores advindos do financiamento de campanha. Da mesma maneira os recursos oriundos destes financiamentos, sejam registrados e legalizados ou contabilizados no famoso caixa dois, são partilhados entre aqueles partidos e políticos que disciplinadamente mantiveram-se na sustentação do governo.

O PT tem razão em se mostrar indignado. Ele apenas atuou pelas mesmas regras que sempre se atuou no presidencialismo de coalizão, da mesma forma que os governos do PSDB, DEM e PPS, assim como o histórico fisiologismo do PMDB, sempre governaram. Seu engano, entre tantos, foi supor que tinha sido aceito no clube e receberia as mesmas prerrogativas que seus pares mais tradicionais. Acreditou que pelo fato de não abrir a caixa preta do governo FHC e expor as entranhas dos atos ilícitos ali praticados, não diferentes daqueles pelos quais foi julgado, ele seria poupado, numa espécie de crença ingênua de “amor, com amor se paga”, tendo que cantar, ao final, um samba amargurado: “você pagou com traição, a quem sempre lhe deu a mão”.

Havia outro caminho? Esta é uma pergunta difícil. Para aqueles que acreditam que a estratégia política passa pelo suposto controle de governo tal com está definido nos marcos do Estado Burguês, ou seja, aboliram de sua concepção política a noção de ruptura, infelizmente, não. Mas não há inevitabilidade na política. O equívoco maior do PT e de sua estratégia é se prender aos limites da governabilidade burguesa e das amarras do presidencialismos de coalizão. Havia sim oura sustentação política, mas esta se localizava fora do parlamento e dos marcos da institucionalidade burguesa: os movimentos sociais e a organização autônoma da classe trabalhadora.

Essa opção levaria a um governo de tensões e intensificação da luta de classes, opção descartada pelos estrategistas petistas. A opção pela governabilidade com base na adesão (compra) de partidos implicou na aceitação tácita e explícita dos meios necessários para isso que agora são julgados como imorais e ilegais (e são).

Por isso, há uma ironia na última reunião do diretório nacional do PT que aventou a possibilidade de chamar as massas e a militância em defesa do PT contra o STF. Não se pensou em mobilizar as energias militantes e a capacidade de luta da classe trabalhadora quando podia e devia, para impor uma governabilidade que se dirigisse contra os limites da ordem, para sustentar uma reforma política que supera-se as armadilhas da governabilidade viciada estabelecida, para garantir uma reforma agrária, para barrar o desmonte das políticas públicas, para defender a previdência, para barrar os transgênicos e a supremacia do agronegócio. Agora querem que os trabalhadores saiam em defesa do governo contra uma decisão da justiça, da representação suprema de uma ordem política e jurídica a qual o PT se rendeu como limite intransponível. É mais que irônico, é ridículo.

Neste ponto o PT, mais uma vez, se mostrou coerente. Acatou a decisão da justiça e desautorizou as manifestações de massa.
Diz, mais uma vez Debord:
“A alienação do espectador em favor do objeto contemplado (o que resulta de sua própria atividade inconsciente) se expressa assim: quanto mais ele contempla, menos vive; quanto mais aceita reconhecer-se nas imagens dominantes da necessidade, menos compreende sua própria existência e seu próprio desejo” (Debord, op. cit. 24)

Quem produziu espectadores não pode esperar agora que hajam como atores.
Quando morre um palhaço, triste e solitário, com cirrose de tanto beber para enganar a tristeza da vida, o público nem percebe. No picadeiro há outro, com uma grossa camada de maquiagem, com suas roupas coloridas e um sorriso desenhado na cara.  

O espetáculo não pode parar! Respeitável público…


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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.


Extraído de:
http://boitempoeditorial.wordpress.com/2012/12/12/a-suprema-justica-do-espetaculo-o-mensalao-o-circo-e-nenhum-pao/

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domingo, 16 de dezembro de 2012

Da educação para a Copa do Mundo

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A absurda notícia que segue mostra o quanto a educação pública é prioritária no nosso país e o quanto o evento da Copa do Mundo, nos atuais termos, visa beneficiar grupos privados.

Cabe salientar que os lamentáveis cortes na educação, e em outras áreas sociais como a saúde, são rotineiros e são praticados em todas as esferas de governo (municipal, estadual e federal).



SUL21 – Política - 14/12/12 | 17:20

Prefeito de Belo Horizonte vai ao STF pedir cortes na educação em nome da Copa 2014


Da Redação

O prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), recorreu ao Supremo Tribunal Federal (STF ) para suspender dispositivo da Lei Orgânica do Município que determina a aplicação de 30% do orçamento municipal em educação. Ele pretende desviar parte desses recursos para investimentos ligados à Copa do Mundo.

No projeto 2378/2012, da Lei Orçamentária do município para 2013, enviado por Lacerda à Câmara Municipal de Belo Horizonte, a previsão é de uma receita da ordem de R$ 9,9 bilhões. Assim, caso consiga suspender a aplicação do dispositivo da Lei Orgânica, a Prefeitura da capital mineira deverá aplicar em educação apenas os 25% exigidos pela Constituição Brasileira, diminuindo em cerca de R$ 500 milhões os investimentos em educação para o próximo ano.

O processo foi distribuído ao ministro Dias Toffoli, relator de um recurso especial da Prefeitura de Belo Horizonte, que tramita na corte, para tentar suspender a mesma lei.

A Prefeitura de Belo Horizonte já havia entrado com uma ação nesse sentido no TJ-MG (Tribunal de Justiça de Minas Gerais), no primeiro semestre deste ano, mas teve seu pedido negado.

Na ação no STF, a prefeitura alega que, ao aumentar o percentual de investimento em educação, a Lei Orgânica de Belo Horizonte, além de ferir a Constituição, coloca uma base de cálculo específica para definir o valor anual.

Ainda de acordo com a ação, com a manutenção do percentual de 30% investidos em educação, projetos relacionados à mobilidade urbana ficariam prejudicados.

Com informações do UOL Educação


Extraído de:

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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Fraude no episódio que mudou a face do futebol mundial

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Por: Irlan Simões - 22/09/2012

Há 23 anos, tragédia em estádio inglês matou 96, demonizou torcedores e iniciou elitização do esporte. Foi manipulada, sabe-se agora


Em 12 de setembro último, o primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, fez um pedido de desculpas histórico. Dirigindo-se às famílias das 96 pessoas massacradas no Estádio de Hillsborough, em abril de 1989, numa partida de futebol entre o Liverpool e o Nothingan Forest, reconheceu que os mortos haviam sido vítimas de “dupla injustiça”. Além de perderem a vida, foram acusados, por 23 anos, de pertencerem ao grupo de torcedores do Liverpool que causou a tragédia. Foi uma manipulação grosseira que durou mais de duas décadas, admitiu Cameron, em discurso ao Parlamento e apoiado no relatório final de um painel independente.

No final dos anos 1980, uma pequena parcela dos frequentadores ingleses de estádios – chamados de hooligans – haviam, de fato desenvolvido uma cultura de prazer pelo confronto e violência. Mas a torcida do Liverpool não teve responsabilidade alguma pela chamada Tragédia de Hillsborough. Ela foi provocada pelas condições precárias do estádio (algo comum na época) e por atitudes de clara negligência da polícia. Decisões esdrúxulas, no controle do fluxo de torcedores ao estádio superlotado, favoreceram esmagamentos, pisoteamentos e, ao final, queda do muro que separava as arquibancadas do campo. Não se prestou socorro. Apenas 14, dos 96 mortos (houve, também, 766 feridos) foram atendidos em hospital. Só uma das 44 ambulâncias presentes às imediações de Hillsborough foi autorizada a socorrer as vítimas.

O reconhecimento da verdade deveria impulsionar um passo ainda mais importante. É preciso rever todo o conjunto de políticas e normas que, a partir da tragédia, transformaram a face futebol mundial, convertendo-o num esporte cada vez mais elitizado, afastado de suas raízes sociais e culturais, reduzido à dimensão de produto mercantil e de marketing. Hillsborough e a fraude produzida a seguir foram o marco decisivo desta mudança — que está sendo adotada no Brasil no momento em que você lê este artigo, tendo como pretexto da Copa do Mundo de 2014.


 Como Thatcher manipulou a tragédia

A ponte entre o que ocorreu no estádio e a elitização do futebol foi o chamado Relatório Taylor. Chefiado então pela primeira-ministra Margareth Thatcher, um dos personagens-ícones do neoliberalismo, o governo britânico constituiu uma comissão, chefiado por Lorde Taylor de Gosforth, para investigar as causas da tragédia e sugerir providências.

O trabalho de apuração foi manipulado do início ao fim, sabe-se agora oficialmente. Dos 164 relatórios produzidos por policiais presentes ao estádio, 116 foram alterados, para remover “comentários desfavoráveis” à atuação das forças “da ordem”. A omissão das informações foi proposital, segundo admitiu Cameron ao Parlamento. A falsificação teve objetivos claros: responsabilizar pela tragédia a torcida do Liverpool; demonizá-la; abrir caminho para um conjunto radical de transformações que já haviam sido planejadas, mas não eram até então viáveis. Elas incidiram nos estádios, na forma de financiamento dos clubes e na relação entre o jogo e o mundo do marketing. Iniciadas na Inglaterra, repercutiram rapidamente em todo o mundo.

Thatcher aplicou, no futebol, a mesma “mão-de-ferro” com que destruía leis trabalhistas e atacava os sindicatos. Estourou as firms, como eram conhecidos os agrupamentos hooligans, torcedores que já vinham causando problema dentro e fora dos estádios pelo seu prazer pelo confronto físico. Quatro anos antes de Hlilsborough, em partida entre Liverpool e Juventus pela Copa dos Campeões da Europa, 39 torcedores haviam morrido pisoteados e esmagados durante uma briga generalizada, conhecida como Tragédia de Heysel.

Em paralelo, avançava outro processo: a poderosa FIFA iniciara uma reforma no futebol mundial. O avanço das tecnologias de comunicação transformaria o esporte num dos principais “produtos” televisivos do planeta. Foi um movimento marcado pela entrada maciça de atores econômicos que hoje controlam o futebol. O comércio de jogadores não era mais o único espaço de trocas comerciais. O esporte passou a ser um grande conglomerado internacional que envolvia anunciantes, patrocinadores, investidores, atletas-estrelas e, se dependesse do projeto ao qual aderiu Margareth Thatcher: uma competição esportiva de grandes empresas. Estava sendo gestado o futebol-negócio dos dias de hoje.



http://www.youtube.com/watch?v=1q47bOtV3-Y&feature=player_embedded


Para tal projeto, a Tragédia de Hillsborough veio no momento ideal. Desde que devidamente arquitetadas, as argumentações necessárias para a “reforma” estavam dadas: era preciso dar, definitivamente, um novo rumo ao futebol, “civilizá-lo”. Publicado em janeiro de 1990, menos de um ano após o incidente, o relatório final da comissão chefiada por Lord Taylor indicou o caminho.

Embora focado em estabelecer diretrizes para um projeto de segurança, o documento propôs uma série de medidas que traziam novas normas de estruturação dos estádios e do próprio futebol inglês. A capacidade de público foi reduzida. Estabeleceu-se que todos os torcedores deveriam permanecer sentados. Os clubes passaram a ser responsabilizados pelos atos de seus apoiadores – o que gerou uma leva de mudanças e de uma ideologização da suposta “modernização e profissionalização das estruturas”.

O movimento de reforma dos estádios, e de restrições aos torcedores briguentos já estava em curso. A crise que se estendeu após o evento em Hillsborough serviu de catalizador para que o processo avançasse. Porém, os clubes e suas torcidas não tinham estrutura necessária para isso.

Para enfrentar rapidamente o novo desafio, tornaram-se empresas de capital aberto e passaram a ter proprietários. Assim, conseguiram obter a estrutura necessária para desenvolver os estádios que seriam os protótipos das atuais “Arenas Multiuso”: complexos desportivos e verdadeiras zonas de consumo.

Surgiu um efeito colateral imediato: o futebol inglês expulsou, junto com os “violentos”, os torcedores mais pobres, que não tinham a capacidade financeira de arcar com ingressos cada vez mais caros em estádios cada vez menores e mais restritivos.

O projeto neoliberal para o futebol consolidou-se, por fim, com a criação da Premier League em 1992 (a liga de primeira divisão do esporte na Inglaterra), com a definição de novas regras de comercialização dos direitos televisivos, publicidade, patrocínios e jogadores. No fim da década de 2000, todos os clubes desta liga — uma das maiores do futebol profissional no mundo — já pertenciam a multimilionários e bilionários árabes, russos, chineses ou estadunidenses.


 O futebol brasileiro também revisará o relatório? 
Ainda que o esforço por acabar com violência que tomava os estádios ingleses fosse elogiável, o Relatório Taylor falhou – por miopia ou por má vontade política – em reconhecer que verdadeiras causas da Tragédia de Hillsborough. As péssimas condições do estádio eram consequência dos interesses que cercaram o futebol durante as décadas de sua massificação. Naqueles tempos, importavam quantidades. Convinha aos dirigentes ver estádios superlotados, para ampliar as rendas dos clubes e abarrotar seus próprios bolsos. Pouco importavam as condições de conforto ou segurança dos torcedores.
Na nova fase, consolidada a partir do Relatório Taylor, o modelo de negócio mudou. Não interessava encher as arenas com torcedores que mal podiam pagar ingressos. O novo público precisava ter não apenas um “padrão de comportamento”, mas um “padrão de consumo” que compensasse uma estrutura de tal porte.

A Tragédia de Hillsborough dos tempos de hoje não é mais a superlotação, mas o esvaziamento dos estádios, de onde vão sendo expulsos os antigos torcedores tradicionais. O futebol inglês, apesar de ainda ter a maior média de público do futebol mundial, é o mais caro e menos popular de todas as grandes ligas. O padrão de torcedor está totalmente modificado.

No Brasil, vemos a proliferação das “arenas” com consequente aumento do valor dos ingressos. O resultado é o esvaziamento do campeonato brasileiro – que tem a pior média de público, dentre as dez melhores ligas.

Até o início dos anos 2010, muitos apontaram o exemplo inglês para referendar essa ideologização de um futebol “moderno, profissional e empreendedor”. O próprio Estatuto do Torcedor fazia menção ao Relatório Taylor e ao modelo britânico de “gestão de crises”: Restringiu de múltiplas formas as torcidas organizadas e procurou moldar o comportamento do torcedor comum dentro dos estádios.


A longa luta dos torcedores do Liverpool
A revisão do ocorrido em Hillsborough, e das manipulações que se seguiram, foi possível apenas devido à mobilização da torcida do Liverpool. Ela contestou, ao longo de mais de duas décadas, a versão construída pelo Relatório Taylor. Enfrentou, além de Margareth Thatcher, o sensacionalismo dos tabloides britânicos. O The Sun chegou a publicar “depoimentos” de policiais assegurando não ter ajudado as vítimas porque torcedores, bêbados, não permitiam, urinando em quem tentava socorrê-los.
Aos poucos, a resistência restabeleceu a verdade. Um abaixo-assinado com 140 mil adesões exigiu nova investigação. O painel independente, no qual o primeiro-ministro Cameron agora se apóia, foi formado graças à mobilização. O presidente das investigações, James Jones, reconheceu que o inquérito inicial foi comprometido por “árduas tentativas de colocar a culpa nos torcedores”.

Foram necessários 23 anos de angústia e de mentiras para que as famílias das vítimas de Hillsborough pudessem provar ao mundo que se tratou de negligência e de irresponsabilidade das autoridades inglesas. Foram necessários 23 anos para que elas pudessem provar que seus filhos, e os filhos de tantos outros torcedores criminalizados na Inglaterra, não eram os culpados por aquela tragédia.

Foram necessários 23 anos para que os torcedores expulsos dos estádios – por livre e espontânea pressão do dinheiro, como prega o pensamento neoliberal – pudessem provar que foram injustamente culpados para que um plano premeditado pudesse ser aplicado sem direito de resposta.

Resta saber se, no Brasil, prevalecerão as políticas preconizadas pelo Relatório Taylor, fruto de notória manipulação. Resta saber se prevalecerão a “vontade e a liberdade dos agentes econômicos” ou o bom senso, a democracia e o direito do acesso à cultura e ao futebol pela população empobrecida, já tão excluída nos tempos neoliberais.


Irlan Simões é estudante Comunicação Social e editor da coluna Futebol Além da Mercadoria.


Extraído de:
http://www.outraspalavras.net/2012/09/22/fraude-no-episodio-que-mudou-a-face-do-futebol-mundial/

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domingo, 9 de dezembro de 2012

Governo Dilma infla ainda mais a bolha imobiliária

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Na última semana o Governo Dilma anunciou uma série de medidas para a construção civil atuante no país. Trata-se de mais um pacote "anticrise" em benefício do capital que vai inflar ainda mais a bolha imobiliária brasileira.

Entre as medidas anunciadas pelo governo consta a desoneração da folha de pagamentos que acerta em cheio a previdência pública, redução de impostos (como o IR, CSLL, PIS e Cofins), além de uma linha de capital de giro de R$ 2 bilhões. [1]

O objetivo claro é tentar manter a acumulação e reprodução do capital, em especial o especulativo, mas o governo tentou posar de defensor dos trabalhadores ao mencionar a questão dos empregos.

A sinceridade de tais assertivas podem ser constatadas nas demissões no setor automotivo - onde as benesses despejadas às montadoras também "visavam" proteger os empregos [2] - e as 6 mil demissões na Usina de Jirau, em 2011, que contaram com o apoio do próprio governo petista.


Apagando incêndio com gasolina!

Até 2008 a prioridade no Brasil era a produção para exportação. Quando a crise estoura essas ficam prejudicadas e o governo brasileiro, para escoar essa produção, passa a tomar medidas para estimular o consumo interno das famílias, o chamado mercado interno, até então negligenciado. [3]

Para alavancar o mercado interno foi expandida oferta de crédito para o consumo e inflada a bolha imobiliária. Tais medidas são as mesmas que os países capitalistas centrais tomaram para enfrentar a crise de superprodução do capital e que apenas empurraram a crise com a barriga. Apesar disso nesses países há uma tentativa de reativar esses mecanismos já demonstrados fracassados.

Os governos petistas primeiro chamaram a crise de "marolinha", depois disseram que o Brasil estava "blindado" dela e por último que o país enfrentava a crise com medidas diferentes dos países europeus e dos Estados Unidos.

Um olhar atento já demonstrava que tal discurso não correspondia à realidade. Agora as práticas já não podem ser dissimuladas tão facilmente. E em um futuro próximo ficará evidente aos olhos dos trabalhadores brasileiros que são eles que pagam pela crise.

O governo que prejudica a previdência pública com a desoneração da folha de pagamentos tem fugido de acabar com o fator previdenciário e já estuda uma nova contra-reforma para o setor. Também busca realizar uma contra-reforma nas leis trabalhistas do país, com o apoio da direção da CUT.

Essas serão algumas das medidas "anticrise" que o governo petista buscará implementar em breve. Em julho, José Dirceu, já pedia por elas:

"Por mais importantes que tenham sido as medidas adotadas até agora, precisamos avançar. As decisões que devem ser tomadas, de caráter político, envolvem o Congresso Nacional, partidos, empresários e sindicatos de trabalhadores. As greves e as pressões sobre o governo indicam a necessidade de uma pactuação política sobre as próximas medidas e ou reformas, sem falar nas reformas trabalhista e/ou previdenciária." [4] 



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[1] Governo federal anuncia pacote de incentivo à construção civil (05/12/2012):

[2] Setor automotivo mostra que trabalhadores pagam pela crise no Brasil (05/08/2012):

[3] A crise no Brasil (06/05/2012):

[4] Crise lá fora não deixa dúvidas: 2013 também não será fácil (24/07/2012):

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'Modernização' trabalhista sugerida pela CNI inclui flexibilizar trabalho escravo


Confederação da indústria chama direitos de 'irracionalidades', e apresenta propostas que podem deteriorar qualidade do empregos. Dilma afirma que governo combate custos da produção sem perda de direitos [*]


Por: Raimundo Oliveira, da Rede Brasil Atual - 04/12/2012


São Paulo – A Confederação Nacional da Indústria (CNI), a pretexto de tornar as empresas brasileiras mais competitivas, quer repassar para a sociedade o gasto com garantias trabalhistas mínimas que hoje competem aos empresários, diminuir o poder da Justiça do Trabalho por meio de desregulamentação das leis que garantem direitos como descanso aos domingos, jornadas de trabalho definidas por lei, licença-maternidade, restrições ao trabalho noturno, multas rescisórias e outros.

Uma cartilha da CNI, intitulada 101 Propostas para Modernização Trabalhista, apresenta como “irracionalidades” garantias mínimas para os trabalhadores brasileiros ou compensações adotadas em decorrências de perdas com mudanças na legislação ou com planos econômicos.

Segundo a CNI, as propostas serão lançadas no 7º Encontro Nacional da Indústria (Enai), que será aberto hoje (5) , em Brasília, com a presença de "cerca de 1,5 mil dirigentes empresariais para discutir o futuro da indústria." A presidenta Dilma Rousseff estará na abertura do encontro.

Sem direitos

A primeira “irracionalidade” apontada pelos industriais é a prevalência do Poder Judiciário sobre convenções e acordos coletivos firmados entre empresas e sindicatos ou trabalhadores. Para a confederação, a invalidação de acordos por parte da Justiça causa insegurança para as empresas.

A CNI também sugere, por exemplo, a transferência para o sistema previdenciário de gastos com pagamento de metade do salários devidos a funcionários que são ex-presidiários. Também quer a isenção da contribuição previdenciária durante a licença-maternidade e a transferência para o INSS de todos os outros encargos que são cobrados neste caso, como FGTS e pagamento proporcional de férias e 13º salário.

A reportagem ouviu de fontes ligadas ao Dieese, em análise preliminar do documento – na qual a confederação alega pretender "preservar a discussão sobre proteção e os direitos trabalhistas" – que em todas as propostas o que se vê é o contrário, um ataque, algo como um capitalismo sem risco e sem custos.
Segundo análise do Dieese, a maioria dos trabalhadores brasileiros não dispõe de estrutura sindical suficientemente organizada, nem organização que os represente nos locais de trabalho e consiga negociar em equilíbrio com as empresas. Os setores menos organizados estariam sujeitos à imposição de acordos coletivos desfavoráveis e teriam como principais mecanismos de proteção os direitos mínimos garantidos por lei e o recurso à a Justiça.

Outra medida proposta pela CNI é fixar em no máximo quatro anos a validade das convenções e acordos coletivos e que as cláusulas convencionais não integrem o contrato de trabalho. De acordo com avaliação do Dieese, por essa proposta, caso não haja ou expire um acordo entre determinada empresa e seus funcionários, os patrões podem deixar de cumprir o que eram obrigados e colocar os trabalhadores em situação de risco em relação às garantias mínimas de ganhos e condições de trabalho.

A cartilha anti-irracionalidades da confederação empresarial também sugere regulamentar jornadas de trabalho de até 12 horas diárias com compensação semanal ou mensal e intervalo legal mínimo entre as jornadas. Segundo o documento, a proposta tem como objetivo adequar as jornadas de trabalho às reais necessidades da empresa, com segurança jurídica. Na análise extra-oficial do Dieese, a proposta iguala trabalhadores a máquinas e não leva em conta o desgaste e a maior exposição aos riscos de ocorrência de acidentes.

A garantia do domingo como repouso semanal remunerado e as folgas nos dias de feriado são igualmente irracionais, de acordo com a proposta. O empresariado alega que essa restrição tem impacto na produção e na competitividade das empresas. Previsto na legislação trabalhista brasileira desde 1949, o descanso remunerado só pode ser alterado permanentemente do domingo para outro dia da semana em algumas categorias.

Outra medida polêmica apresentada pela confederação é a permissão de terceirização de qualquer atividade. Atualmente, a interpretação corrente do movimento sindical e de boa parte dos juristas é de que é vetada a terceirização das consideradas atividades-fim.

Alegando “prejuízos irreparáveis” à imagem e o risco de ter restrições a empréstimos na rede bancária para empresas que vão parar na "lista suja" do trabalho escravo no Ministério do Trabalho, a CNI propõe também que sejam definidos critérios legais "adequados" para caracterizar trabalho escravo.

A modernização trabalhista imaginada pela entidade patronal prevê ainda a criação de um “fundo antidesemprego”, nos moldes do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), mas custeado pelos trabalhadores. A proposta é que o fundo seja usado em época de crise e pague uma parte do trabalho, entre 60% e 70% do salário, e que os trabalhadores estejam sujeitos a oportunidades de treinamento e prestação de serviços públicos, “uma vez que estarão recebendo sem a efetiva contraprestação efetiva do trabalho”.


Extraído de:

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[*] O discurso da Presidente não corresponde à realidade. Conforme já analisei nos artigos abaixo, as medidas "anticrise" das gestões petistas não se diferenciam das tomadas nos países estrangeiros e incluem sim a perda de direitos dos trabalhadores.


A crise no Brasil
http://blogdomonjn.blogspot.com.br/2012/05/crise-no-brasil.html

Crise se aprofunda no mundo e no Brasil
http://blogdomonjn.blogspot.com.br/2012/07/crise-se-aprofunda-no-mundo-e-no-brasil_4972.html

Setor automotivo mostra que trabalhadores pagam pela crise no Brasil
http://blogdomonjn.blogspot.com.br/2012/08/setor-automotivo-mostra-que_5.html


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sábado, 8 de dezembro de 2012

Royalties do Petróleo: Para a educação???




Auditoria Cidadã – 4/12/2012


Nos últimos dias, o governo divulgou amplamente a idéia de que vai destinar 100% dos royalties do Petróleo para a Educação. Membros do governo têm afirmado que esta medida permitiria a obtenção dos tão almejados 10% do PIB para a Educação.

Porém, analisando-se a Medida Provisória 592, editada ontem, verifica-se que apenas uma pequena parte dos royalties irá para esta área social. No caso dos atuais royalties, nada muda, ou seja, não há nenhum incremento de recursos para a educação.

No caso da futura exploração do petróleo no “Pré-sal”, verifica-se que os royalties representarão apenas 15% do valor da produção, o que não condiz com as recentes afirmações do governo de que o “Pré-sal” seria como um “bilhete premiado” e que por isso o Estado deveria ficar com grande parcela do valor da produção. Em países que são grandes produtores de petróleo, tal percentual chega a 70% ou mais.

Além do mais, destes 15%, nada menos que 78% irão para estados e municípios, sem nenhuma obrigatoriedade de aplicação na educação. Somente 22% destes 15% (ou seja, apenas 3,3% do valor da produção do “Pré –sal”) irão para o chamado “Fundo Social”, do qual, em tese, 50% iriam para a educação. Portanto, temos somente 1,65% do “Pré-sal” para a educação.

Porém, analisando-se a Medida Provisória, verifica-se que não é verdade que 50% dos recursos do Fundo Social iriam para a educação. Na realidade, os recursos do “Fundo Social” não irão para as áreas sociais, mas para aplicações financeiras preferencialmente no exterior, e somente o rendimento das mesmas é que irá para áreas sociais. Deste rendimento, aí sim, 50% iriam para a educação. Se é que haverá rendimento, pois em tempos de crise global, tais recursos podem ser aplicados em papéis que se mostrem podres do dia para a noite. Especialmente porque os bancos internacionais estão abarrotados destes papéis, esperando alguém que compre estes “micos”.

A destinação de 100% dos royalties para a educação somente ocorrerá no caso de futuros contratos de concessão, ou seja, quando novos poços de petróleo – localizados fora do “Pré-sal” – forem entregues à iniciativa privada. Ou seja: é preciso que se leiloe os atuais poços de petróleo para que a educação receba recursos. Dentro deste esquema, criado por FHC em sua lei 9.478/1997, os principais lucros ficam com as petroleiras privadas e multinacionais, dentre as quais se inclui a Petrobras, que distribui seus dividendos aos seus sócios privados e ao governo federal que, segundo a lei 9.530/1997, deve destinar tais lucros ao pagamento da dívida pública.

Ainda que todos os poços de petróleo em operação atualmente no país fossem leiloados novamente à iniciativa privada, obteria-se cerca de R$ 27 bilhões anuais em royalties, que representam 0,6% do PIB, insuficientes para se aumentar dos atuais 5% para 10% do PIB aplicados anualmente em educação.


Auditar a dívida para garantir 10% do PIB para a Educação

Em 2011, o governo federal destinou R$ 708 bilhões para o pagamento de juros e amortizações da dívida pública, o que correspondeu a 45% de todos os gastos do Orçamento Geral da União. Este valor gasto com a dívida significou 17% do PIB, ou seja, mais que o triplo dos recursos necessários para se ampliar de 5% para 10% do PIB os recursos anualmente destinados para a educação.

Neste ano de 2012, até o final de outubro a dívida já tinha consumido R$ 709 bilhões, ou seja, mais que todo o gasto de 2011. Isto ocorre apesar da tão falada queda na taxa de juros “Selic”, dado que, atualmente, apenas 24% dos títulos da dívida interna de responsabilidade do Tesouro Nacional estão vinculados a esta taxa, conforme mostra a tabela da Secretaria do Tesouro Nacional (quadro 2.5).

Nesta mesma tabela (quadro 4.1) verifica-se que o custo médio da dívida pública federal interna está em cerca de 11% ao ano, ou seja, bem mais que a Taxa Selic, atualmente em 7,25% ao ano.

Portanto, os gastos com a dívida aumentam apesar da tão falada “queda dos juros”. Somente uma profunda auditoria (prevista na Constituição de 1988, porém, jamais cumprida) poderá rever o enorme estoque do questionável endividamento público brasileiro, que cresce ano a ano, devido principalmente ao ilegítimo mecanismo de “juros sobre juros”.


Extraído de:

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domingo, 2 de dezembro de 2012

Por uma luta consequente!

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A chegada do PT ao poder central e os efeitos de sua administração têm impactado tanto à direita quanto à esquerda. A direita política carece de argumentos para se opor ao governo pelo fato dele ter se apropriado do seu programa político, econômico e de reformas. A esquerda, que aparentemente estaria em uma condição mais favorável para se opor ao governo, também tem sido afetada pelas contradições desse processo - o que de certa forma é natural.

Em geral, a grande maioria da esquerda brasileira não têm conseguido opor um programa com consistência ou mesmo cravar uma oposição consequente ao petismo. Se impressionam com a popularidade de seus governos, se omitem de denunciar o real caráter dos programas assistencialistas [1] e chegam até a chamar voto em suas candidaturas alegando mal menor, entre outras confusões.

Ainda há tempo - não muito - para corrigir esses deslizes. A crise capitalista que está mais evidente nos Estados Unidos e na Europa deverá se aprofundar no próximo período. No Velho Mundo as massas têm rompido com a socialdemocracia e, em alguns casos, questionado a ordem política e econômica. O Brasil não passará incólume por isso. A crise também se aprofundará por aqui e os ataques aos trabalhadores devem iniciar a ruptura das massas com as lideranças carismáticas petistas. Nesse contexto somente um programa e uma oposição consequentes serão capazes de desvendar a farsa e apresentar uma proposta alternativa ao povo brasileiro.


A transformação e adaptação do PT

A maioria da esquerda brasileira tem uma caracterização correta do processo que levou à transformação do PT em um partido da ordem. Mas compreender esse processo é importante não apenas para não repetir a História mas para fazer uma oposição consequente aos seus governos.

De forma resumida pode-se dizer que há elementos objetivos e subjetivos que contribuíram para a adaptação do PT à ordem e que inclusive há uma interação dialética entre eles.

Nascido em meio às lutas contra a ditadura militar e as grandes greves operárias o PT nunca foi um partido antisistema strictu sensu. Mesmo em sua fase mais radical nunca passou de um partido majoritariamente reformista. Esse elemento subjetivo, aparentemente inofensivo em uma olhada apressada, possibilitou a eclosão do elemento objetivo acomodação. Afinal, se a reforma do existente é o horizonte qual seria o problema de se inserir na ordem? Logo os companheiros foram se tornando consultores de empresas, empresários, gestores de fundos de pensão, etc.

Percebe-se que o processo de adaptação é mais longo e complexo não se limitando ao simples "tocar o poder". Obviamente não se pode excluir desse processo o impacto da queda dos regimes do chamado socialismo real, outro elemento objetivo que afetou diretamente o subjetivo, pois reforçou ainda mais as posições reformistas no interior do partido.

Mas há outro elemento objetivo fundamental a ser considerado: as mudanças no interior do sistema capitalista nas últimas décadas que tornaram as reformas em seu interior inviáveis.

Foram as mudanças na base produtiva do sistema que levaram à adoção da gestão neoliberal do capitalismo em detrimento da vertente keynesiana com a consequente financerização da economia, ampliação da forma mercadoria e rebaixamento e exclusão dos direitos sociais.

Logo, quando o PT chegou ao poder central nem ele e nem o capitalismo eram mais os mesmos. Seus dirigentes já estavam acomodados e com interesses comuns com o sistema, além de encontrarem-se enredados em sua complexa teia de relações sócio-econômicas. O capitalismo não era mais reformável e as lideranças petistas não estavam mais dispostas ao reformismo, uma vez que isso significava enfrentar a si próprios. Essa combinação ajuda a compreender a aparente mudança meteórica de posição de seus quadros políticos.


Mais do que colaboração de classes

Conforme os "companheiros" foram galgando postos na hierarquia foram não apenas se descolando das bases e se aproximando das classes dominantes como desenvolvendo interesses próprios de outro setor social.

Convertidos em consultores, empresários, gestores de fundos de pensão, etc, passaram a ganhar com a especulação, com a dívida pública e até com as privatizações - onde são sócios das grandes corporações. Isso ajuda a entender porque a direção da CUT tem apoiado contra-reformas na previdência, flexibilização dos direitos trabalhistas e privatizações.

Esses setores já estão do outro lado da trincheira e como tais têm feito - e farão - de tudo para manter e ampliar seus privilégios. Não é por acaso que os governos petistas reprimam as greves de trabalhadores e que os chamem de "vândalos" como fizeram em Jirau. Não é por acaso que tenham aderido e ressuscitado todo o palavreado da ordem que já estava desgastado como a proclamação da eficiência privada, a demonização dos servidores e do serviço público, o mito do déficit da previdência, entre outros.

A mudança material de muitos dos principais quadros do PT e as inevitáveis medidas tomadas para defender suas novas posições sociais, via seus governos, os tornam inimigos de classe e como tais devem ser encarados e combatidos!

Infelizmente, apesar de visualizar essa realidade na teoria, a maior parte da esquerda brasileira escorrega na prática. As consequências, que não têm sido das melhores no presente, poderão se tornar trágicas em um futuro não muito distante.

Algumas lutas sociais têm demonstrado o caráter vacilante dessa escorregada prática, mesmo que tática. Palavras de ordem como "Dilma veta" e "Dilma desapropria" criam no imaginário da base a falsa ilusão de que o seu governo é amigo e aliado ou de que é vítima de um Congresso Nacional no qual possui a maioria parlamentar. Se não se diz "Serra veta" ou "Alckmin desapropria" não há o porque desse rebaixamento diante dos governos petistas. Ou o "Dilma desapropria" resolveu alguma coisa para o povo do Pinheirinho?

Essa tática, que tem levado a derrotas da classe, acaba desarmando o movimento para as lutas e retrocedendo ainda mais o nível de consciência. Em vez de "Dilma veta" deve-se denunciar a sua política de vale tudo e de alianças espúrias que não serve aos trabalhadores como dizem os governistas. Na verdade essa política de alianças amplas é uma necessidade material dos "companheiros" que adquiriram novos interesses a partir de sua nova posição social. O discurso de governabilidade não passa de manobra retórica para ludibriar a base.

Em vez de "Dilma desapropria" deve-se denunciar a sua política de incentivo a especulação imobiliária que acarreta na desapropriação e expulsão dos mais pobres, política que apenas é replicada nos Estados e Municípios por governos demotucanos.


Um programa para as massas

O tipo de vacilo referido anteriormente não é isento de bases. Uma delas é a popularidade das lideranças carismáticas petistas que acaba impressionando de forma demasiada alguns setores da esquerda, o que influencia na sua prática política.

Esses setores não teriam a mesma postura se em vez de Lula, fosse Alckmin ou Serra que despontassem com grandes índices de popularidade. Porém, o método da independência política e de classe deveria valer para todos.

Os que desejam mudanças sociais profundas não devem se deixar abalar pelo prestígio da adversidade, ou pelo menos não deveriam. Um governo que é celebrado pelo imperialismo, pela burguesia mundial e nacional, por arrivistas do movimento social tem tudo para ter índices elevados de aprovação. Ainda mais se os que estão à esquerda dele também dão sua cota de contribuição com vacilos políticos.

Guardando relação com o anterior, o medo do sectarismo e do isolamento político é outro aspecto observado. A consequência disso é que até voto nas candidaturas petistas são defendidos sob a alegação do mal menor.

Na realidade concreta essa tática não só tem ajudado na confusão no seio da classe e inflado o apoio ao PT como ainda tem fomentado o mal maior, já que a coalizão que apóia e celebra o projeto petista cria uma ferramenta política com poderes sem precedentes para atacar os direitos da classe trabalhadora e ampliar os privilégios ao capital. Como disse o próprio Lula, os ricos nunca ganharam tanto dinheiro quanto na sua gestão. Parafraseando o ex-presidente, podemos afirmar que "nunca antes na História desse país" a CLT correu tanto risco!

Os ensinamentos de Marx e Engels nos mostraram que a independência política e de classe é o método correto. Descrevendo uma tática política para a Liga dos Comunistas, em 1850, os pais do socialismo científico se posicionaram da seguinte maneira diante da pressão pelo suposto mal menor:

"Por toda a parte, ao lado dos candidatos democráticos burgueses, sejam propostos candidatos operários, na medida do possível de entre os membros da Liga e para cuja eleição se devem accionar todos os meios possíveis. Mesmo onde não existe esperança de sucesso, devem os operários apresentar os seus próprios candidatos, para manterem a sua democracia, para manterem a sua autonomia, contarem as suas forças, trazerem a público a sua posição revolucionária e os pontos de vista do partido. Não devem, neste processo, deixar-se subornar pelas frases dos democratas, como por exemplo que assim se divide o partido democrático e se dá à reacção a possibilidade da vitória. Com todas essas frases, o que se visa é que o proletariado seja mistificado. Os progressos que o partido proletário tem de fazer, surgindo assim como força independente, são infinitamente mais importantes do que o prejuízo que poderia trazer a presença de alguns reaccionários na Representação. Surja a democracia, desde o princípio, decidida e terrorista contra a reacção, e a influência desta nas eleições será antecipadamente aniquilada." (Grifo nosso) [2]

Há ainda os que se armam politicamente para dialogar com setores que ainda estão no interior do PT, na esperança de ganhá-los. Essa tática tem surtido poucos efeitos. Na maioria das vezes, em vez de ruptura dos setores que estão dentro do PT, ocorre o rebaixamento programático e a capitulação diante do governo pelos que estão fora. Tudo para "não romper o diálogo".

Cabe salientar que as contradições têm atingido o conjunto da esquerda brasileira. Nem mesmo as organizações pequenas, por vezes consideradas seitas, escapam desse processo. Como exemplo temos alguns desses grupos defendendo as mesmas posições que os governistas em relação ao julgamento do mensalão.

Como se percebe o moinho da confusão recebe água de todos os lados. Para superar esse processo o mais adequado continua sendo a elaboração e defesa de um programa que dialogue não com setores políticos, às vezes pequenos, mas com as demandas concretas da população. Se bem articulado não há risco de isolamento político, tampouco de se ser considerado sectário.

No entanto, é preciso ser firme e consequente. Não dá para pegar, por exemplo, a demanda popular moradia e depois se rebaixar de forma ridícula com a palavra de ordem pueril: "Dilma desapropria". O governo que amplia a mercantilização desse direito e incentiva a especulação imobiliária deve ser combatido e não apresentado como amigo e aliado.

É óbvio que as ações dos governos petistas respingam no conjunto da esquerda brasileira e que as classes dominantes buscam através delas descredenciar a viabilidade de um projeto de esquerda, embora elas próprias estejam se utilizando e apoiando a gestão do capital praticada pelo PT. Mas é provável que, tão logo a crise capitalista se aprofunde no país, e a própria classe dominante pule do barco petista e passe a apontar o fracasso do seu governo como a prova da inviabilidade da esquerda. [3]

Nesse contexto a única forma de se credenciar diante das massas é através de uma luta política consequente, que abandone os equívocos atuais, e que possua um programa claro que contemple as aspirações populares.

Na Europa a ruptura das massas com a socialdemocracia tem sido acompanhada do questionamento, ainda que difuso, da organização social, política e econômica. No Brasil o descrédito com o sistema político já é elevado. O aprofundamento da crise deve levar esse descontentamento para o econômico e o social.

Saber se posicionar desde já é fundamental. Até porque na luta de classes a História atesta que o preço pago pelos vacilos políticos é alto e as suas consequências trágicas.


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[1] Como exemplo temos a quase ausência de crítica pública ao Bolsa Família, programa indicado pelo Banco Mundial no melhor estilo dar com a mão esquerda para melhor poder tomar em dobro com a direita (o referido banco sugere a aplicação desse programa em conjunto com cortes na previdência, na saúde e na educação). No caso do Brasil tal programa foi indicado pelo tucano Marconi Perillo, cujos créditos foram reconhecidos pelo próprio Lula, no dia do lançamento.

Essa falta de coragem se torna ainda mais vergonhosa quando se percebe que, em 2000, um já domesticado Lula se referia nesses termos aos programas assistencialistas:

"(...) lamentavelmente no Brasil o voto não é ideológico (...) e lamentavelmente você tem uma parte da sociedade que pelo alto grau de empobrecimento ela é conduzida a pensar pelo estômago e não pela cabeça. É por isso que se distribui tanta cesta básica. É por isso que se distribui tanto tíquete de leite. Porque isso, na verdade, é uma peça de troca em época de eleição. E assim você despolitiza o processo eleitoral. Você trata o povo mais pobre da mesma forma que Cabral tratou os índios quando chegou no Brasil, tentando distribuir bijuterias, espelhos para ganhar os índios. E eles distribuem alimentos. Você tem como lógica manter a política de dominação que é secular no Brasil (...)"

[2] Mensagem da Direcção Central à Liga dos Comunistas. Março de 1850.

[3] A socialdemocracia européia era apresentada, pelas classes dominantes, como uma esquerda inteligente e moderna, uma alternativa aos "anacrônicos" que insistiam no desejo de superar a sociedade existente. Bastou a crise econômica bater na porta para a bajulação evaporar e o socialismo (tsc!) ser responsabilizado pelo fracasso da via socialdemocrata de gestão do capital.

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